tag:blogger.com,1999:blog-170412222009-07-09T09:16:23.535+01:00Luís Graça > BlogpoesiaPrimeiro estava no Blogue-Fora-Nada, que era uma caserna da tropa. Agora chama-se Luís Graça & Camaradas da Guiné. E vão três. Não desertei. Mudei-me apenas para este Tê Dois. Rés de chão com jardim, barbecue e vista para o mar, as Berlengas da minha infância ao fundo: para poder cultivar as minhas blogarias de luxo. Dispenso a piscina, mas não as falésias de Paimogo ou a praia da Peralta,na Lourinhã. © Luís Graça (2006-2008). Direitos reservados.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.ptBlogger82125tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-15769732473991001312009-05-10T10:27:00.005+01:002009-05-10T10:46:19.556+01:00Blogantologia(s) II - (81): Bela Helena, abelha de mel e ferrão<a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SgahblES9PI/AAAAAAAAVnI/PtAARtP1mO8/s1600-h/Vale_Frades_Junho_2007_LG_DSC06183.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5334128303845602546" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SgahblES9PI/AAAAAAAAVnI/PtAARtP1mO8/s400/Vale_Frades_Junho_2007_LG_DSC06183.JPG" border="0" /></a> Vale de Frades, Lourinhã > Junho de 2007 > A lotaria da geografia e da história<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br /><strong>O sexo em tempo de guerra (*)</strong><br /><br />Amorosa Helena,<br />pequena fula dengosa,<br />salva das garras do Islão<br />por zelosos missionários,<br />católicos,<br />apostólicos,<br />romanos,<br />mas não da faca da fanateca,<br />que te extirpou,<br />na festa do fanado,<br />o teu belo clitóris,<br />para te tornares o colchão de todas as camas,<br />a Vénus negra de batalhões inteiros,<br />a iniciadora sexual de tugas,<br />mancebos<br />que as sortes vieram arrancar às saias das mamãs,<br />a alegre,<br />a divertida,<br />a traquinas companheira de muitas farras de caserna,<br />correndo, nua e lasciva,<br />do regaço de tropas bêbedos que nem cachos,<br />para o abrigo mais próximo<br />quando às tantas da madrugada<br />soava o canhão sem recuo,<br />estoirava o morteiro 82,<br />disparavam os RPG<br />e silvavam as balas das Kalash!...<br /><br />Bela Helena de Bafatá,<br />que sabias pôr na ordem<br />os arruaceiros pára-quedistas de Galomaro<br />que te batiam à porta a pontapé,<br />quando eu estava contigo,<br />deitado na tua liteira,<br />e me dispensavas pequenas gentilezas<br />- um ronco de missangas, vermelhas,<br />uma noz de cola,<br />uma cantilena da tua infância,<br />um punhado de mancarra seca ao sol,<br />uma talhada de papaia que trazias do mercado -,<br />sempre que eu ia a Bafatá<br />e procurava a tua companhia,<br />na melhor das hipóteses,<br />uma vez por mês,<br />no dia de folga dos guerreiros de Bambadinca…<br />Tu e as tuas amigas de Bafatá,<br />do Bataclã,<br />que tanto trabalho deram<br />ao competentíssimo furriel enfermeiro Martins,<br />que nunca punha os pés fora da sua morança,<br />e que eu duvido que alguma vez tenha ido a Bafatá,<br />o nosso querido Pastilhas,<br />que vivia 24 horas dentro do arame farpado,<br />no perímetro militar de Bambadinca,<br />trabalhando incansavelmente,<br />de bata branca,<br />em prol de uma Guiné Melhor,<br />que nos aturou mil e um travessuras,<br />bravatas,<br />praxes,<br />esperas,<br />serenatas,<br />tainadas,<br />emboscadas,<br />partidas de mau gosto,<br />brincadeiras estúpidas e perigosas,<br />bebedeiras de caixão à cova<br />e que sobretudo nos curou<br />de alguns valentes esquentamentos…<br /><br />Destes e doutros males de amores,<br />dos milhões de unidades de penicilina<br />com que tu subtilmente te vingaste dos machos,<br />estás perdoada, Helena,<br />abelha do mel e do ferrão.<br />Afinal, quem vai à guerra,<br />dá e leva…<br />Tu curavas-nos dos males da alma,<br />o Pastilhas das mazelas do corpo…<br />Entretanto, quando a guerra acabou,<br />para mim<br />e para os demais tugas da CCAÇ 12,<br />por volta do mês de Março de 1971,<br />não tive tempo de te devolver<br />a pulseira de missangas vermelhas,<br />nem sequer de te dizer uma palavra,<br />um Adeus, até sempre,<br />um adeus, triste,<br />com saudade, morabeza,<br />essa coisa que os tugas nunca te souberam explicar,<br />mas sem regresso,<br />e sem lágrimas,<br />que Lisboa estava ali,<br />tão longe e tão perto...<br />Prometi guardar de ti<br />a doce lembrança,<br />das tuas estridentes e saudáveis gargalhadas,<br />da tua voz rouca e sensual,<br />da tua fala encantatória,<br />do cheiro exótico do teu corpo,<br />das tuas sagradas funções de sacerdotiza<br />do amor em tempo de guerra…<br /><br />Imagino que a tua vida não tenha sido fácil<br />depois da independência,<br />se é que lá chegaste,<br />com vida e saúde…<br />Se sim, não sei como viveste esse dia,<br />24 de Setembro de 1974,<br />não sei te raparam o cabelo,<br />ou se te apedrejaram, amarrada a um poilão,<br />ou se te violaram<br />ou se te renegaram para sempre,<br />que a pior das mortes<br />é a morte social.<br />Nunca mais tive notícias tuas,<br />mas, dez anos,<br />revendo mentalmente<br />a minha primeira viagem,<br />por terra,<br />em pleno chão fula,<br />do Xime até Contuboel,<br />onde os esperavam os nossos queridos nharros,<br />ao longo do interminável dia 2 de Junho de 1969,<br />o teu nome,<br />o teu rosto,<br />a tua voz,<br />o teu odor,<br />o teu corpo,<br />a tua púbis,<br />e as tuas gargalhadas, quiçá magoadas,<br />vieram-me à lembrança…<br />E essa lembrança tocou-me.<br /><br />Lembrei-te de ti,<br />da história que se contava sobre ti,<br />passada em Ponta Coli,<br />entre o Geba e o Udunduma,<br />frente à vasta bolanha de Samba Silate,<br />agora seara inútil de capim alto,<br />com o cadáver do furriel vagomestre do Xime nos braços.<br />Lembrei-te de ti<br />e das minhas escapadelas a Bafatá…<br />Ia-se a Bafatá,<br />a bonita e alegre Bafatá colonial,<br />para limpar a vista,<br />entrar no café da Dona Rosa,<br />ver as manas libanesas,<br />comprar umas bugigangas da civilização,<br />comer o bife com ovo a cavalo na Transmontana,<br />dar um salto ao Bataclã<br />e passar pelo Teófilo,<br />para o copo de despedida,<br />antes de apanhar o último Unimog,<br />de regresso a Bambadinca...<br /><br />Eram os únicos momentos do mês<br />em que eramos donos do nosso tempo,<br />em que a nossa liberdade não estava cercada<br />de arame farpado e minas,<br />nem pensávamos na emboscada de ontem<br />nem na operação de amanhã.<br />Também foste, à tua maneira,<br />uma heroína daquela guerra,<br />minha impossível amiga colorida,<br />separada pelos papéis<br />que nos obrigaram a representar<br />no teatro da tragicomédia daquela guerra…<br />Daí figurares,<br />contra toda a ortodoxia<br />(do teu povo, fula,<br />dos teus missionários, cristãos, que te queriam a alma,<br />dos tugas, putos de vinte anos,<br />que apenas te queriam o corpo,<br />dos revolucionários do PAIGC<br />que não te terão perdoado<br />o teu colaboracionismo com os tugas,<br />para mais sendo tu conterrânea do pai da Pátria,<br />o pobre do Amílcar Cabral<br />tantas vezes morto e remorto<br />ao longo destes anos todos),<br />daí figurares, dizia eu,<br />na minha galeria de heróis<br />e de heroínas…<br />Por direito próprio,<br />com todo o direito,<br />com o direito que ganharam as mulheres do teu país,<br />pobres,<br />as mais pobres dos mais pobres,<br />mas sempre dignas e corajosas,<br />apesar de ofendidas e humilhadas,<br />exploradas,<br />violentadas pelo sistema,<br />pela guerra,<br />pela dominância dos machos,<br />pelo imperativo da sobrevivência,<br />pela lotaria da geografia e da história…<br />Aceita esta pequena homenagem da minha parte.<br />Em contraparida,<br />dá-me o derradeiro prazer,<br />esse prazer tão terno,<br />de te ouvir soltar as tuas gargalhadas,<br />minha safada Helena de Bafatá,<br />onde quer que estejas,<br />...na terra,<br />no céu<br />ou no inferno!<br /><br />Luís Graça<br /><br />_________<br /><br />(*) Publicado originalmente no blogue Luís Graça % Camaradas da Guiné > 9 de Maio de 2009 <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2009/05/guine-6374-p4306-blogpoesia-46-o-sexo.html">Guiné 63/74 - P4306: Blogpoesia (46): O sexo em tempo de guerra (Luís Graça)</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-1576973247399100131?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-51458504671600029742009-04-24T13:30:00.001+01:002009-04-24T15:45:41.885+01:00Blogantologia(s) II - (80) O menino da escolinha do FiofioliUm dia os historiadores haverão de ganhar dinheiro <br />à nossa conta, <br />da nossa e dos pobres guinéus <br />que andaram, tal como nós, <br />com a canhota na mão, <br />no Fiofioli, <br />em Guileje <br />ou noutros sítios lá no "cu do mundo, <br />longe do Vietname".<br /><br />Eu não estive no Fiofioli, <br />em Março de 1969,<br />no decurso da Operação Lança Afiada. <br />Já estava no Campo Militar de Santa Margarida,<br />com outros camaradas,<br />com guia de marcha para a Guiné, <br />aonde chegaríamos em finais de Maio desse ano <br />para formar, <br />em Contuboel, <br />a futura CAÇ 12, <br />uma companhia de "nharros", de fulas ... <br /><br />E também nunca lá fui depois, <br />ao Fiofioli, no meu tempo. <br />Nem eu nem ninguém, que eu saiba. <br />Estivemos só nos arredores, <br />mas ainda longe, <br />em operações, com a nossa tropa-macaca.<br /><br />Se algum de vocês, algum dia, <br />antes, durante e depois da guerra, <br />esteve no mítico Fiofioli <br />(que pena eu não poder pôr isto no meu currículo!), <br />peço-vos que me mandem o vosso testemunho, <br />alguma estória, <br />alguma foto, <br />alguma pulseira de missangas,<br />vermelhas,<br />algum caderno escolar, <br />mesmo sujo e rasgado, <br />alguma lágrima de algum menino,<br />balanta ou beafada, <br />que nesse dia, <br />em 15 de Março de 1969, <br />não pôde ir à sua escolinha, <br />como de costume, <br />debaixo do belíssimo poilão da sua tabanca, <br />porque teve de fugir <br />e cambar o Rio Corubal, <br />à pressa, <br />em pânico, <br />sob as bombas dos T-6 <br />e dos Fiat G-91,<br />a metralha do helicanhão,<br />e os gritos dos seus pais e irmãos: <br />"tuga, tuga, gosse, gosse"...<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-5145850467160002974?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-38408478474424536042009-04-16T22:13:00.002+01:002009-04-16T22:48:46.059+01:00Blogantologia(s) II - (79): Rua da Conceição nº 100, Lisboa, 1976<a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/Seel9t3RMJI/AAAAAAAAVTU/cq_ctT7i5l8/s1600-h/Lisboa_Casa_Alentejo_17Jan2009_LG_DSC06012.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5325407564090912914" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 273px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/Seel9t3RMJI/AAAAAAAAVTU/cq_ctT7i5l8/s400/Lisboa_Casa_Alentejo_17Jan2009_LG_DSC06012.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Terreiro do Paço (antes do terramoto de 1755) > Azulejos (pormenor) > Casa do Alentejo > 17 de Janeiro de 2009.<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br /><strong>Rua da Conceição nº 100, 1976</strong><br /><br /><em>Blogarias.<br />Papéis velhos,<br />amarelecidos,<br />desenterrados do baú.<br />Literalmente,<br />do baú do sótão da casa e da memória.<br />Outros tempos.<br />Outros estados de alma,<br />se é que a alma tem estados,<br />como a matéria<br />que é sólida, líquida ou gasosa.<br />Em 1976, o mundo ainda era<br />a preto e branco.<br />Não havia televisão a cores.<br />Nem computadores pessoais.<br />Era a pré-história de qualquer coisa<br />que mal se advinhava.<br />Havia a IBM<br />e as <em>main frames</em><br />e as máquinas da Bull<br />e o cartão perfurado.<br />E a guerra fria,<br />que ironia.<br />Escrevias numa maquineta<br />de dactilografar,<br />levezinha,<br />daquelas portáteis.<br />Imperial, inglesa, vitoriana.<br />AZERT ou HCESAR ?<br />Não, não tinha certificação de qualidade.<br />Eras estudante de sociologia.<br />Um safado,<br />Um sacana,<br />Um semi-privilegiado<br />Do hemisfério norte.<br />Trabalhador-estudante.<br />Ex-combatente<br />Da guerra colonial.<br />Com sorte.<br />E com culpa por ter tido sorte.<br />Trabalhavas na Rua da Conceição,<br />nº 100.<br />Na Baixa.<br />Num velho prédio pombalino.<br />Ao serviço do fisco.<br />E do seu projecto de modernização.<br />E apanhavas o já famoso 28,<br />o eléctrico amarelo da Carris,<br />para ires almoçar a casa.<br />Moravas nas traseiras da Infante Santo,<br />no bairro da Lapa dos pobres,<br />dos criados da velha nobreza decadente.<br />Numa parte de casa de estudantes<br />e de obscuros professores de economia<br />que um dia irão vingar-se<br />do triunfo do mercado.<br />Travessa do Possolo, meu caro,<br />Nº 17, 19 ou 21,<br />já não me lembro.<br />Tinhas posto um anúncio no <em>Página Um</em>,<br />uma pasquim esquerdista,<br />dirás tu quando tiveres 70 anos.<br />Tentando a sorte de arranjar<br />uma casa ou parte de casa.<br />Que quem casa, quer casa.<br />Que a crise de habitação já não é de agora,<br />vem de trás,<br />desde que congelaram as rendas<br />e prometeram o bacalhau a pataco<br />à rapaziada da classe operária.<br />Ainda te recordas<br />que o anúncio (pessoal) começava assim:<br />"A um capitalista<br />que leia o 'Página Um' por engano"…<br />Arranjaste uma parte de casa.<br />Estudavas à noite.<br />Eras casado.<br />Não tinhas filhos.<br />Mas houve um senhor ministro,<br />O Sottomayor,<br />o Cardia,<br />paz à sua alma,<br />que decidira mandado fechar o teu instituto,<br />o ISCPS.<br />Em nome da normalização<br />democrática.<br />Tinham tirado o U ao velho ISCSPU,<br />depois da queda do império colonial.<br />Sanearam as 'múmias', os profes.<br />Decapitaram o conselho científico.<br />Importaram latino-americanos para ensinar<br />a sociologia da mudança, da revolução.<br /><em>Os assistentes e os estudantes tomaram o poder.</em><br />Alguém escreveu nas paredes do Palácio Burnay,<br />que era o homem mais rico de Portugal<br />no virar do Século XIX.<br />Nada que não se tivesse visto antes,<br />noutros tempos,<br />noutros lugares.<br />O poder tem horror ao vazio.<br />O Sotto Mayor Cardia tinha horror ao vazio.<br />Foste para o ISEG,<br />Onde continuaste a martelar<br />O economês e o sociologuês.<br />Outros como o pobre do Salgueiro Maia<br />ficaram por lá,<br />na Guerra Junqueiro,<br />para acabar a antropologia.<br />Para gerir mais presídios transformados em tristes museus.<br />Imagino que ele fosse bom em etnologuês,<br />que é o dialecto que nos resta,<br />à porta de entrada da Europa.<br />Mas os sociólogos e os economistas foram corridos.<br />Acabaste, no 3º ano,<br />por ir parar ao ISCTE,<br />do senhor engenheiro Sedas Nunes.<br />Algumas destas blogarias<br />são dessa época, de 1976/1977.<br />Outras são até mais antigas.<br />Tinhas-lhes perdido o rasto.<br />Já não te reconheces totalmente<br />no que escrevias nessa época.<br />Não tens que te reconhecer,<br />que um homem não é de pau,<br />nem cara de pau,<br />nem de pau santo,<br />nem de cera,<br />nem de marfim.<br />Nem é feito de uma só peça,<br />a canivete,<br />Mas não rejeitas esses escritos<br />nem vás branqueá-las,<br />nem muito menos sorteá-los.</em><br /><br />o tempo era de outono<br />e de 1976<br />o lugar poderia ser portugal<br />porta do cavalo da europa<br /><br />exercícios de estilo,<br />atenção meus senhores<br />isto é um assalto,<br />façam exercícios compensatórios,<br />mãos ao ar,<br />cabeça direita,<br />nada de truques,<br />impressões de viagem no eléctrico<br />Estrela rua da Conceição,<br />fichas de leitura<br />na diagonal,<br />escrita automática,<br />contributo para um novo modo de produzir<br />e de viver<br /><em>faits divers</em><br />a ideologia que se consome todos os dias<br />à mesa da boa consciência,<br />o direito de cagar ao ar livre,<br />consagrado na constituição,<br />já,<br />reclamavam os velhos anraquistas,<br />notícias necrológicas,<br />Max Weber, Durhkeim,<br />a epistemologia,<br />histórias aos quadradinhos dum maginal-secante,<br />boletim metereológico<br />da revolução que o não será,<br />revolução pr’amanhã.<br />Prá mamã.<br />Mas quem pediu uma revolução pr’ amanhã, prá mamã ?<br />Cartas clandestinas<br />ou nem por isso,<br />folha dominical para os dias cinzentos da semana,<br />informações pidescas ou pós,<br />relatório do crime,<br />pequena enciclopédia da via sexual<br />dos sete aos setenta anos,<br />o ânus horrível de 76,<br />a bancarrota,<br />que o FMI vem aí,<br />o arroto da banca<br />nacionalizada, nossa,<br />diziam os bancários agora banqueiros,<br />títulos de caixa alta<br />o tédio em tempo de paz,<br />a imaginação para a prisão,<br />recortes de A a Z,<br /><em>curriculum vitae</em> oprimido e explorado,<br />cadastrado,<br />o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos,<br />transgressões íntimas,<br />o elogio do colchão ortopédico,<br />misérias e grandezas do(a) capital,<br />blá blá,<br />o livrinho vermelho dos maoístas<br />onde a explicação do mundo<br />cabe numa metáfora,<br />peças em 1 acto (sexual),<br />fogo sobre o revisionismo<br />e o social-facismo,<br />parecer sobre o estado calamitoso do reino,<br />a arte de fugir ao fisco,<br />os contos do vinho tinto,<br />a autofagia,<br />o fantasma do Pessoa<br />na tabacaria da esquima,<br />no Martinho da Arcádia,<br />ali tão perto,<br />ou a economia política<br />ao alcance de todas bocas,<br />proletas de todo o mundo (re)uni-vos.<br />ou melhor: os destroços das batalhas perdidas<br />dos últimos dois séculos.<br /><em>Vous aimez Marx ?</em><br />A angústia em papel celofane,<br />poesia,<br />amor,<br />ao domingo,<br />na Rua da Conceição nº 100,<br />um pardieiro,<br />arte,<br />guerra,<br />solidão,<br />solidariedade de classe,<br />revolução de manhã, sol à tarde,<br />como a eira de sequeiro<br />e a horta de ragadio:<br />misturem bem e bebam frio!<br />Haraquiri dum <em>petit-bourgeois,</em><br />aqui e agora<br />comem-se castanhas assadas<br />no jardim da Estrela.<br /><br />PS - Nesse tempo não havia velhos.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-3840847847442453604?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-33956842522578184412009-04-15T20:24:00.004+01:002009-04-15T20:38:50.691+01:00Blogantologia(s) II - (78): A guerra como forma (heróica) de suicídio... altruista<a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeY0sgd6EpI/AAAAAAAAVTE/KKbX6_VWkes/s1600-h/Mocambique_Sergio3_1968_TN.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5325001548646453906" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 271px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeY0sgd6EpI/AAAAAAAAVTE/KKbX6_VWkes/s400/Mocambique_Sergio3_1968_TN.JPG" border="0" /></a><span style="font-size:85%;">Moçambique > Mueda > CART 2369 (1968/70) > O 2º sargento miliciano Sérgio Neves junto a um mural onde se lê: "Em Mueda, os cordeiros que entram, são lobos que saiem. Adeus checas". Recorde-se que o checa, em Moçambique, era o nosso pira ou periquito (*)<br /><br /><br />Foto: © </span><a href="mailto:cfneves@netcabo.pt"><span style="font-size:85%;">Tino Neves </span></a><span style="font-size:85%;"> / </span><a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/"><span style="font-size:85%;">Luís Graça & Camaradas da Guiné</span></a><span style="font-size:85%;"> (2007). Direitos reservados.<br /></span><br /><br /><br />A guerra <strong>como forma (heróica) de suicídio altruista<br /></strong><br />Quem terá sido o 'grafiteiro'<br />(avant la lettre...)<br />que escreveu:<br />"Em Mueda, os cordeiros que chegam, são lobos que saem" ?<br /><br />É um pensamento que é válido<br />para todas as situações de guerra.<br />Os jovens, quase imberbes,<br />os meninos de sua mãe<br />(como escreveu o grande Pessoa),<br />que chegam à frente de batalha,<br />ainda são cordeiros,<br />inocentes,<br />virgens,<br />imaculados...<br />O horror e a violência da guerra<br />irão transformá-los em lobos,<br />em duros,<br />em violentos,<br />em conspurcados...<br />Não necessariamente predadores,<br />assassinos,<br />criminosos...<br />(que é o estereótipo<br />que o ser humano ainda guarda<br />do pobre do lobo mau!)...<br /><br />Mas há, seguramente, uma perda de inocência:<br />nenhum de nós foi para a Guiné<br />e veio de lá impunemente,<br />igual...<br />Os nossos amigos e familiares deram conta disso:<br />já não éramos os mesmos,<br />nunca mais fomos os mesmos...<br /><br />Acho que é isto<br />que o inspirado autor do mural de Mueda quis dizer.<br />É claro que há também aqui<br />a dose habitual de bravata e de fanfarronice:<br />é uma frase para intimidar<br />os 'checas', os 'piras', os 'maçaricos', os novatos...<br /><br />Também os militares, profissão de risco,<br />têm a sua ideologia defensiva,<br />as suas crenças,<br />os seus talismãs,<br />os seus mesinhos<br />(usavam-nos os guerrilheiros<br />na Guiné,<br />em Angola,<br />em Moçambique,<br />não obstante a sua 'formação' racionalista,<br />marxista-leninista,<br />dita revolucionária)...<br />A bravata e a fanfarronice,<br />além das praxes e do álcool,<br />ajudavam-nos, a todos nós,<br />a lidar com o medo,<br />as situações-limite,<br />a morte,<br />o sofrimento, físico e moral,<br />a impotência,<br />o desespero…<br /><br />Não há, nunca houve,<br />super-homens,<br />super-heróis:<br />há apenas deuses,<br />que inventámos, à nossa imagem e semelhança,<br />e para quem transferimos qualidades e defeitos humanos...<br />Que inventamos todos os dias…<br />Precisamos dos mitos,<br />das lendas,<br />da efabulação,<br />do pensamento mágico,<br />mesmo sob a roupagem (enganadora) da ciência e da tecnologia.<br /><br />Daniel Roxo deve funcionar,<br />para os nostálgicos do paraíso perdido do 'apartheid'<br />(Moçambique, Rodésia, África do Sul...),<br />como o Che Guevara<br />que (ainda) funciona como um ícone,<br />tanto para os jovens sem ideologia de hoje,<br />como para os ‘cotas’,<br />os seus pais e tios,<br />os velhos revolucionários românticos<br />que queriam, nos anos 60 e 70,<br />incendiar o mundo,<br />criando um, dois, três, muitos Vietnames!...<br /><br />Há homens que são incapazes de deixar de combater...<br />Mesmo, no limiar da decadência física,<br />a adrenalina da guerra é mais forte que a razão...<br />É um pulsão muito forte.<br />O que terá levado este e outros compatriotas nossos<br />a alistar-se nas forças especiais do regime racista da África do Sul<br />e a morrer em Angola por uma pátria que não era a sua ?<br />Poderei perguntar o mesmo pelos cubanos<br />que morreram em Angola (mas também na Guiné).<br />Dir-me-ão que lutavam por um mundo em que acreditavam,<br />por uma bandeira,<br />por uma causa que era a sua razão de vida...<br />Sou céptico:<br />o ser humano é motivacionalmente muito complexo<br />e manipulável<br />e moldável…<br />Creio que a guerra também poder viciante,<br />havendo homens que nela entram<br />e dela nunca mais saem...<br />A guerra pode ser uma forma (heróica) de suicídio...<br />altruista.<br /><br />_________<br /><br />Nota de L.G.:<br /><br />(*) Vd. postes do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:<br /><br />6 de Julho de 2007 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007/07/guin-6374-p1927-estrias-de-via-3-srgio.html">Guiné 63/74 - P1928: Estórias de vida (3): Sérgio Neves, meu irmão: em Moçambique, o Mercenário, amigo do lendário Daniel Roxo (Tino Neves)</a><br /><br />7 de Julho de 2007 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007/07/guin-196374-p1933-questes-politicamente.html">Guiné 63/74 - P1933: Questões politicamente (in)correctas (30): os cordeiros e os lobos de Mueda ou a adrenalina da guerra (Luís Graça)</a><br /><br />6 de Agosto de 2007 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007/08/guin-6374-p2032-estrias-de-vida-4-ainda.html">Guiné 63/74 - P2032: Estórias de vida (4): Ainda sobre o meu irmão, o Srgt Mil Sérgio Neves, que foi amigo em Moçambique de Daniel Roxo (Tino Neves)</a><br /><br />24 de Setembro de 2007 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007/09/guin-6374-p2127-estrias-de-vida-5-srgio.html">Guiné 63/74 - P2127: Estórias de vida (5): Sérgio Neves, meu irmão, um homem bom (Tino Neves)</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-3395684252257818441?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-38892589062042236662009-04-10T22:40:00.001+01:002009-04-15T19:15:01.883+01:00Blogantologia(s) II - (77): Para a Teresa, ao Km 60 da viagem da sua vida...<a href="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFwX6xUqI/AAAAAAAAVSM/bKfmqKqIwDc/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01259.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324668463047856802" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 296px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFwX6xUqI/AAAAAAAAVSM/bKfmqKqIwDc/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01259.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > A tradicional bola de carne da Páscoa...<br /><br /><a href="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFoCp6Q9I/AAAAAAAAVSE/2uw8LKXBMZc/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01243.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324668319901041618" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 253px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFoCp6Q9I/AAAAAAAAVSE/2uw8LKXBMZc/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01243.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Um quadro oferecido pela Joana Graça...<br /><br /><a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFgKoweZI/AAAAAAAAVR8/E_c_i5sEago/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01323.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324668184604735890" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFgKoweZI/AAAAAAAAVR8/E_c_i5sEago/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01323.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Uma nota aristocrática numa das belas casas brazonadas do centro da cidade de Macedo de Cavaleiros...<br /><br /><br /><a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFWeaSrpI/AAAAAAAAVR0/bzzRzOBfVbg/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01307.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324668018114080402" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 266px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFWeaSrpI/AAAAAAAAVR0/bzzRzOBfVbg/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01307.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O regresso às origens, às velas casas de xisto (em Vale de Prados)...<br /><br /><a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFK4LF-hI/AAAAAAAAVRs/s6MxxwxUzVA/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01330.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324667818871224850" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 275px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFK4LF-hI/AAAAAAAAVRs/s6MxxwxUzVA/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01330.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas (aqui conversando com os seus amigos e convidados)...<br /><br /><br /><a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFBKdt6NI/AAAAAAAAVRk/As2lH8QHF3E/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01352.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324667651982485714" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 291px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUFBKdt6NI/AAAAAAAAVRk/As2lH8QHF3E/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01352.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Uma caixinha (neste caso, cesto) de surpresas...<br /><br /><br /><a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUE0THCr3I/AAAAAAAAVRc/deT9WvNmaJo/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01362.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324667430964998002" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 316px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUE0THCr3I/AAAAAAAAVRc/deT9WvNmaJo/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01362.JPG" border="0" /></a> Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Da esquerda para a direita: a Teresa, a Fernanda Rodrigues, professora universitária, e a Inês, filha da Teresa e do João (já falecido), doutoranda em Barcelona...<br /><br /><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324671381835747570" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 315px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUIaRQCEPI/AAAAAAAAVSc/pasaL5G5OBE/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01389.JPG" border="0" /><br />Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Um momento musical (que durou até às tantas): da esquerda para a direita, a Alice, o Manul Salselas e a Inês...<br /><br /><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324671513969174658" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 270px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUIh9fGKII/AAAAAAAAVSk/RjhIqnK_2MY/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01368.JPG" border="0" />Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Da esquerda para a direita, Laura, Bonina e Teresa...<br /><br /><a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUEszl8kII/AAAAAAAAVRU/d5vQ3EHdPuY/s1600-h/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01364.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324667302245601410" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 271px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUEszl8kII/AAAAAAAAVRU/d5vQ3EHdPuY/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01364.JPG" border="0" /></a>Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O David, a Ana Salselas (médica, interna de hematologia no Hospital e São João) e a Teresa..<br /><br /><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324671152627992658" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 336px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeUIM7YpSFI/AAAAAAAAVSU/uJHF0ywmTVM/s400/Vale_Prados_10Abril2009_DSC01370.JPG" border="0" />Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O Daniel, neto dos agricultores que são vizinhos e amigos da Teresa (que vive no Porto)...<br /><br /><br /><em>P’ra Teresa, ao quilómetro 60 da viagem da sua vida…<br /><br />Queremos que saibas<br />que é, para nós, um privilégio<br />o teu nome figurar na lista<br />das nossas amigas… favoritas.<br /><br />De: Alice, Luís, Joana e Laura</em><br /><br /><br />Refrão<br /><br /><em>Aqui estão estes romeiros,<br />Prontos para a tua festa,<br />Que em Macedo de Cavaleiros,<br />Não há amiga como esta.</em><br /><br />Uns mouros, outros morcões,<br />Com mais jeito ou menos jeito,<br />Mas pr’as grandes ocasiões,<br />Todos amigos do peito.<br /><br />Sessenta anos de doçura,<br />Em Vale Prados nascida,<br />És um poço de ternura,<br />És a nossa Teresa querida.<br /><br />Mais que amiga, és irmã,<br />- diz a Alice, mui certeira -,<br />Oráculo, talismã,<br />Uma leal conselheira.<br /><br /><br />Refrão<br /><br /><em>Aqui estão estes romeiros,<br />Prontos para a tua festa,<br />Que em Macedo de Cavaleiros,<br />Não há amiga como esta.</em><br /><br /><br />És da Rua da Alegria,<br />Que já foi a da Tristeza,<br />Diz a Laura, nada tia,<br />P’ra sua vizinha Teresa.<br /><br />Admiro a profissional,<br />Exemplo de competência,<br />No Serviço Social<br />É p’ra nós uma referência.<br /><br />Intuitiva e transgressora,<br />Explorando outros caminhos,<br />És de ti sempre senhora,<br />Mesmo quando nos dás miminhos.<br /><br />Refrão<br /><br /><em>Aqui estão estes romeiros,<br />Prontos para a tua festa,<br />Que em Macedo de Cavaleiros,<br />Não há amiga como esta.</em><br /><br /><br />E o que diz a Joaninha,<br />Artista, coach, ‘voa-voa’ ?<br />- É só mimos, Teresinha,<br />Quando você vai a Lisboa.<br /><br />Há bruxas, duendes e fadas,<br />Quando conversas co’ a gente,<br />Deixas na alma dedadas,<br />E o teu toque a gente sente.<br /><br />Faço versos para elas,<br />E ‘pra eles, por que não ?<br />Mas pr’a Teresa Salselas,<br />…Só um poema-coração!<br /><br />Sessenta é sabedoria,<br />Marca de serenidade,<br />Título de poesia,<br />Prova de felicidade.<br /><br />Refrão<br /><br /><em>Aqui estão estes romeiros,<br />Prontos para a tua festa,<br />Que em Macedo de Cavaleiros,<br />Não há amiga como esta.</em><br /><br />Macedo de Cavaleiros,<br />Vale de Prados,<br />10 de Abril de 2009<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-3889258906204223666?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-79167371380959288552009-03-15T19:10:00.000Z2009-04-15T19:30:19.023+01:00Blogantologia(s) II - (76): Beware of pickpockets!<a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeYmf103_PI/AAAAAAAAVSs/r7IecwF5LaI/s1600-h/Lisboa_Mini_Maratona_Marco_2009_DSC09598.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324985937878842610" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 275px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SeYmf103_PI/AAAAAAAAVSs/r7IecwF5LaI/s400/Lisboa_Mini_Maratona_Marco_2009_DSC09598.JPG" border="0" /></a><br /><br />Foto: Luís Graça (2009). Direitos reservados<br /><br /><strong></strong><br /><strong>Beware of Pickpockets</strong><br /><br /><br />No metro de Lisboa,<br />Colina acima,<br />Rua abaixo,<br />A vida <em>underground.</em><br />Stop.<br />A economia subterrânea.<br />Stop.<br />A morte na alma.<br />Stop.<br />A ponte suspensa<br />Sobre as nossas cabeças.<br />Ponto.<br />Sinais do telégrafo<br />Que morrem, à toa,<br />À tona de água,<br />No estuário do Tejo.<br /><br /><em>Beware of pickpockets</em>,<br />Cuidado com os carteiristas!,<br />Que isto é um assalto<br />À caixa<br />De Pandora.<br />Multibanco.<br />Ruas de ouro e prata<br />Do Novo Mundo<br />Que houvera de chegar.<br /><br />Compro castanhas,<br />Quentes e boas,<br />Em Lisboa,<br />Numa manhã melancólica<br />De Outono.<br />Enquanto a vida segue<br />Pelas ruas, sujas,<br />Da amargura.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-7916737138095928855?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-34056399534640959602008-12-07T11:10:00.002Z2008-12-07T11:20:39.747ZBlogantologia(s) II - (75): MSN para os amigos em viagem<a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/STuwRTuZKjI/AAAAAAAATAg/1ZiT1LP3yPE/s1600-h/Blogue_Areia_Branca_Por_Sol_LG.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5277005199793793586" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 235px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/STuwRTuZKjI/AAAAAAAATAg/1ZiT1LP3yPE/s400/Blogue_Areia_Branca_Por_Sol_LG.JPG" border="0" /></a> O entardecer na Praia da Areia Branca.<br /><br />Foto e legenda: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados.<br /><br /><br /><div>Na Ponta de Sagres<br />Onde o mar acaba<br />E tu, poeta,<br />E tu, arquitecto,<br />Riscas o sonho<br />E desenhas a autoestrada<br />Da liberdade,<br />Pode não haver sol,<br />Mas há o farol<br />Da amizade.</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-3405639953464095960?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-12456627482013608452008-11-14T21:28:00.008Z2008-12-07T11:21:35.314ZBlogantologia(s) II - (74): Contos do barqueiro de Caronte<a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SR3u5eV2F9I/AAAAAAAASu8/IUIwnotz_Rk/s1600-h/Guine_Geba_Enxale_CMS.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5268629810257991634" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 266px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SR3u5eV2F9I/AAAAAAAASu8/IUIwnotz_Rk/s400/Guine_Geba_Enxale_CMS.jpg" border="0" /></a> Guiné > Zona Leste > O Rio Geba, entre o Xime (margem esquerda) e o Enxalé (margem direita), numa foto de <a href="mailto:carlosmarkes@hotmail.com">Carlos Marques dos Santos</a>, ex-furriel miliciano da <a href="http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/guine_guerracolonial6_mansambo.html">CART 2339 (Mansambo, 1968/69</a>), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70).<br /><br />Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Direitos reservados<br /><br /><br /><strong>No Geba Estreito ou os doze contos do barqueiro de Caronte</strong> *)<br /><br /><br />1.<br /><br />Um homem passa o rio,<br />a nado.<br />Um homem atravessa a ponte<br />sobre o rio.<br />Um homem cai ao rio,<br />baleado.<br />Há uma piroga<br />no tarrafo.<br />Metralhada.<br />E flamingos brancos,<br />tingidos de vermelho.<br /><br />2.<br /><br />Um homem pensa na jigajoga<br />da vida e da morte.<br />Um homem olha-se ao espelho.<br />Um homem porfia,<br />e nem sempre alcança.<br />Um homem tem uma crise,<br />de confiança.<br />Um homem do norte<br />camba o rio.<br />A sul.<br />A vau.<br />O Geba Estreito.<br />Que a última coisa a perder<br />é a esperança.<br /><br />3.<br /><br />Um homem desenha uma ponte,<br />imaginária,<br />entre dois pontos<br />de cambança.<br />Um homem põe-se a pau,<br />a caminho do Mato Cão.<br />O inferno em frente,<br />o rio serpente,<br />a bolanha de Finete,<br />um very-light, um foguete.<br /><br />4.<br /><br />E Lisboa ali tão longe...<br />tão azul,<br />tão gregária.<br />Lisboa, o cais<br />de Alcântara,<br />uma multidão de pontos negros.<br />Outra ponte,<br />outro rio.<br />Saudades a mais.<br />Um nó na garganta.<br /><br />5.<br /><br />Um homem do norte<br />faz o corte<br />epistemológico<br />dos pré-conceitos etnocêntricos.<br />Quem sou eu, viajante ?<br />Quem és tu, barqueiro ?<br /><br />6.<br /><br />O homem é o mal escatológico<br />que atravessa o céu<br />de bronze.<br />O homem é o jagudi<br />em voos concêntricos.<br />O homem é a hiena que ri.<br />O ferreiro,<br />de outrora, hoje o dari.<br />O homem é o pássaro-bombardeiro.<br />O animal alado.<br />O helicanhão.<br />O falo de fogo.<br />O obus catorze.<br />O RPG Sete.<br />O Katiusha.<br /><br />7.<br /><br />Um homem é apanhado pelo macaréu<br />da história.<br />Como um cão.<br />Sem glória.<br />E na bolanha de Finete<br />descobre que não há ponte<br />nem salvação,<br />que há terra e céu,<br />mas não há elo de ligação.<br /><br />8.<br /><br />Um homem perde a memória,<br />ao afundar-se no tarrafo do Geba.<br />Um homem chama o barqueiro<br />da outra margem.<br />Em vão.<br />O barqueiro faz contas<br />à vida<br />que custa manga de patacão.<br />E ao progresso que não chega,<br />ao motor de explosão,<br />ao motor da Yamaha,<br />à explosão dos cinco sentidos,<br />aos Strella,<br />aos Katiusha,<br />à liberdade de circulação.<br /><br />9.<br /><br />Um homem passa a ponte,<br />a passo,<br />a peso pluma.<br />A ponte armadilhada.<br />O barqueiro conta um conto<br />em cada viagem.<br />O barqueiro de Caronte.<br />Um peso, irmão.<br />Um bilhete de ida<br />Sem regresso.<br /><br />10.<br /><br />Um homem exorta o soldado<br />a que leve a guerra a peito.<br />É o capitão,<br />medalhado,<br />que nunca irá chegar a oficial general.<br />O fantasma do capitão-diabo,<br />vagueando pelo Cuor.<br />Estatuado,<br />na capital.<br /><br />11.<br /><br />Vou no Bissau,<br />num barco à vela,<br />no barco da Gouveia.<br />Aproveito a maré-cheia<br />e o cacimbo sobre Ponta Varela.<br /><br />12.<br /><br />O milícia, número tal,<br />vai morrer,<br />exangue,<br />como a última estrela<br />da manhã.<br />E eu espreito o rio,<br />da minha torre de Babel.<br />Um terceiro homem pára.<br />No semáforo.<br />Vermelho.<br />De sangue.<br />A caminho de Madina/Belel.<br /><br />___________<br /><br /><br />Nota de L.G.:<br /><br />(*) Originalmente publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 10 de Novembro de 2008 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/11/guin-6374-p3431-o-tigre-vadio-o-novo.html">Guiné 63/74 - P3431: O Tigre Vadio, o novo livro do Beja Santos (3): Um homem da palavra e da acção (Luís Graça)</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-1245662748201360845?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-42284079927997556442008-10-30T09:04:00.000Z2008-10-30T14:39:30.167ZBlogantologia(s) II - (73): A filha de putice da vida<a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ru2hnStdnhI/AAAAAAAAEvI/VtNXvaBh6e4/s1600-h/Vale_Frades_8Jun07_DSC02712.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5110918848544874002" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ru2hnStdnhI/AAAAAAAAEvI/VtNXvaBh6e4/s400/Vale_Frades_8Jun07_DSC02712.JPG" border="0" /></a><br /><br /><a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ru2hdStdngI/AAAAAAAAEvA/1RKeNiFAoUU/s1600-h/Vale_Frades_8Jun07_DSC02711.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5110918676746182146" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ru2hdStdngI/AAAAAAAAEvA/1RKeNiFAoUU/s400/Vale_Frades_8Jun07_DSC02711.JPG" border="0" /></a> Lourinhã > Praia deVale de Frades > 8 de Junho de 2007 > A capacidade de adaptação e de sobrevivência dos moluscos.<br /><br /><a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RusQdCtdnDI/AAAAAAAAErY/n6vd_aH0ShQ/s1600-h/Lisboa_Benfica_Set207_LG_DSC05687.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5110196293311765554" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RusQdCtdnDI/AAAAAAAAErY/n6vd_aH0ShQ/s400/Lisboa_Benfica_Set207_LG_DSC05687.JPG" border="0" /></a> Lisboa, Benfica > Grafito > 13 de Setembro de 2007 > Alguém um dia escreveu ao Alberto de Lacerda (que morreu há tempos, pobre, só e longe da pátria, como tantos outros poetas portugueses): "Merda, merda purra, para o Alberto de Lacerda com ternura"... Outro poeta, anónimo, anarquista, foi apanhado no Bairro Alto a degradar, ainda mais, com os seus grafitos, o depauperado património edificado da cidade... A prova material do <em>crime</em> ficou lá registada na parede: "Se a merda valesse ouro, os pobres nasceriam sem cu"...<br /><br />Fotos: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br />Ao Zé António que faz hoje anos e a quem a vida tem dado tantas coisas boas, que ele bem merece, mas que também às vezes lhe prega as suas partidas... LG<br /><br /><br />A vida prega-nos muitas partidas,<br />Umas boas e até divertidas,<br />Outras duras, puras e duras,<br />E muitas vezes injustas.<br /><br />A vida paga-se caro,<br />Com língua de palmo,<br />Com cabeça, tronco e membros,<br />Includindo as custas<br />Do processo,<br />Diz o salmo,<br />Devidas pelo <em>continuum</em> do nascer ao morrer.<br /><br />A vida está pela hora da morte,<br />Mas não vale a pena<br />Pedir-lhe contas,<br />Que ela, a vida,<br />É uma viagem sem regresso<br />E está-se nas tintas<br />Para os viajantes,<br />Os inocentes,<br />Os videntes,<br />Os loucos,<br />Os sem abrigo,<br />Os doentes,<br />Os portadores de chagas & apostemas,~<br />Os doentes de dor de dentes,<br />Os poetas, <br />Os arquitectos de sistemas,<br />Os incautos,<br />Os imprevidentes,<br />Os que não fizeram seguro de viagem,<br />Os tontos e as tontas,<br />Como nós.<br /><br />A vida é uma gaiata,<br />Da caravana do Faroeste,<br />Caprichosa,<br />Leviana,<br />De mini-saia,<br />Perna ao léu,<br />Muita lábia,<br />Pouco siso,<br />Licenciosa,<br />Pobretana,<br />A tentar impingir-te<br />O elixir da eterna juventude.<br /><br />Outros, mais avisados e sizudos,<br />Sortudos,<br />Barrigudos,<br />Dir-te-ão, <em>my friend</em>,<br /><em>Que só temos o que merecemos<br />Ou o que conquistámos</em>.<br /><br />A vida é uma roleta russa,<br />A vida sorri-te, com meia cara,<br />E tu sorris à vida, alarve,<br />Como um sorriso amarelo,<br />De orelha a orelha.<br /><br />A vida é um jogo de sorte e azar,<br />Um carrocel,<br />Uma escada de caracol,<br />Uma bolha de ar,<br />Um bordel,<br />Um brevíssimo orgasmo em si bemol.<br /><br />A vida é uma puta<br />Ou é a nossa vida que é uma puta de vida!<br /><br />... Mas um lutador,<br />Um ganhador, como tu,<br />Não vai atirar a toalha ao chão<br />Aos primeiros desaires,<br />Às primeiras filhas de putice da vida!<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-4228407992799755644?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-23936902009342477802008-09-24T13:33:00.006+01:002009-01-30T22:19:57.289ZBlogantologia(s) (II) - (72) Nasceu e morreu um pretinho da Guiné<a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SL69py84aiI/AAAAAAAAMqs/EKHIrlE3LcM/s1600-h/Guine_Cananime_2Mar2008_LG_DSC03921.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241835542055250466" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SL69py84aiI/AAAAAAAAMqs/EKHIrlE3LcM/s400/Guine_Cananime_2Mar2008_LG_DSC03921.JPG" border="0" /></a><br /><span style="font-size:85%;">Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > 2 de Março de 2008 > Uma jovem, da região, que estava grávida, e que tinha o marido em Bissau. Caíu nas boas graças das nossas senhoras, sempre muito maternais: a Júlia, a Alice, a Isabel... Cadi era o seu nome. Vivia em Farim do Cantanhez. Esteve recentemente às portas da morte. E perdeu o seu primeiro e único filho, o Nuninho, de 4 meses. Por paludismo. Por abandono. Por falta de tudo (ou quase tudo). Por falta de cuidados de saúde (primários e secundários). Por falência dos serviços públicos de saúde. Por falta de médicos que vêm estudar para Portugal e não voltam.... Por ser guineense, por ter nascido num dos piores países do mundo no que diz respeito a indicadores de saúde materno-infantil... "Que raiva, que mundo, que desgraça de país" - é a primeira reacção que nos ocorre, a nós, que estamos num país que tem um dos baixos indicadores de mortalidade infantil do mundo... Sofremos, e muito, com estas notícias tristes que nos chegam da nossa querida Guiné... e que nos envergonham a todos (LG).<br /><br />Foto: © </span><a href="mailto:lgraca@clix.pt"><span style="font-size:85%;">Luís Graça</span></a><span style="font-size:85%;"> (2008). Direitos reservados.<br /></span>.<br /><br /><span style="font-size:85%;"><em>(…) “Segundo os dados da UNICEF, em cada mil crianças nascidas na Guiné-Bissau, 233 morrem antes de completar os cinco anos de idade, das quais mais de metade (138) não chegam a fazer o primeiro aniversário”. (…) (Dos jornais)</em><br /></span><br /><br /><strong>Nasceu e morreu um pretinho da Guiné (*)</strong><br /><br /><br />Cadi, de seu nome.<br />Amorosa.<br />Uma ternura.<br />Uma jóia de miúda.<br />Tinha a graça de uma gazela<br />apascentando na orla da bolanha.<br />Era nalu.<br />Vivia em Farim do Cantanhez.<br />Filha de um velho combatente da liberdade da pátria,<br />com direito a pensão<br />ao fim do mês.<br />Estava grávida de muitas luas.<br />Atrelou-se à Júlia e à Alice<br />em Iemberém,<br />no início de Março de 2008.<br />Com aquela candura, doçura, espanto e maravilhamento<br />das crianças africanas,<br />quando vêem uma Mulher Grande, branca.<br /><br />Homem estava em Bissau.<br />Todo o mundo vai p’ra Bissau,<br />onde é a escola da vadiagem e da malandragem.<br />Homem vai embora.<br />Diz que vai à lenha<br />E não mais volta.<br />Que o mundo é bem maior<br />e mais sedutor<br />e bem mais perigoso<br />que Farim do Cantanhez,<br />tabanca interior no interior.<br />E deixa Cadi com a barriga cheia.<br />Agora Cadi vai a Bissau,<br />levantar a pensão do pai.<br />As duas novas mães, tugas,<br />dão-lhe dinheiro para a viagem.<br />Ficam amigas.<br />Prometem dar notícias,<br />de Lisboa, cidade grande,<br />chão dos tugas,<br />e mandar roupa para o menino ou menina.<br />Cadi bem gostaria que fosse menino.<br />Para trabalhar na horta com ela.<br /><br />Agora Menino já nasceu<br />e vai ter nome de padrinho, tuga,<br />Lá longe, bem longe,<br />tão longe,<br />que é preciso tomar avião,<br />avião grande.<br />Nuno, Nuninho,<br />vai ser nome do menino,<br />Por homenagem<br />ao senhor capitão-fula,<br />homem valente de Guileje,<br />Nuno Rubim, hoje coronel.<br />Todo o mundo está contente.<br />Família está contente.<br />Nalu está contente.<br />Agora que o <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/03/guin-6374-p2703-uma-semana-involvidvel.html">Nhinte Camatchol</a> proteja o menino<br />e a sua mãe Cadi.<br />e o avô, pensionista,<br />combatente da liberdade da pátria.<br />E o Estado guineense<br />que ainda paga pensão do avô.<br />Que a vida é a travessia de um rio,<br />cheio de rápidos e de armadilhas,<br />de crocodilos,<br />de diabos,<br />de irãs maus…<br />A vida corre, como a água do rio.<br />Vem tempo das chuvas,<br />vem mosquito,<br />vem insecto, aos milhões,<br />vem virús,<br />vem bactéria,<br />vem fungo,<br />vem nuvem negra,<br />vem tempestade,<br />vem fome,<br />vem doença,<br />vem ave agoirenta,<br />vem a morte, aos quatro meses...<br />Por paludismo!<br /><br />A dor quebra coração da gente.<br />Da Cadi. Da Júlia. Do Nuno.<br />O Nuninho morreu.<br />Dirão as estatísticas:<br />Foi mais um dos duzentos<br />em cada mil<br />que não chega aos cinco anos.<br />A implacável estatística<br />da mortalidade infantil<br />na Guiné-Bissau:<br />138 por mil nados-vivos não sobrevivem<br />ao primeiro ano,<br />diz a OMS.<br />O que é tu podes fazer ?<br />No teu país, há um século atrás<br />também era assim...<br /><br />A Alice não sabia.<br />Não sabia das últimas notícias.<br />Hoje foi comprar roupinhas, lindas,<br />para o filho da Cadi.<br />Ao Colombo,<br />em Lisboa,<br />no chão dos tugas,<br />Tabanca grande.<br />Telefona ao Pepito<br />para saber quando vai,<br />de regresso a casa,<br />em Bissau,<br />no Bairro do Quelelé,<br />Para retomar o belíssimo trabalho da AD.<br />E se ainda tem espaço na mala,<br />ele ou a Isabel,<br />para arrumar uma roupa bonita p'ró menino.<br />Eu deve estar lindo<br />e robusto<br />e saudável.<br />Que em Iemberém, no Cantanhez,<br />os meninos não tinham barriga grande.<br />E eram lindos, robustos, saudáveis.<br />Telefona ao Nuno e à Júlia<br />para saber notícias da Cadi e do Nuninho.<br /><br />Do outro lado da linha,<br />o desalento, a tristeza, a desolação.<br />O Nuninho morreu, aos quatro meses.<br />De paludismo.<br />Sem assistência médica.<br />Sem esperança.<br />Sem salvação.<br />Como um cão vadio,<br />que morre na beira da estrada,<br />no meio do capim,<br />na lixeira do bairro.<br />E a Cadi também esteve às portas da morte.<br />Por paludismo e desinteria.<br />O Nuno e a Júlia providenciaram, a tempo,<br />o recurso a uma clínica privada.<br />Em Bissau.<br />E a Cadi salvou-se.<br />Porque gente amiga e solidária<br />proporcionou os cuidados de saúde decentes<br />que o dinheiro pode comprar.<br />Cadi perdeu o seu menino.<br />Espero que não tenha perdido<br />a fé e a esperança nos seres humanos,<br />mesmo naqueles<br />que assobiam para o lado,<br />enquanto as crianças da Guiné morrem<br />como os cães à beira da picada e do capim.<br />De paludismo.<br />De pneumonia.<br />De diarreia.<br />De má nutrição.<br />De SIDA.<br />De abandono.<br />De indiferença.<br />De falta de médico<br />(Que não volta<br />e fica a ganhar bom dinheiro em Lisboa,<br />Tabanca Grande,<br />Chão dos tugas).<br />E de falta de medicamentos.<br />E de meios de prevenção e tratamento.<br />E das coisas mais elementares e essenciais da vida,<br />como a água potável.<br />ou um mosquiteiro impregnado.<br /><br />O Nuninho nasceu e logo morreu.<br />Um pretinho da Guiné nasceu para morrer.<br />Logo logo,<br />De paludismo,<br />que é a doença da vergonha dos ricos<br />e um dos inimigos mortais dos pobres,<br />nomeadamente em África.<br />O Nuninho não é, não devia ser<br />um número, mais um número<br />para as estatísticas, frias e cínicas,<br />do nosso descontentamento<br />e da nossa má conscência.<br />O Nuninho não era mais um pretinho da Guiné.<br />O Nuninho era um menino nalu,<br />filho da Cadi,<br />sem pai.<br />Ou com um mau pai, ausente,<br />que foi a lenha e não mais voltou.<br />E nesse dia, fatal, em que adoeceu,<br />sem a sorte do Nhinte Camatchol<br />a protegê-lo.<br /><br />Hoje a morte em Bissau tem um rosto:<br />O do menino da Cadi.<br />E a ti, pobre gazela,<br />que direi ?<br />Coragem,<br />és nova,<br />a vida continua...<br />Não tenho palavras,<br />a não ser de circunstância,<br />para calar a tua dor...<br />E mesmo assim sei<br />que irás lutar para vingar a morte do Nuninho,<br />que irás lutar pela felicidade a que tens direito,<br />que irás herdar a coragem do teu velho pai,<br />que lutou por um país novo,<br />onde os meninos pudessem nascer e crescer,<br />lindos, livres, robustos e saudáveis.<br />Não tens outro jeito, Cadi.<br />Não temos mesmo outro jeito,<br />os guineenses<br />e os amigos da Guiné.<br /><br />Luís Graça<br /><br />Setembro de 2008 (**)<br /><br /><em><span style="font-size:85%;">(*) Dedicado à Júlia, à Alice e ao Nuno Rubim, </span></em><br /><em><span style="font-size:85%;">Que na semana de 1 a 7 de Março de 2008</span></em><br /><em><span style="font-size:85%;">se afeiçoaram à Cadi e ao seu futuro menino,</span></em><br /><em><span style="font-size:85%;">que só teve neste mundo</span></em><br /><em><span style="font-size:85%;">direito a uma curtíssima viagem de 4 meses.</span></em><br /><br /><br />(**) Revisto nesta data. Originalmente publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 3 de Setembro de 2008 > <a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/09/guin-6374-p3167-ser-solidrio-19-morreu.html">Guiné 63/74 - P3167: Ser solidário (19): Morreu o Nuninho, da Cadi. De paludismo. De abandono (Luís Graça)</a>.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-2393690200934247780?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt1tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-82306935685846448652008-09-10T21:42:00.002+01:002008-09-24T14:04:14.464+01:00Blogantologia(s) II - (71): Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma a uma madrinha de guerraCom o atraso de décadas,<br />quiçá de séculos,<br />presto hoje o meu preito<br />às mulheres portuguesas<br />que se vestiam de luto<br />enquanto os maridos ou noivos ou namorados ou irmãos<br />ou simplesmente amigos<br />andavam na guerra do ultramar.<br />Ou guerra colonial, como se queira.<br />Já foi há tanto tempo<br />que eu perdi as contas aos contos,<br />às estórias,<br />às vidas,<br />às lendas,<br />às narrativas.<br /><br />Venço, por fim, a minha relutância,<br />o meu preconceito,<br />o meu medo do irracional<br />e porventura o meu medo visceral do sagrado,<br />e presto a minha homenagem<br />às mulheres que rastejavam no chão de Fátima,<br />implorando à Virgem o regresso dos seus filhos,<br />sãos e salvos.<br />Só as mulheres, em bando, são capazes<br />de implorar a piedade dos deuses<br />e ao mesmo aplacar a sua ira,<br />para logo a seguir imprecar contra eles,<br />se for caso disso.<br /><br />Decididamente,<br />sem pejo nem pudor,<br />presto a minha homenagem<br />às mulheres que continuavam,<br />silenciosas e inquietas,<br />ao lado dos homens<br />nos campos,<br />nas fábricas<br />e nos escritórios.<br />Por que havia um silêncio<br />que não era cumplicidade,<br />que não era traição,<br />que era inquietação,<br />que não era claudicação,<br />que era a raiva a crescer<br />dentro do peito,<br />que era porventura já<br />a emergência, a explosão<br />da revolta e da liberdade.<br /><br />Descubro a cabeça,<br />tiro o chapéu,<br />ajoelho-me,<br />perante estas mulheres do meu país<br />que ficavam em casa,<br />rezando o terço à noite,<br />como a minha mãe<br />e as minhas manas<br />e até o meu pai,<br />a quem, de resto,<br />nunca agradeci este gesto de amor.<br />Nem em público nem em privado.<br />Nunca saberia, porventura, merecê-lo<br />nem muito menos agradecê-lo.<br /><br />Mas também endosso<br />as minhas palavras de admiração<br />às que aguardavam com angústia,<br />pelo aerograma,<br />na hora matinal<br />(e às vezes mortal)<br />do correio,<br />vindo do SPM número tal.<br />Sem esquecer as que,<br />muito poucas,<br />subscreviam abaixo-assinados<br />contra o regime e contra a guerra.<br />Às que, muito poucas,<br />escreviam,<br />liam,<br />tiravam a stencil<br />e distribuíam<br />comunicados e folhetos clandestinos.<br /><br />Às que, também raras,<br />sintonizavam altas horas da madrugada<br />as vozes da rádio que vinham de longe<br />e que falavam de resistência<br />em tempo de solidão<br />e de servidão.<br /><br />Homenageio, sim, àquelas que, muitas,<br />tiravam carinhosamente<br />do fumeiro (e da barriga)<br />as chouriças<br />e os salpicões<br />e os nacos de presunto<br />e as morcelas<br />e as alheiras<br />que iriam levar até junto dos seus filhos,<br />homens-toupeiras,<br />no outro lado do mundo,<br />no calor dos trópicos<br />e na humidade dos abrigos,<br />um pouco do amor de mãe,<br />das saudades da terra,<br />dos cheiros da casa e dos animais,<br />dos sabores da comida,<br />e da alegria da festa.<br /><br />Mas também, e por que não,<br />às, muitas,<br />e em geral adolescentes, virgens,<br />e às jovens solteiras,<br />namoradeiras,<br />que se correspondiam com os soldados<br />mobilizados para o ultramar,<br />na qualidade de madrinhas de guerra.<br /><br />Não tive, nunca quis ter,<br />madrinha de guerra,<br />por preconceito,<br />por orgulho e preconceito,<br />por achar que era uma instituição ou criação<br />do Estado Novo,<br />dos senhores da guerra,<br />e das senhoras que os geravam…<br /><br />Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma<br />a uma madrinha de guerra.<br /><br /><br />Lisboa, 1981/2008<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-8230693568584644865?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-49127061276666802582008-09-01T16:25:00.006+01:002008-09-09T09:28:33.805+01:00Blogantologia(s) II - (70): Deixa que os que gostam de ti, te apapariquem<a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SMQ2PTxcPvI/AAAAAAAAMtY/al38TZzkh6c/s1600-h/Praia_Areia_Branca_Agosto_2008_Surfistas_DSC00530.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5243375502799683314" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SMQ2PTxcPvI/AAAAAAAAMtY/al38TZzkh6c/s400/Praia_Areia_Branca_Agosto_2008_Surfistas_DSC00530.JPG" border="0" /></a><br /><br /><a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SMQyn3__QxI/AAAAAAAAMtI/RNXY7DGPeD4/s1600-h/Praia_Areia_Branca_Agosto_2008_Surfistas_DSC00523_v2.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5243371526794724114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/SMQyn3__QxI/AAAAAAAAMtI/RNXY7DGPeD4/s400/Praia_Areia_Branca_Agosto_2008_Surfistas_DSC00523_v2.JPG" border="0" /></a><br />Lourinhã > Praia da Areia Branca > Agosto de 2008 > Surfistas ao sol...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados<br /><br /><strong></strong><br /><strong></strong><br /><strong>Aforismos de Agosto</strong><br />(a pensar em ti)<br /><br /><br />Agosto é vento,<br />É areia,<br />É sal,<br />Contra as pálpebras dos marinheiros<br />Que morreram nos teus sonhos.<br />Nunca deixes morrer os sonhos.<br />Os teus sonhos.<br />Nem os marinheiros de olhos azuis<br />E cabelos louros ao vento<br />Que subiam os mastros dos navios<br />Do teu museu do mar, imaginário.<br /><br />Tu que vieste com o vento norte,<br />Ganhas novo fôlego e alento<br />E outra leveza<br />Ao perfazeres os dez mil passos<br />Diários, matinais, no areal.<br />Para que o corpo não crie raízes.<br />E a gente possa desfrutar a beleza<br />Da enseada de Paimogo.<br /><br />O melhor de Agosto<br />São as esplanadas<br />Das pequenas terras de Portugal,<br />À beira mar.<br />Tão cheias de nadas,<br />Tão saloias,<br />Tão pimbas,<br />Tão belas.<br />Conheci-te numa delas.<br /><br />Agosto são os escorpiões tatuados<br />Nos corpos<br />Das <em>petites filles portugaises</em><br />Que voltam à terra dos avós.<br />Agosto são as alegrias e as vertigens<br />Do regresso.<br />Porque voltamos sempre às origens.<br /><br />Os únicos que têm de vencer<br />São os surfistas.<br />Vencer a onda,<br />O vento,<br />A areia,<br />O sal.<br />Não temos que destruir para vencer.<br /><br />Agosto é também<br />O puro desejo da mãe<br />Pelo filho incestuoso.<br />Lânguidas mamãs,<br />De mamas flácidas.<br />São focas estiradas ao sol.<br />São focas.<br />São fofas.<br />Como é bom ser mamã,<br />E foca<br />E fofa<br />E babada.<br /><br />O melhor de Agosto<br />É teres o dia todo<br />Por tua conta,<br />O dia, a semana, o mês.<br />Os dias úteis do mês.<br /><br />Mas o melhor de Agosto é o teu dia.<br />Dezoito.<br />E estamos cá todos,<br />A apaparicar-te...<br />Deixa que os que gostam de ti,<br />Te apapariquem.<br /><br />Lourinhã,<br />Rua da Misericórdia,<br />18 de Agosto de 2008.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-4912706127666680258?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-57184861205218948042008-09-01T16:18:00.003+01:002008-09-01T18:33:51.238+01:00Blogantologia(s) II - (69): O fim da notícia, ou nem sequer isso<strong>O fim da notícia, ou nem sequer isso</strong><br /><br />Pedimos desculpa,<br />Mas hoje não há notícias…<br />Um dia gostaria de acordar sem notícias.<br />Sem televisão.<br />Sem jornais.<br />Sem Internet.<br />Sem o ruído das ondas hertzianas.<br />Sem mensagens.<br />Sem mensageiros.<br />Sem imagens <br />Nem palavras.<br />Nem sequer as duas últimas palavras<br />Do locutor de serviço a pedir desculpa<br />Por não haver notícias.<br /><br />Um dia gostaria de acordar<br />Com a notícia do fim da notícia.<br />Ou nem sequer isso.<br />A notícia do fim do circo mediático.<br />Ou nem sequer isso.<br />Gostaria de acordar<br />Só com o buraco negro do ecrã<br />À minha frente<br />A milhões de anos-luz<br />No meu telescópio.<br />Um dia gostaria de acordar<br />No mais absoluto silêncio.<br />Nem ouvir sequer o ruído<br />Do vaivém das ondas do mar.<br />Ou nem sequer isso.<br />Um dia não gostaria sequer <br />de acordar.<br /><br />Vimeiro, Lourinhã, 21 de Agosto de 2008, Bicentenário da Batalha do Vimeiro (1808-2008)<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-5718486120521894804?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-75822776395914406712008-09-01T16:03:00.004+01:002008-09-01T18:39:11.179+01:00Blogantologia(s) II - (68): Gracias à la (mo)vidaA vida é <em>la movida</em>.<br />É Sagres.<br />É Boémia.<br />E choco frito.<br />Tudo o que a gente gosta.<br />Uma esplanada à beira-mar.<br />O sol.<br />A maresia.<br />A boa vida.<br />A sorna.<br />O fado.<br />A morna.<br />O <em>dolce far niente</em>.<br />Com a gente de quem se gosta.<br />Muito, pouco ou nada.<br />Mais a Nossa Senhora dos Milagres<br />Que te acode,<br />Quando aflito.<br />Enquanto a maré sobe.<br />E a noite espreita.<br />E a morte não pré-avisa.<br /><br />Olha a moreia da costa,<br />Que é a melhor do mundo.<br />A vida é pregão.<br />A vida é merda.<br />A vida é Sagres, é Boémia.<br />A vida é hipoglissémia.<br />A vida é adrenalina.<br />A vida é prego a fundo.<br />A vida é stresse.<br /><br />Sexta-feira à tarde,<br />Ao fim da tarde,<br />Uma hora antes do pôr do sol.<br />A vida é festa. <br /><em>La fiesta, amigo.<br />Vengo de la altiva Castilla.</em><br />No TGVê espanhol<br />Que não paga imposto <br />único <br />de circulação.<br />Que o futuro não paga imposto, <br /><em>Nuestro hermano.<br />Pressupuesto, amigo.<br />Que viva la siesta!<br />Que viva la vida!</em><br /><br />Mas agora que vem aí a crise,<br />Como é que eu chego à ponta mais <br />acidental<br />Da Europa ?<br />Para comer o meu choco frito,<br />No bar da Peralta, <br /><em>A las cinco de la tarde</em>.<br />Com navios negreiros, <br />Fantasmagóricos,<br />Na linha do horizonte,<br />A quinze milhas.<br />Com os jacobinos do Junot<br />Na película da memória.<br />O Vimeiro aqui tão perto.<br />Com autos de fé, <br />Mouros, judeus, corsários,<br />No meu ADN de português<br />Sem história,<br />Maçarico, maltrapilho, errante.<br />No mar onde naufragam<br />Todas as boas consciências<br />E se afinam as ciências,<br />As ditas duras mais as ditas moles.<br /><br />Um homem sorri com meia-cara<br />O sorriso amarelo do cinismo.<br />Aqui, <br />No cabo da terra,<br />Onde se proclama a ditadura do sucesso.<br />E do novo riquismo.<br />Com o isco<br />Da vã glória de ganhar<br />A medalha olímpica.<br />A vida eterna.<br />O Nobel. <br />Um lugar no paraíso.<br />O Olimpo,<br />Condomínio fechado dos deuses.<br />Que dos perdedores não reza a História.<br /><br />A vida é la movida<br />No Peralta Bar,<br />Que não vem na lista do <em>Expresso</em><br />Da Coma, Mesa & Roupa Lavada.<br />Haja lugar à mesa, <br />comprida,<br />e valha-nos Baco, velho compincha.<br />Viva o Portugal do petisco!<br />Viva o mês de Agosto!<br /><br />Deixei os meus velhos<br />Institucionalizados<br />Nacionalizados<br />Alegaliados<br />Sedados<br />Securizados<br />Acorrentados<br />À árvore do Welfare State.<br />Na Atalaia,<br />A caminho do Porto das Barcas.<br />Ficaram aos cuidados de uma ucraniana<br />Que era enfermeira na sua terra,<br />E da santa padroeira <br />dos pescadores,<br />A Nossa Senhora da Guia.<br />Que há sempre uma santa para todas as aflições,<br />Das dores do parto <br />À agonia da morte.<br />Que às vezes, mais vale a morte<br />Que tal sorte.<br /><br />Tenho insónias às cinco da manhã,<br />Mesmo sabendo que da janela<br />Do quarto dos meus velhos<br />Há uma linda vista para as Berlengas.<br />E que a associação é<br />Cultural,<br />Social,<br />Artística,<br />Desportiva<br />e Humanitária.<br /><br /><em>Minha mãe, minha avozinha,<br />Tens a graça até no nome,<br />Não é por seres mais velhinha<br />Que de amor passarás fome.</em><br /><br />Passo pela loja do chinês,<br />Fugido de Tianamen,<br /> E compro um prato<br />De Alcobaça, pintado à mão,<br />De contrafação.<br />Com quadras pimbas<br />Ao amor de mãe…<br /><br /><em>Brilhas como uma estrela,<br />No teu quarto, lá no lar,<br />Tens uma linda janela,<br />Com vista de céu e mar.</em><br /><br />Quem disse que a vida é bela,<br />E que as mães é que dão cabo dela ?<br />Desligo o botão da televisão,<br />Puxo o reposteiro da janela<br />Donde vejo o mundo a cor de rosa,<br />Arrumo o cavalete<br />E as tintas do arco-íris.<br />E peço uma posta de moreia frita<br />E um copo de tinto.<br />É a hora da doce melancolia<br />E do leve sentimento de culpa<br />E da idiota reflexão sobre a idiossincrasia<br />De se ser velho, europeu e português,<br />Na ponta de uma navalha <br />Da economia <br />Da política<br />Da demografia<br />E da geografia.<br /><br />Não escolhi nascer.<br />Não escolhi pai e mãe.<br />Não escolhi o pedaço de chão onde fui parido.<br />E não sei o que farei com este poema,<br />Que não vale um algoritmo<br />Nem um simples teorema.<br />E que não é de protesto<br />Nem é manifesto.<br />Entre a ciência da morte <br />E a fé da ressurreição,<br />Haverá sempre uma santa<br />Que me valha.<br />Ou uma azinheira ou uma carvalha<br />Onde possa pôr a uma santa aparecida<br />Que me salve da má consciência<br />De la movida.<br /><br />Lourinhã, Praia da Peralta, Agosto de 2008<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-7582277639591440671?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-12029305411139937582008-09-01T15:51:00.006+01:002008-09-01T18:41:29.109+01:00Blogantologia(s) II - (67): Se tens galinha perdês, não a mates nem a dês<strong>Se tens galinha perdês, não a mates nem a dês</strong> <br /><br />Como era simples a vida da camponesa<br />Que ia ao monte buscar lenha<br />No carro de bois.<br />Ou que, de saco à cabeça,<br />Ia levar o grão de centeio <br />À azenha.<br />E que abria as pernas, depois,<br />Ao seu homem e seu amo,<br />No meio do campo de milho.<br /><br />Que quadro,<br />Que pintura,<br />Que beleza,<br />Tardo-naturalística,<br />O desta humilde portuguesa,<br />Sem rosto,<br />Sem nome,<br />Sem registo,<br />Sem trilho.<br />Sem a mística<br />Nem a estética do Movimento Nacional Feminino.<br /><em>Porra e lenha,<br />É quanto a venha</em>.<br /><br />Como era simples e brutal<br />A vida da mulher do campo<br />No tempo em que ainda havia<br />A distinção socioantropológica<br />Entre a cidade e o campo.<br />E havia o carro de bois,<br />E a maçã, biológica,<br />E o império colonial,<br />E a costeleta de Adão<br />E as criadas de lavoura eram violadas<br />Em cima da meda da palha de centeio.<br />Enquanto os bois gemiam<br />E as rodas do carro chiavam<br />E o abade pregava:<br /><em>Freiras e frieiras<br />É coçá-las e deixá-las</em>.<br /><br />Como eram imutáveis as leis<br />Que regiam as relações<br />Entre machos e fêmeas,<br />Entre fidalgos e rendeiros,<br />Entre donzelas e donzéis,<br />Entre soldados e capitães,<br />Entre ricos e pobres<br />Entre operários e patrões.<br />E cada um tomava o seu lugar<br />No desconcerto das nações<br />Ou no palco do teatro da vida e da morte.<br /><em>Se queres conhecer o vilão <br />Mete-lhe o mando na mão.</em><br /><br />Como era estupidamente alegre<br />A infância, breve,<br />No tempo em que a sardinha<br />Era para três.<br />E sobreviva o mais forte.<br />E o galo cantava<br />Para a galinha perdês.<br />E a vida fiava-se e tecia-se<br />Linha a linha.<br /><br />Como era curta a vida,<br />A esperança de vida,<br />E certa, tão certa, a morte.<br /><em>Muita saúde, pouca vida,<br />Porque Deus não da(va) tudo.</em><br />Ou noutra variante, feminista:<br /><em>Se tens galinha perdês,<br />Não a mates nem a dês.</em><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-1202930541113993758?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-1127805283111574702008-04-06T19:18:00.003+01:002008-09-01T18:44:38.775+01:00Blogantologia(s) II - (66): O Parque dos Poetas do Isaltino<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_Oeiras_Parque_Poetas.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="271" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_Oeiras_Parque_Poetas.jpg" width="180" border="0" /></a> Cartaz do Parque dos Poetas<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br />Originalmente publicado, no Blogue-Fora-Nada, como <em>post</em> de 3 Julho de 2005 > <a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2005_07_03_blogueforanada_archive.html">Blogantologia(s) - XXVII: O Parque dos Poetas </a>.<br />Revisto, hoje, para poder ser dedicado à minha Joana, que faz 30 anos. E a quem há 14 anos atrás, eu escrevi a seguinte máxima singela, típica de um poeta de encomenda(s):<br /><br /><em>"a felicidade,</em><br /><em>(...) se não me engano,</em><br /><em>é também isso</em><br /><em>de seres tu a construir</em><br /><em>a tua própria vida</em><br /><em>com e através dos outros </em><br /><em>e às vezes contra os outros".<br /></em><br /><br /><strong>Parque dos Poetas do Isaltino</strong><br /><br />Poeta é quem tem<br />Uma estátua do Simões<br />No Parque dos Poetas<br />Mas também<br />As contas em dia<br />Nos Serviços Municipalizados<br />De Águas e Saneamento<br />De Oeiras.<br /><br />Poeta não é<br />O Bocage, émulo de Camões<br />Que não tinha maneiras,<br />E, pior que tudo,<br />Dizia asneiras:<br />- Porra, atchiiim!<br />- Ai, tia, que ordinário,<br />Esse Ary.<br />Ah!, o Zé Carlos,<br />O Ary dos Santos,<br />O planfletário,<br />O pseudo-revolucionário,<br />O bardo<br />Do botequim!<br /><br />Ser poeta não é<br />Ter os colhões...<br /><em>In su situ</em><br />Como o Mário,<br />O Cesariny,<br />Que não quis, o parvo,<br />Ganhar o euromilhões<br />E entrar para a história<br />Da literatura do imobiliário.<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1732_1.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1732_1.jpg" border="0" /></a> Entrada para o Panteão Municipal de Oeiras<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Em questões de género,<br />Aplique-se, entretanto,<br />O camartelo<br />Camarário,<br />Perdão, o regulamento municipal<br />Em forma de soneto,<br />Que manda atribuir quotas<br />Às senhoras:<br />- São <em>cotas</em>, senhoras, são <em>cotas</em>!<br />Para o caso são três, não mais,<br />Que foi a conta que Deus fez:<br />Natália, Sophia, Florbela.<br /><br />- Mas que raio de país é este,<br />Em que a poesia é coisa de homens! -<br />Grita o almoxarife dos SMAS.<br />As senhoras, meu Deus,<br />Ficam sempre bem<br />Nas quermesses da cidade,<br />Nos jogos florais,<br />Nos bazares da caridade,<br />Nas feiras e mercados,<br />Na vida e na tela,<br />Nas telenovelas,<br />Nos lavadouros públicos,<br />Na vida-de-faz-de-conta,<br />No passeio das virtudes,<br />Na despedida dos soldados,<br />Na partida das caravelas para a Índia,<br />Nos funerais<br />E nas procissões.<br />Nos comícios.<br />Nas comixões.<br /><br />Um século atrás<br />As nossas queridas poetisas<br />Teriam ficado à porta do parque,<br />Com botinha de pé alto<br />E saias de entrefolhos,<br />Com <em>cliché</em> tirado pelo Joshua Benoliel,<br />Capa na <em>Ilustração Portuguesa</em>,<br />E legenda a condizer:<br /><em>"Não ficam bem as senhoras<br />Que se metem a doutoras".</em><br /><br />Salvou a Natália<br />A honra do gineceu,<br />Ao trocar a poesia por comida<br />Que sempre enche a barriga:<br /><em>"Senhores autarcas, sois a cidade,<br />E eu a cereja no cimo do bolo serei,<br />Não há pólis sem o parque<br />Dos sonhos que vos roubei".<br /></em><br />Dantes os poetas, os machos,<br />De bigode farfalhudo<br />Ou de pálidas cores andróginas,<br />Íam para o Olimpo,<br />Laureados,<br />Ou para o Aljube,<br />Agrilhoados,<br />Ou para o Manicómio<br />Do Rilhafolhes,<br />Ferrados e dopados,<br />Ou para o Tarrafal,<br />Exilados,<br />Ou para o Sanatório,<br />Tuberculizados.<br />Para a Ilha da Madeira,<br />Os mais afortunados.<br />Ou para a Morgue,<br />Congelados,<br />Ou até para o Panteão Nacional,<br />Nacionalizados.<br />Conforme as vagas que houvesse<br />E o equilíbrio dos quatro humores<br />Do Senhor Intendente Geral.<br />Só a Sophia pediu para voltar:<br />Para passar os dias que não viveu<br />...Junto do mar.<br /><br />Hoje o poeta,<br />Meus senhores,<br />Não sonha nem dorme<br />Nos bancos de jardim,<br />Ocupados pelos sem abrigo,<br />Os desistentes,<br />Os repetentes,<br />Ou como se diz agora<br />Os infoexcluídos...<br /><br />Hoje o poeta vai directamente<br />Para o Parque,<br />De preferência já morto e cremado.<br />O Parque dos Poetas.<br />Das merendas.<br />Dos velhinhos<br />Que dão milho aos pombinhos.<br />Das criancinhas<br />Da escola, de bibe<br />Aos quadradinhos.<br />Dos desempregados<br />À espera do subsídio de<br />Desemprego<br />Ou do emprego virtual,<br />Do teletrabalho,<br />Da chamada do <em>call centre</em>,<br />E dos frutos da flexibilidade<br />Organizacional.<br />E a fazer contas<br />À puta da vida<br />Que está pela hora da morte.<br /><br />Em vão, protestou<br />O Rosa,<br />O Ramos, o António,<br />Adjectivando a liberdade:<br />Mas que coisa horrorosa<br />Se ela não fosse liberdade... livre!<br /><br />O Parque dos Poetas<br />E dos namorados,<br />Do arco e do balão<br />E das quadras<br />Ao Santo António,<br />Milagreiro,<br />Casamenteiro,<br />Brigão,<br />Brejeiro,<br />Fodilhão.<br /><br />Porque a Poesia<br />Quando nasce não é<br />Para todos,<br />Terá já dito um estrangeirado,<br />O Conde de Oeiras<br />E futuro Marquês de Pombal<br />(Volta, Marquês, que estás perdoado!)<br />Aos eleitos e aos camareiros,<br />Atentos e venerandos,<br />Em <em>soirée</em>,<br />No seu paço,<br />Ali mesmo, junto à Marginal.<br /><br />Homens de letras<br />Ou de cânones,<br />Os poetas lusitanos.<br />Míopes, nos seus fatos<br />Poídos e castanhos,<br />Cinzentões.<br />Só o Jorge Sena<br />Era engenheiro.<br />Naval. No papel.<br />Não consta que<br />Construisse ou reparasse<br />Embarcações.<br />O Torga, clínico.<br />O Régio, místico.<br />O O'Neil, publicitário,<br />E claro<br />O David Mourão-Ferreira,<br />Doutor de letras,<br />Universitário,<br />De capa e batina.<br />E o Pessoa, esse, coitado,<br />Era escriturário comercial.<br />Marçanos,<br />Cabouqueiros,<br />Coveiros,<br />Limpa-chaminés,<br />Cantoneiros de limpeza,<br />Calafates,<br />Estivadores,<br />Mineiros,<br />Calceteiros,<br />Picheleiros,<br />Almocreves,<br />Pescadores,<br />Barbeiros-sangradores,<br />Construtores civis<br />Ou outra gente<br />Dos ofícios mecânicos.<br />Nãoo há nenhum,<br />Que se saiba,<br />Que conste da lista imortal.<br />Dos poetas imortais<br />Do Parque do Isaltino.<br />Minto: há o Álvaro de Campos,<br />Guardador de rebanhos.<br />Mas esse não vi lá,<br />Porque é proibido pisar a relva<br />E pastar. E sonhar.<br />E sobretudo apascentar.<br />Guardador de rebanhos,<br />À porta da capital,<br />Parece mal,<br />Destoa.<br />Não dá,<br />Já não é para turista.<br />Não rima com coisa boa,<br />Não rima com Lisboa.<br />Não casa com a modernice<br />Da Oeiras futurista.<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1631_Manuel_Alegre1.JPG"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 230px; CURSOR: hand; HEIGHT: 222px" height="211" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1631_Manuel_Alegre1.JPG" width="224" border="0" /></a> O poeta Manuel Alegre.<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Nem o Alegre, o Manel,<br />Escapou, em vida,<br />Ao destino cruel<br />De ser transformado<br />Em réplica<br />Do homem de mármore.<br />Podiam ter-lhe posto,<br />Ao menos, numa mão, a pena,<br />E na outra a cana de pesca.<br />Há quem jure que é castigo<br />Para o ex-revolucionário<br />Da <em>Praça da Canção</em>,<br />Hoje homem de Estado,<br />Senador da República,<br />Bonacheirão,<br />Canastrão,<br />Arengando para a arraia-miúda do TagusPark:<br /><em>"Em Nambuangongo, tu não viste nada!"...<br /></em><br />Quem não viu nada,<br />Mas que riria<br />Até às lágrimas,<br />Se fosse vivo,<br />Seria<br />O caixa d'óculos do O'Neil,<br />Agora príncipe<br />Do Reino da Dinamarca.<br />Imagino-o,<br />De <em>Ombro na Ombreira</em>,<br />Polidor de esquinas,<br /><em>Desnalgando as gajas</em>,<br />Mesmo não sendo trolha<br />Da construção<br />Nem nunca tendo ido<br />Para o trabalho,<br />De lancheira na mão.<br />Ou de lancheira na mão<br />Para o trabalho,<br />Trocando a mão direita<br />E a esquerda,<br />A lancheira e a mão,<br />Subindo e descendo a Avenida<br />Da Liberdade<br />À espera talvez de uma outra vida,<br />Mais segura,<br />Ou da dita,<br />Que só era de nome,<br />Reza a história,<br />Por causa da Ditadura,<br />De má catadura,<br />De má memória.<br /><br />Mas que pode a palavra, etérea,<br />De um poeta,<br />Surrealista, anarca,<br />Genial,<br />Mas mais que morto<br />E enterrado,<br />Contra a palavra, de pedra e cal,<br />De um senhor autarca,<br />No seu feudo, no seu horto, no seu olival?<br /><br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1714_Florbela.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="287" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1714_Florbela.jpg" width="235" border="0" /></a> Forbela Espanca (1894-1930)<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Alguém roubou<br />Uma pérola do colar<br />Da Florbela,<br />Tão excessiva em vida<br />Como na morte.<br />Alguma ninfomaníaca<br />Da tribo gótica,<br />Algum admirador secreto,<br />Coleccionador,<br />Adolescente,<br />Voyeurista,<br />Turista,<br />Visionário,<br />Cleptómano,<br />Antiquário,<br />Violador,<br />Sexista,<br />Misógeno,<br />Detective,<br />Homem aranha.<br />Ou quiçá<br />Algum promotor<br />(I)mobiliário,<br />O próprio dono da obra,<br />O empreiteiro,<br />O engenheiro,<br />O trolha,<br />O arquitecto paisagista,<br />O ajudante do escultor,<br />O fiscal,<br />O fisco,<br />O contabilista,<br />A mulher da limpeza,<br />O guarda municipal,<br />Eu sei lá!,<br />O homem do lixo<br />Ou até o morto da guerra colonial.<br /><br />Outro tonto, senil,<br />Septuagenário,<br />É o Herberto, o Helder,<br />Que recusa viver<br />Com qualidade de vida<br />No Lupanário<br />Da poesia.<br />Porque ser poeta, sortudo,<br />É ser maior, ser mais alto,<br />Viver no enésimo andar do pensamento<br />Com vista para o Tejo e tudo.<br /><br /><br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1591_2.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1591_2.jpg" border="0" /></a> Camilo Pessanha (1867-1926)<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Por mim, confesso,<br />Gostaria de ter sido<br />Um simples Conservador<br />Do Registo Predial<br />Como o Pessanha.<br />E de ter escrito,<br />Não a fria <em>Clépsidra</em>,<br />Mas o <em>Caleidoscópio<br />Lusotropical</em><br />Em mangas de alpaca.<br /><br />Gostaria de ser poeta-funcionário,<br />Da autarquia local,<br />Ou do ministério da eternidade,<br />Com cama, mesa e roupa lavada,<br />Uma tença, mesada ou salário,<br />E ajudas de custo para poder sonhar<br />E ter tempo e vagar.<br />Gostaria de ter feito (e dito)<br />Um soneto<br />A letra gótica,<br />À mão,<br />À moda antiga,<br />Com punhos de renda,<br />Em papel azul, selado.<br />E de ter tido tempo<br />Para fumar ópio.<br />Na época das monções,<br />Em Macau.<br />E de imaginar<br />O eclipse total<br />Do Império Colonial,<br />Como um baralho de cartas monumental,<br />A desmoronar-se,<br />Do Minho a Timor.<br />Gostaria ainda de ter sido l<br />Laureado<br />Pelo Prémio do SNI<br />Do António Ferro.<br /><br />Gostaria sobretudo<br />De ter dactilografado,<br />Em Courier, fonte 12,<br />Sem o mais pequeno erro<br />Nem rasura,<br />O <em>Sentimento de um Ocidental</em><br />E de o ter posto no meu currículo<br />Existencial:<br /><br />"Nas nossas ruas, ao anoitecer<br />Há tal soturnidade, há tal melancolia,<br />Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia<br />Despertam-me um desejo absurdo de sofrer".<br /><br />Em Lisboa<br />Nem poesia má nem prosa boa,<br />Mas prefiro aquele verso,<br />Mais rasca,<br />Mais proleta,<br />Mais canalha,<br />Que evoca os construtores da cidade,<br />Tão bravos quanto boçais,<br />Vistosos nos seus fatos-macacos,<br />E que engrossavam as estatísticas<br />Dos acidentes de trabalho<br />Mortais:<br />"Semelham-se a gaiolas, com viveiros,<br />As edificações somente emadeiradas:<br />Como morcegos, ao cair das badaladas,<br />Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros".<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1600_1.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="230" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1600_1.jpg" width="254" border="0" /></a> Oliveira do Alqueva <em>in su situ</em><br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br />Poeta maior da nossa modernidade menor,<br />Cesário, o Verde,<br />Não alcançou o Século<br />Da energia nuclear.<br />Da viagem à lua.<br />Dos amanhãs que o outro galo cantaria.<br />Da <em>Festa do Avante</em>.<br />Do cimento armado.<br />Do motor de explosão.<br />Dos tsunamis revolucionários.<br />Das alegrias dos futebóis.<br />Do triunfo da ecologia<br />E da googlização.<br />Da bomba que brilhou<br />Mais do que mil sóis<br />Em Hiroshima, meu amor.<br />O Século dos chips<br />E do chispe de porco liofilizado.<br />Do Spínola, prussiano,<br />De monóculo e bengalim<br />Nas bolanhas da Guiné.<br />Da farsa da história.<br />Da caixinha que mudou o mundo.<br />E que mundo!,<br />Basta puxar o autoclismo<br />E fazer glu-glu,<br />Par ires parar aos buracos negros<br />Do admirável mundo virtual.<br />O Século, e que século!,<br />O dos vestidos de fru-fru.<br />Da aspirina e da farinha Amparo.<br />Da Lili e do Caneco.<br />Do Taylor e do Ford on the road.<br />Do terror de Tianannmen.<br />Da Nossa Senhora de Fátima de Felgueiras.<br />Do Luís Moita aos microfones da Emissora Nacional:<br /><em>- Rapazes, não cantem o fado!<br /></em>O século dos comícios da Fonte Luminosa<br />Ou do povão do garrafão<br />No Pontal do Portugal sacro-profano.<br />O século do Portugal de Salazar,<br />Prometendo eleições tão livres<br />Quanto a livre Inglaterra.<br />E do O'Neil e do Ruy Belo.<br />E do Millenium BCP.<br />O Portugal do maneta.<br />E o Portugal futuro.<br /><br />Cesário não conheceu a Amália<br />Nem a Mariza desta Lisboa que eu amo.<br />Não conheceu o Sá,<br />Talvez só o Mário,<br />Não o Soares, mas o Carneiro<br />A fazer o pino.<br />Não figura por isso<br />No Parque do Isaltino.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-112780528311157470?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt2tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-48499041282986485962008-02-14T19:35:00.005Z2008-09-01T16:06:52.105+01:00Blogantologia(s) II - (65): Em dia de São Valentim<a href="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R7SbSQrKH8I/AAAAAAAAIYk/Rtz4seoy1a4/s1600-h/Vila_Praia_Ancora_Fe_2008_LG_DSC02161.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5166925410516737986" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R7SbSQrKH8I/AAAAAAAAIYk/Rtz4seoy1a4/s400/Vila_Praia_Ancora_Fe_2008_LG_DSC02161.JPG" border="0" /></a> Vila Praia de Âncora > 4 de Fevereiro de 2008<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados<br /><br /><br /><br />Um dia vou ter pena de morrer,<br />Só por ti<br />E pelo azul da luz de Lisboa<br />Nas manhãs perfeitas de domingo.<br /><br />Um dia vou ter pena de partir,<br />Não pelo que não vivi,<br />Mas só por que não namorei contigo<br />Nas horas e nas desoras<br />Dos dias em que o azul não era tão azul,<br />Nem os domingos tão domingos,<br />Tão perfeitos,<br />Como tu querias….<br /><br />Ficarás na dúvida<br />Se eu afinal sempre era o teu príncipe<br />Desencantado,<br />E tu a minha chita,<br />Selvagem e pouco borralheira,<br />Em busca do azul perfeito dos domingos<br />À beira Tejo.<br /><br />Fora eu transparente como o céu de Lisboa<br />Lúcido e translúcido,<br />Tão certo e previsível como o Domingo<br />Que é o Dia, perfeito, do Senhor,<br />E talvez tu nunca tivesses escutado<br />Os meus passos na rua estreita do teu bairro,<br />Nem sequer lido a letra do meu fado,<br />Ou estranhado a primeira e única carta<br />Que te escrevi.<br />De Amor.<br /><br />O teu (e)terno namorado<br /><br />Lisboa, Dia de São Valentim, 14 de Fevereiro de 2008<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-4849904128298648596?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt1tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-87038684754000226892008-02-10T23:42:00.000Z2008-02-14T13:27:54.026ZBlogantologia(s) II - (64): A triagem de Manchester ou o paciente português<a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R6HI7JockMI/AAAAAAAAH6Y/UeUUXA3thMw/s1600-h/Portugues_que_desespera_com_paciencia_LG_DSC01080.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5161627566466699458" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R6HI7JockMI/AAAAAAAAH6Y/UeUUXA3thMw/s400/Portugues_que_desespera_com_paciencia_LG_DSC01080.JPG" border="0" /></a> Eurolândia > Portugal dos pequeninos > 2008 > Há sempre um português que (des)espera... no banco do jardim, na bicha do autocarro, no centro de emprego, no banco de urgência, na barra do tribunal, no manicómio, na rua, em casa, na escola, no trabalho, e até no canil...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados.<br /><br /><br /><br /><br />Na sala de espera<br />do Banco de Urgência<br />há gente que desespera<br />com paciência.<br />Gente com paciência de santo<br />ou então pouco esperta.<br /><br />Há gente que não conhece<br />a porta do cavalo<br />do hospital.<br /><em>Sangrai-o e sangrai-o<br />e se morrer,<br />enterrai-o.</em><br />Mais logo,<br />eu estou de banco.<br />Apareça.<br />Ou então desapareça<br />da lista dos vivos.<br /><br />Há um jovem casal<br />de apaixonados,<br /><em>just married</em>,<br />ela de fita amarela,<br />no pulso,<br />lívida, branca, exangue,<br />no banco do hospital.<br /><br />Há dois negros que dormitam<br />e que devem sofrer de paludismo.<br />Estão ali há horas.<br />Podiam vir dos arrozais do Sado,<br />há décadas atrás,<br />tremendo de sezonismo.<br />Mas... <em>mal por mal,<br />antes cadeia que hospital</em><br /><em>e antes justiça que misericórdia.<br /></em><br />Há um casal de paquistaneses<br />ou de indianos.<br />Muçulmanos.<br />Ele é o paciente,<br />de fita vermelha ou laranja,<br />que o sistema de Manchester<br />é quem mais ordena<br />e não olha à cor da pele.<br /><br />Racista, eu,<br />sra. enfermeira ?<br />Até tenho um amigo preto<br />da Guiné.<br />Trabalha, no <em>gosse gosse</em>,<br />no estaleiro do subempreiteiro,<br />que não é nenhum mal essa tosse,<br />é do catarro,<br />é do tabaco,<br />é do tempo.<br /><br />Há velhos.<br />Muitos.<br />Em saldo.<br />Doentes de solidão, abandono, exaustão.<br />Doentes de Alzheimer, Parkinson, fim de estação.<br /><br />Chegam ambulâncias.<br />De Almoçageme, Alcáçovas, Alcácer, Almargem...<br />Da outra margem.<br />Tristes lugares ao sul.<br />Tentativa de suicídio,<br />diz o bombeiro para o securitas,<br />e a chusma de voyeuristas<br />e de tabagistas<br />que estão lá fora,<br />ao frio da noite.<br />A velha quis matar-se com comprimidos.<br />A maluca tinha alguma necessidade de fazer isso,<br />pergunta, resignada, a nora.<br /><br />Alentejanos, ciganos,<br />mouros, morcões,<br />jovens de brinquinho,<br />colarinhos brancos e azuis,<br />activos e não activos,<br />pescadores, traficantes,<br />toxicodependentes,<br />mães solteiras,<br />domésticas em robe de dormir,<br />famílias monoparentais,<br />doentes pré-terminais...<br />E até um um cão, um canito,<br />magricela,<br />a quem os pacientes dão bolachas.<br /><br />Há um português emergente<br />em cada dez.<br />Vermelho.<br />Doente. Paciente. Dormente.<br />Pouco ou nada eloquente.<br />Diz o sistema de triagem de Manchester.<br />Há um português urgente<br />que vem na ambulância da emergência pré-hospitalar.<br />De um triste lugar ao sul.<br />Há um português laranja,<br />que fica em segundo lugar.<br />O resto não conta,<br />são amarelos,<br />fura-greves,<br />racha-sindicalistas,<br />proletas,<br />marretas,<br />hipocondríacos,<br />queixinhas,<br />maus contribuintes,<br />cidadãos de segunda,<br />gente que não presta,<br />gente de baba e ranho,<br />pouca honesta,<br />que fuma e que bebe e que come,<br />e não ouve o Pádua<br />a dizer que no andar é que está o ganho...<br /><br />Que já não há o azul nem o verde<br />do meu país<br />na paleta das cores do gestor<br />dos doentes<br />e das doenças.<br />Que há fé e até caridade,<br />mas pouca esperança, Senhor.<br /><br />É triste e feia e fria<br />a sala de espera da urgência<br />do hospital,<br />Senhora Ministra.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-8703868475400022689?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-59945641369050655852008-01-20T18:04:00.000Z2008-01-20T19:23:51.240ZBlogantologia(s) II - (63): Dizem-nos que estamos a envelhecer<div align="left"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R43x6PahMsI/AAAAAAAAHck/IABg-gxIfpU/s1600-h/Lisboa_Jardim_Botanico_Ajuda_DSC07771.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156043131281552066" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R43x6PahMsI/AAAAAAAAHck/IABg-gxIfpU/s400/Lisboa_Jardim_Botanico_Ajuda_DSC07771.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Tapada da Ajuda > Novembro de 2007<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados.<br /></div><div align="right"></div><div align="right"><br /></div><div align="right"><br /><br /><span style="font-size:180%;"><em>Poema para ser lido por velhos,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>daqueles que já usam óculos com muitas dioptrias,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>ou então essas horríveis lentes de aumentar </em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>que se compram na Loja do Avô,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>e que só servem para ler os títulos de caixa alta do jornal</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em></em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><br /><br /><br />Dizem-nos<br />que estamos a envelhecer.<br />Dizem os demógrafos,<br />que correm, eles próprios, o risco<br />de ver limitado o seu objecto de estudo<br />aos velhos.<br />Dizem as máscaras do Entrudo </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">do nosso descontentamento muito pouco c</span><span style="font-size:180%;">hocalheiro.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os caretos de Ousilhão.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os últimos rapazes da Festa dos Rapazes.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os médicos,<br />que também estão a encanecer.<br />Diz o senhor Ministro da Indústria da Doença<br />que mandou encerrar a maternidade.<br />Por falta de fedelhos.<br />Tenham paciência, meus senhores e minhas senhores.<br />Dizem os hospitéis,<br />a abarrotar de gente na fila para morrer.<br />Dizem os sociólogos,<br />em crise de paradigma<br />existencial.<br />Dizem os jornais<br />que já não vendem mais.<br />Diz o meu geneticista,<br />que anda à procura do gene da eterna juventude.<br />Dizem os futurólogos<br />que lêem nas entrelinhas das camadas de ozono.<br />Diz a minha esteticista,<br />quando o verniz estala,<br />vão-se os anéis,<br />ficam os dedos. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz a vida, malsã.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz a palma da mão e a linha (torta) da vida.<br />Diz a pitonisa de Delfos,<br />a escarnecer<br />da cultura judaico-cristã.<br />Diz a comissária política de Bruxelas,<br />que não foi eleita,<br />muito menos pelos eurovelhos.<br />Diz o Eurostat,<br />que representa a sacrossanta ciência<br />do positivismo do século.<br />E até a Santa Madre Igreja<br />agora sem crianças para baptizar<br />nem selvagens para evangelizar.<br />Não sei o que diz Ela,<br />a Santa,<br />a Madre,<br />a Igreja.<br />Não sei o que é que diz Roma<br />nem Pavia,<br />que não se fizeram num dia.<br />Mas dizem as estatísticas,<br />que, dizem-nos, não mentem,<br />que estamos a embranquecer,<br />a encanecer,<br />a envelhecer,<br />a ensandecer.<br />A morrer, meus irmãos.<br />De solidão.<br />Estamos a morrer.<br />De solidão.<br />Estamos a morrer.<br />De solidão. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Estamos a morrer.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">De solidão.<br />Diz o espelho meu,<br />que o tempo faz o seu trabalho de sapa. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Que o tempo, no final, te mata.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Como nos filmes de terror.<br />Que a vida te está a foder, meu. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz o sino da tua aldeia,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">quando toca a finados.<br />Dizem as tuas rugas.<br />Dizem as tuas brancas,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">as primeiras, não sei onde.<br />Dizem os teus dias cinzentos.<br />Só o Governo esconde<br />a bomba biológica<br />que paira sobre a cabeça<br />dos que hão-de vir.<br />Dizem-me que o Governo tropeça,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">mas não cai<br />só por mentir, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">com as medidas da tendências central.<br />a média, a moda e a mediana,<br />mais o desvio padrão<br />e o erro amostral.<br />Eu sei que o Governo está sujeito à erosão<br />dos ventos<br />e das marés,<br />mas também à irrisão mortal </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">das sondagens.<br />O Governo não deve mentir.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">O Governo deve dizer a verdade,<br />com um grau de confiança de noventa e cinco por cento.<br />Mas nem sempre diz toda a verdade,<br />ou só a verdade,<br />por causa da coesão<br />social,<br />por causa do clima<br />económico,<br />por causa da confiança<br />psicológica<br />do investidor estrangeiro,<br />por causa da liberdade,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">primordial,<br />do consumidor.<br />Dizem que estamos a envelhecer.<br />Dizem-te que há muito ultrapassaste a barreira dos quarenta.<br />Que aos 45 já eras velho,<br />para além do limiar da esperança ao nascer<br />quando nasceste.<br />Dizem-te que seremos velhos<br />em 2025.<br />Um em cada cinco.<br />Leia-se: velhos, mais de 65.<br />E que agora já começou a caça<br />aos talentos<br />aos rebentos,<br />na perspectiva da rarefacção dos recursos humanos.<br />Diz o nosso (e)terno guru.<br />Diz o provérbio que <em>na era de 31, poucos moços, velhos nenhum</em>.<br />Mas não é envelhecimento,<br />é senescência,<br />diz o meu neurologista.<br />Degenerescência, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">dizem os puristas da língua.<br />Diz a neurociência:<br />o mais importante<br />não é perderes 100 mil neurónios<br />por dia,<br />nem a paciência, nem a compostura, nem o controlo<br />dos esfíncteres.<br />Nem a decência.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Deus te livre do Alzheimer e do Parkinson</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">e das demais doenças crónicas degenerativas.</span><span style="font-size:180%;"><br />O que é grave é perderes<br />as redes neuronais<br />e não sei que mais.<br /></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem que estamos a envelhecer, Papi.<br />Porra, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">meu velho,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">o que a vida fez de ti!</span></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-5994564136905065585?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-52133879839520758772008-01-19T17:58:00.000Z2008-01-20T18:39:27.611ZBlogantologia(s) II - (62): O que é feito de ti, Maria Bárbara ? E das operárias de Castelo de Paiva ?<strong>Clarks ou: as multinacionais têm alma ? </strong> (1)<br /><br />Uma das habituais perguntas da Bárbara, <br />e esta por sinal muito pouca metafísica. <br />Perdi-lhe o rasto, <br />à Maria Bárbara, <br />aliás, Barbarian Girl. <br />Só lhe conhecia o nickname,<br />além de uns escassos dados biográficos <br />que ela deixava transparecer nos seus postes, <br />habitualmente escritos em letra minúscula, <br />em estilo telegráfico: <br />lembro-me, por exemplo, que morava em Lisboa, <br />nas Avenidas Novas, e tinha uma avô galega;<br />andava em biologia da Faculdade de Ciências <br />da Universidade de Lisboa. <br />Já deve ter acabado o curso,<br />já ter feito um mestrado,<br />quiça até o doutoramento,<br />tendo depois ficado a engrossar o número dos desempregados jovens <br />com títulos universitários.<br /> <br />Nunca nos cruzámos por aquelas ou outras bandas. <br />Trocámos apenas alguns e-mails. <br />Nunca lhe vi uma foto.<br />Participou em alguns temas de discussão <br />que eu próprio suscitei <br />ou em que intervi, <br />nos saudosos Fóruns do Publico.pt > Cidadania. <br />Um desses temas de discussão foi sobre a <br />"Clarks: ou as multinacionais têm alma?". <br /><br />Revisitei aquele cantinho do ciberespaço, <br />como eu lhe chamava. <br />Com alguma saudade, diga-se de passagem... <br />Dela e doutros cibercidadãos: <br />a Isabel Coutinho, a tabagista militante,<br />o Migoma, <br />o Jota Lourenço, <br />o Cibernocturno, <br />o Dr. Hipócrates, <br />o Fiatux, <br />a Megane, <br />a Raquel, <br />o Eugénio Rosa, <br />a Eva Luna, <br />o J.B. Mendes, <br />o Queirós, <br />o Eljump, <br />o Deus das Moscas, <br />o Bafo de Nuca e outr@s... <br /><br />Incisiva, contundente, agressiva como sempre. <br />A Bárbara.<br />Creio que eu fiquei com um fraquinho por ela.<br />Era uma mulher generosa<br />de uma generosidade que é(era) própria dos verdes anos <br />mas sobretudo de um já maduro sentido de cidadania... <br /><br />BNão se era feia se era bonita.<br />Confesso que gostaria de saber por onde pára ela, <br />a Barbarian Girl. <br /> E já agora gostaria também de saber do paradeiro<br />.daquelas mulheres (e homens) <br />que a Clarks mandou para a rua. <br />Na voragem mediática dos acontecimentos do dia-a-dia, <br />Castelo de Paiva e a sua gente foram durante anos notícia nos media <br />por causa da tragédia da Ponte de Entre-os-Rios <br />e do julgamento dos seus presumíveis responsáveis... <br />Sei que perder o emprego ou a vida não é a mesma coisa. <br />Em todo o caso, pelo seu impacto, <br />o despedimento colectivo do pessoal da Clarks, <br />em Castelo de Paiva, <br />foi notícia nacional por um dia, por uma semana.<br /><br />castelo de paiva ? <br />sabes onde ficava, Bárbara ? <br />eu não... <br />que uma desgraça nunca vem só, <br />dizia então uma operária da multinacional do calçado <br />que, depois de arouca, decidiu fechar a sua segunda unidade fabril <br />em castelo de paiva. <br />mandaram para o desemprego mais 600 trabalhadores. <br />a acrescentar aos outros 300 e tal de há dois anos. <br />primeiro, foram as minas do pejão que encerraram de vez; <br />depois foi a tragédia de entre-os-rios; <br />e depois foi a clarks que se mudou, <br />de máquinas e bagagens forradas a euros, <br />para outro paraíso capitalista. <br />para outra terreola qualquer, <br />talvez parecida com castelo de paiva. <br />talvez do leste europeu, <br />com tabuleta escrita em caracteres eslavos; <br />não importa onde, <br />desde que haja sempre gente disposta a vender a sua força de trabalho <br />por um punhado de cêntimos. <br />é o circo trágico-cómico das multinacionais <br />que montam e desmontam fábricas, <br />em qualquer parte do mundo. <br />faz-me lembrar os recintos das touradas desmontáveis no verão. <br /><br />não creio, tal como tu, Bárbara, que as multinacionais tenham alma. <br />não creio que os tecnocratas que as governam tenham alma. <br />ou que saibam, no mínimo, compreender a raiva das pobres mulheres operárias <br />que entraram tarde para o mundo do trabalho. <br />e que agora se sentiram usadas, abusadas, deitadas fora, velhas, traídas. <br />imagino que seja esse o sentimento de se ser despedido colectivamente. <br />e no entanto o mundo é assim, dizem-nos. <br />os teóricos.<br />os intelectuais.<br />os gurus.<br />os padres.<br />os sociólogos.<br />os políticos.<br />os jornais.<br />e não há volta a dar-lhe. <br />os cães ladram e a circo das multinacionais passa. <br />são elas que governam este mundo. <br />são elas que dão e baralham as cartas. <br />são elas que nos vestem e calçam e criam os mitos que nos alimentam. <br />são elas que são donos do destino de milhões e milhões de pessoas. <br />pobres diabos e diabas (de é que há diabos no feminino, Bárbara), <br />contentes hoje por terem pão para a boca. <br />desesperados amanhã porque já não sabem onde vão buscar com que pagar <br />as prestações da casa e do carro.<br />ouvimos o presidente da câmara de castelo paiva dizer <br />que o total de despedidos eram 25% da força de trabalho industrial do concelho, <br />3% da população do concelho. <br />e nós perguntámo-nos onde estavam então os líderes do nosso país, <br />levando um pouco de conforto e de esperança <br />àquela pobre gente,<br />como na altura da tragédia da ponte.<br />eu não sabia, tu não sabias,<br /> onde ficava castelo de paiva, <br />mas o presidente da república, <br />o primeiro ministro, <br />o ministro do trabalho, <br />o patrão do investimento estrangeiro, <br />e todos os restantes senhores<br />deviam saber onde ficava castelo de paiva. <br />dizem-nos que a esperança é a última coisa a morrer. <br />mas a verdade é que também morre. <br />e infelizmente morreu para os trabalhadores da clarks, <br />uma multinacional sem alma. <br /><br />fui espreitar o <em>site</em> dos gajos. <br />dos sapateiros ingleses.<br />nem uma palavra em português. <br />nem uma palavra em qualquer língua para os seus <em>colaboradores</em>. <br />lá dentro (do sítio), dizem-me, <br />“a world of comfort and style awaits you”… <br />valores como a responsabilidade social, <br />o respeito pelos direitos de quem trabalha <br />ou o cumprimento da palavra dada a uma comunidade inteira, <br />parece que são coisas que não constam dos <em>core values </em>desta multinacional. valores ? <br />são para pisar pelas botas altas das manequins no estrado da alta moda... <br />e depois quem sabia onde ficava castelo de paiva, <br />uma minúscula peça do puzzle da europa das multinacionais ? <br />mas vale a pena, Bárbara, barbaramente revoltada e deprimida. <br /><br /><br />_________<br /><br />(1) Publicada originalmente, noutra versão, em prosa, no Blogue-Fora-Nada, em 26 de Outubro de 2003 > <a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2003_10_26_archive.html">Portugal sacro-profano - IX: O que é feito da Barbarian Girl ? E das operárias de Castelo de Paiva ?</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-5213387983952075877?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-80284591363403174962008-01-06T19:28:00.000Z2008-01-06T20:12:42.506ZBlogantologia(s) II - (61): Lembro-me que era Dezembro<a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R4Ez0vahLlI/AAAAAAAAHSk/9AFS-sVSqtU/s1600-h/Lisboa_Belem_Dez_2007_LG_DSC01599.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5152456429862465106" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R4Ez0vahLlI/AAAAAAAAHSk/9AFS-sVSqtU/s400/Lisboa_Belem_Dez_2007_LG_DSC01599.JPG" border="0" /></a> Lisboa> Belém > A ponte 25 de Abril e o Cristo Rei, ao crepúsculo > 6 de Janeiro de 2007.<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br />Para o <a href="http://jonnydavinci.blogspot.com/2006_01_01_archive.html">João</a>, quando fez 22 anos, e que estava em Florença, no Erasmus:<br /><br />João:<br /><br />Um poema (revisto) que eu escrevi à tua mãe, em 1995, e que eu gostava que tu conhecesses, nestes dias de Janeiro de 2006, em que fazemos anos (tu, a 21, eu a 29):<br /><br />Revisitando o poeta Eugénio de Andrade (Matéria Solar),<br />em busca da Alice<br />Ou:<br />Cinquenta poemas de amor,<br />De Agosto a Dezembro.<br /><br />Cinquenta poemas de amor<br />Por outros tantos anos<br />Que já viveste<br />Entre a aurora boreal<br />E a noite polar.<br /><br />Como poderia imaginá-los<br />Sem ti,<br />Como poderia escrevê-los<br />Sem sequer te imaginar,<br />Como poderia simplesmente dizê-los<br />Sem estares aqui ?<br /><br />Lembro-me<br />De te ter dito Jacques Prévert:<br />- <em>Les enfants qui s'aiment<br />S'embrassent debout<br />Contre les portes de la nuit...</em><br /><br />Lembro-me que era Dezembro<br />E o que em ti respirava<br />Eram os olhos,<br />De costas viradas para a noite<br />Enquanto a terra ardia,<br />Quase um rio.<br /><br />Éramos filhos da madrugada<br />E dormíamos náufragos e nus<br />Entre os búzios,<br />Do vento e dos moínhos<br />Fazendo atalaias<br />Contra o medo.<br /><br />De Abril ficou o travo<br />Da liberdade,<br />A paixão<br />E a arte de esculpir corpos e almas.<br /><br />E aos filhos que fizemos<br />Chamámos Joana e João.<br />Em Agosto, era fatal,<br />Por ti,<br /><em>yo perdi la lhave,<br />El sobrero y la cabeza,</em><br />Entre o Marão e o Cabo do Mundo.<br />De Setembro guardo o cheiro<br />A mosto, a broa e a caldo<br />E a amizade quente e fraterna<br />Da tua gente.<br />Já não há milho verde, milho rei,<br />Mas em Dezembro,<br />Felizmente é Natal!<br /><br />Luís Graça (1995/2006)<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-8028459136340317496?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt1tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-67772342525819841412008-01-01T00:01:00.000Z2008-01-03T19:10:21.108Z(Pré-)Textos (3) - A arte de envelhecer com sabedoria e... sentido de humor no salto (que não queremos seja mortal) para o novo (!) ano de 2008A arte de envelhecer com sabedoria e… sentido de humor, nos nossos provérbios ditos populares no salto... para o ano de 2008:<br /><br />"A morte não escolhe idades"<br /><br />"A saúde nos velhos é mui remendada"<br /><br />"Até aos 40 bem eu passo, dos 40 em diante 'ai a minha perna, ai o meu braço' "<br /><br />"A velhice não tem cura"<br /><br />"Cabelos brancos, flores de cemitério"<br /><br />"De quarenta arriba não molhes a barriga"<br /><br />"Em uma hora se paga quanto se erra em toda a vida (Séc. XVI)<br /><br />"Engorda o menino para crescer e o velho para morrer"<br /><br />"Esta vida não chega a netos nem a filhos com barba"<br /><br />"Esta vida são dois dias"<br /><br />"Esta vida são dois dias e o Carnaval são três"<br /><br />"Hoje com saúde, amanhã no ataúde"<br /><br />"Hoje na figura, amanhã na sepultura"<br /><br />"Hora de morrer não tem retardo"<br /><br />"Mais vale andar neste mundo em muletas do que no outro em carretas"<br /><br />"Mal vai à corte em que o boi velho tosse"<br /><br />"Muita saúde, pouca vida, porque Deus ão dá tudo"<br /><br />"Na era de 31, poucos moços, velhos nenhum"<br /><br />"Na hora da morte não vale a pena tomar remédio"<br /><br />"Não há moço doente nem velho são"<br /><br />"O menino engorda para crescer e o velho para morrer"<br /><br />"O tempo dá o remédio onde me falta o conselho"<br /><br />"O tempo tudo cura "<br /><br />"O tempo tudo cura menos velhice e loucura"<br /><br />"Perde-se o velho por não poder e o novo por não saber"<br /><br />"Por um dia de prazer um ano de sofrer"<br /><br />"Porco de um ano, cabrito de um mês, mulher dos dezoito aos vinte e três"<br /><br />"Prisca idade, priscos tempos" (1)<br /><br />"Quem a trinta não tem siso a quarenta não é rico"<br /><br />"Quem de novo não morre de velho não escapa"<br /><br />"Quem faz em novo paga em velho"<br /><br />"Quem se mata morto fica e, se não morre, entesica"<br /><br />"Só uma porta a vida tem, enquanto a morte tem cem"<br /><br />"Teme a velhice porque nunca vem só"<br /><br />"Um dia pior, outro melhor"<br /><br />"Velho não se senta sem 'ui', nem se levanta sem 'ai' "<br /><br />"Velho que de si cura cem anos dura"<br /><br />Recolha: Luís Graça<br /><br />Graça, L. (2000) - <a href="http://www.ensp.unl.pt/lgraca/textos73.html">Representações Sociais da Saúde, da Doença e dos Praticantes da Arte Médica nos Provérbios em Língua Portuguesa. Parte I : 'Muita Saúde, Pouca Vida, porque Deus não Dá Tudo'</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-6777234252581984141?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-20801724635727543382007-12-01T15:30:00.000Z2007-12-01T16:20:19.473Z(Pré-)Textos (2) - Um Portugal ao espelho, mas pouco narcísico<a href="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R1GGngkAGpI/AAAAAAAAGgI/aumEKCoWKdw/s1600-R/Portugal_CCB_Expo_Magnum_LG1.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5139036663120403090" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R1GGngkAGpI/AAAAAAAAGgI/Pvtk2fXvZyc/s400/Portugal_CCB_Expo_Magnum_LG1.jpg" border="0" /></a> Foto de uma imagem de Koudelka (1976), exposta no CCB. Foto de Luís Graça (2005) > Talvez o melhor retrato do Portugal que nasce e renasce. <br /><br />Exposição no <a href="http://www.ccb.pt/ccb/">CCB (Centro Cultural de Belém, Lisboa)</a> > Espelho Meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum. Data: 1 de Julho a 28d e Agosto de 2005. Comissariado: Alexandra Fonseca Pinho e Andrea Holzherr (Magnum Photos Paris). Produção: Centro Cultural de Belém e Agência <a href="http://www.magnumphotos.com/c/Home_MAG.aspx">Magnum Photos Paris</a><br /><br /><br /><strong>Espelho meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum Photos (1)<br /></strong><br /><br /><strong>1.</strong> Um país tão pequeno e tão periférico (em relação ao centro do mundo, da notícia, do acontecimento, da história, da geopolítica, da economia global) que cabe em mil negativos do arquivo de uma das mais célebres agências de fotojornalismo do mundo: a <a href="http://www.magnumphotos.com/cf/Home_MAG.aspx">Magnum Photos</a>, criada em 1947 por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e colaboradores.<br /><br />Havia registos de 1955, da década de 60, do 25 de Abril de 1974, do PREC (Processo Revolucionário Em Curso)… Depois disso, os fotógrafos foram assobiar para outro lado. Que o mundo é vasto e fotogénico, mesmo quando feio, horrível e sujo. Portugal deixou definitivamente de estar na moda quando a festa acabou. Os ratos abandonaram o navio.<br /><br />Na ressaca da festa, pá, ficaram os bêbados, os loucos, os marginais, os místicos, os poetas, os cães que ladram à lua, as mulheres de preto, os eternos perdedores… Trinta anos depois era preciso <em>bater umas chapas</em> para fazer o <em>upgrade</em> do arquivo. Vieram a Susan Meiselas, , o Miguel Rio Branco, o Joseph Koudelka. Com as suas credenciais da praxe, as suas obsessões de estimação, o seu portfólio, o seu prestígio, os seus mitos, os seus medos, a sua vaidade, o seu génio, o seu código de ética e deontologia profissionais.<br /><br />“Não era de surpreender a desconfiança com que os meus passos eram seguidos enquanto percorria as ruas da Cova da Moura, mas na Cova são propriedade privada. Cada esquina tem uma personalidade distinta” (Susan Meiselas).<br /><br /><strong>2.</strong> A exposição, no CCB, começa na <em>Nos Kasa</em>, a 10ª ilha de Cabo Verde, com seis a sete mil habitantes, incluindo gente oriunda de Angola e de S. Tomé e Príncipe, parte dela imigrantes ilegais. A casa dos náufragos, dos últimos náufragos, do império. Com um fabuloso som de fundo: o coro das mulheres da Cova da Moura. Meiselas teve vontade de lá ir porque ouviu a notícia do <em>arrastão</em> na BBC ou noutra estação global qualquer. De repente, Portugal deu de novo a volta ao mundo. O <em>arrastão</em> de Carcavelos foi notícia (breve), à falta de Tsunami, vulcão, terramoto, atentado terrorista ou castigo divino.<br /><br />Há males que vêm por bem, dirão uns. As fotos da Meiselas, penduradas nas janelas, nas varandas e nos estendais da roupa do <em>gueto</em> da Cova da Moura, acabaram por dar-lhe uma outra dimensão mediática e contribuir para a melhoria da sua imagem e da auto-estima dos seus habitantes, filhos de um deus menor. <br /><br />Os jovens perceberam que a fotografia podia ser uma arma. Que uma foto de Meiselas valia mais do que uma <em>presidência aberta</em>. Ou o estafado, inócuo e eleitoralista discurso de um presidente da câmara qualquer. As associações locais comentaram que a notícia (da participação de jovens desta comunidade, local no já famoso <em>arrastão</em> de Carcavelos) foiraum exagero, mas que acabou por ter um efeito positivo na <em>sócio-economia</em> da ilha. <br /><br />De facto, por 5 euros, os estrangeiros passaram a poder entrar, sem <em>passaporte</em>, na Cova da Moura, com direito a visita guiada e guarda-costas. Por mais 7 euros e meio, o turista, o tótó, podia inclusive provar os sabores da gastronomia local, a melhor cachupa da diáspora creoula.<br /><br />O período de tréguas, boa vontade e estado de graça acabou no dia 17 de Julho de 2005], mas a exposição do CCB continua aberta até Agosto. <br /><br />Entretanto, a polícia vem dizer, pelo seu serviço de relações públicas, que afinal <em>o arrastão nunca existiu: </em>fora uma figura de retórica... País de inventonas, de polícias que gostam de fazer notícia e de jornalistas que <em>emprenham</em> facilmente pelo ouvido, de jornalistas que dão demasiado crédito aos polícias... País de minorias que a maioria nega, escamoteia, ignora. Todos iguais, mas uns mais do que outros.<br /><br /><strong>3.</strong> Miguel Rio Branco (n. 1946), de ascendência lusitana, é o único dos fotógrafos que fala com o coração:<br /><br /><em>“Portugal, o berço dos meus antepassados, das primeiras memórias com significado, dos meus primeiros amores, deixa-me sempre profundamente emocionado. Mais uma vez, procuro as raízes que perdi…”.</em><br /><br />E quem pode viver sem raízes ? É preciso o trabalho do arqueólogo, do paleontólogo, do geólogo, para voltar a aprender a ler as sucessivas camadas que compõem a realidade de Portugal, o unto, o sebo, a epiderme dos portugueses: um coração talhado na pedra, a pedra, o chão, a sombra, a penumbra, as castanhas quentes e boas, o silêncio, a cruz, o mistério, o profano e o sagrado,<br /><br /><strong>4.</strong> Também nada tem de fotojornalismo o olhar de Josef Koudelka… Aqui não há mais tropas, tanques, botas a esmagar a <em>primavera de Praga</em>, os cravos checos. Aqui já não há império, nem do mal nem do bem. Apenas uma paisagem calcinada pelos incêndios que lavram desde o 25 de Abril de 1974 e que nunca mais se extinguiram. Portugal está a arder em fogo lento. Portugal já ardeu. Portugal é consumido por uma trágica paixão. Foi a mensagem que eu li nas legendas que podiam ser em checo ou noutra língua qualquer, desde que falada pelos humanos: <br /><br /><em>“Passei seis semanas em Portugal. Viajei de norte a sul, de este a oeste. Segui um caminho que eu próprio tracei. Tentei ver o máximo. Fiquei surpreso. Com o que Portugal mudou desde os anos setenta. Mas eu também mudei”</em> (Josef Koudelka).<br /><br />Todos nós mudámos, camarada. E, connosco, Portugal, a Europa, a tua terra, o mundo … Mas em 1979, cinco anos depois do poder ter sofrido o risco de ter caído na rua, o que atrai o fotógrafo é a Ladeira do Pinheiro, a santa, a <em>Procissão dos milagres</em>, o Portugal no seu pior, o Portugal sacro-profano (Bruno Barbey, n. 1941).<br /><br /><strong>5.</strong> Mas se o Portugal não tem <em>raça</em> nem <em>fotogenia</em>, tem-nas, uma e outra, os ciganos, as minorias. Registe-se as cenas de um casamento cigano, em 1998 (Bruce Golden, n. 1946). Há ainda o olhar, eslavo, russo, de Georgui Pinkhassov (n. 1952), sobre o Barro Alto, o Chiado, Alfama (1998), a Lisboa saloia, mourisca, judaica, cristã, cristã velha e cristã nova, exótica, pitoresca, labiríntica, que sempre seduziu o olhar do outro, o estrangeiro, desde os francos, os cruzados, o Bráulio no Séc. XVI ou o Byron no Séc. XIX.<br /><br /><strong>6.</strong> Afinal, o único núcleo temático desta mostra (decepcionante, nalguns casos; provocadora, irritante, estimulante, noutros) que se pode qualificar de <em>fotojornalismo</em> propriamente dito é o do 25 de Abril de 1974. Portugal desperta a curiosidade (romântica ? <em>voyeurista</em> ? interesseira ?) dos fotógrafos e de alguns revolucionários profissionais, sem esquecer os perdedores do Chile de Allende, da França do Maio de 68, da contestação à guerra do Vietname…<br /><br />Guy de Querrec (n. 1941), Jean Gaumy (n. 1948) e Gilles Peress (n. 1946) são os três fotógrafos da Agência que estão de serviço ao Portugal do PREC de 1974/75.<br /><br />A fotografia que melhor retrata os anos sombrios de 1976, tão sombrios como os de hoje, tão sombrios como o <em>day-after</em> de todas a s euforias, de todas as orgias sociais, de todos os orgasmos colectivos, em todas as épocas e sociedades, ainda é a de Koudalka, a do homem, maneta, que sai do mar, enquanto uma criancinha berra ao colo da mãe que teima em levá-la ao banho.<br /><br />O <em>Portugal futuro</em>, parafraseando o Ruy Belo, em confronto com o do passado, que acabava de ser liquidado… Confronto ? Nem isso, há um Portugal que sai de cena, o maneta, e outro que entra… Medo de entrar na água ? Mais do que medo, direi que é pânico. O pânico de ter lidar com o futuro, as suas oportunidades e ameaças.<br /><br /><strong>7.</strong> Thomas Hoepker conheceu o Portugal dos anos 60. Um certo Portugal, o da minha adolescência. Trás-Os-Montes que eu só conheci mais tarde. Quem viajava nessa época ? Por que estradas ? <em>A salto</em>, para França, por terras de Espanha. Há uma revolução silenciosa em marcha, que nenhum fotojornalista da Magnum captou. Mas também se viajava de comboio, pela calada da noite, até ao barco que nos esperava no cais de Alcãntara ou da Tocha Conde de Óbidos. Destino: o Ultramar, Angola, a jóia da coroa, depois da perda dos brasis, das índias. Mas também a Guiné ou Moçambique.<br /><br />Em 1964, é ainda o que resta do Portugal rural, pobrezinho, mas feliz q.b., - <em>pobrete mas alegrete</em> - tão bem retratado na fotos do casamento popular ou do latifundiário, à mesa, sozinho, como um cão. Ou ainda do <em>fascismo soft, </em>serôdio, tão podre que irá cair da cadeira com o seu velho criador, uns anos depois. Ainda em 1964, os padres (católicos, não há outros) entronizavam as criancinhas nos ritos e ritmos patrioteiros da Mocidade Portuguesa. Que a Pátria (n)os chamava: “Para Angola, rapidamente e em força!”…<br /><br />Cartier-Bresson e Inge Morath tinham fotografado os portugas de 1955, o Portugal ronceiro e engravatado do salazarismo, recauchutado e recuperado pela NATO, três anos antes do furacão chamado General Sem Medo:”Obviamente, demito-o”.<br /><br />Os fotógrafos da Magnum tinham mais que fazer do que documentar o simulacro de eleições livres para a presidência da <em>república das bananas</em>. A estética do realismo social fixa, enquadra, recorta, emoldura, aquilo que era o Portugal <em>very typical</em> do Secretariado Nacional da Propaganda (mais tarde, Informação), ainda e sempre pela batuta do António Ferro. A Nazaré, o Toinho, de pé descalço, a Maria das sete saias… É ainda e sempre esta pobreza envergonhada dos pobres envergonhados que um dia ainda ousaram sonhar ser donos do mundo.<br /><br />Paralelamente à exposição, um vídeo (uma reportagem que passou na RTP há alguns anos) sobre os documentários (quatro dezenas) que foram feitos por estrangeiros sobre o PREC (o período que vai do 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975). Vários dos jornalistas e realizadores são entrevistados: Robert Kramer, Thomas Harlan… Já o tinha visto na altura. Mas gostei de o rever.<br /><br />Registo a a intervenção do cineasta Thomas Harlan, que filmou o processo de ocupação da Torre Bela, e que vem falar em <em>suicídio </em>das forças armadas portuguesas. Nunca se tinha visto isso. Uns meses antes, no Chile, um exército de estrutura prussiana, esmaga Allende e subjuga o seu próprio povo. Esse suicídio, a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado, lenta mas inexoravelmente, na Guiné. No meu tempo, 1961/71... <br /><br />Esse suicídio (colectivo, institucional), a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado, lá em baixo, na Guiné. Mas a Magnum nunca esteve lá, com os seus fotógrafos, nessa obscura Guiné, província portuguesa, antes colónia, hoje República... da Guiné-Bissau...<a href="http://www.magnumphotos.com/cf/Home_MAG.aspx"></a>. Não estava na Guiné para testemunhar o princípio do alegado suicídio das Forças Armadas Portuguesas. Só Deus pode estar em todo o lado... Mas nessa época também Ele devia andar muito distraído.<br /><br />_________<br /><br />(1) Há uma outra versão, publicada originalmente em 24 de Julho de 2005<br /><a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2005/07/socioblogia-xvii-espelho-meu-ou-os.html">Socio(b)logia - XVII: Espelho Meu... ou os portugas vistos pelos fotógrafos da Magnum </a>(Luís Graça)<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-2080172463572754338?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-55078501403850486362007-11-23T17:45:00.000Z2007-12-01T15:28:03.527Z(Pré-)Textos (1) - Crónica dos dias líquidos<a href="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R0m6EMLgEnI/AAAAAAAAGYw/OepFUSzq7fA/s1600-h/Peniche_Ze_Antonio_Junho_2006_LG_DSC00752.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5136841431144469106" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/R0m6EMLgEnI/AAAAAAAAGYw/OepFUSzq7fA/s400/Peniche_Ze_Antonio_Junho_2006_LG_DSC00752.JPG" border="0" /></a> Peniche > Junho de 2006 > José António Boia Paradela, com o filho Jorge.<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça </a>(2005). Direitos reservados.<br /><br /><br />Prefácio ao livro de Ábio de Lápara, <em>Uma Ilha no Nome: Pequena Crónica dos Dias Líquidos</em>. Lisboa: edição de autor, 2007, 77 pp. (Impressão: Critério - Impressão Gráfica Lda). Ábio de Lápara é o o pseudónimo literário de José António Boia Paradela, natural de Ilhavo, onde nasceu em 1937. Arquietcto, é o sócio-gerente da empresa <a href="http://www.hotfrog.pt/Empresas/Pal-Planeamento-e-Arquitectura-Lda">PAL - Planeamento e Arquitectura Lda</a>.<br /><br /><br />É num cenário pré-apocalíptico, mas perfeitamente verosímil, de destruição da orla costeira devida à progressiva subida das águas do mar, que se desenrola este conto – ou quiçá novela - , sob o título <em>Uma Ilha no Nome</em>… Prefiro simplesmente chamar-lhe <em>narrativa</em>.<br /><br />Pela temática que lhe está subjacente – a morte, o mal escatológico, o pecado, a condenação – faz-me lembrar romances como <em>A Peste</em>, de Alberto Camus, ou o <em>Ensaio da Cegueira</em>, de José Saramago. Tem também ressonâncias da tragédia grega e, no mínimo, poderia dar uma belíssima peça do teatro português.<br /><br />A originalidade (e o talento) do autor (ou não fosse ele arquitecto, de formação e profissão) consistiu em ultrapassar a questão do género ou ter criado um género novo, ao incorporar na sua narrativa o coro dos que se expressam através da palavra muda dos pichadores e grafiteiros das nossas cidades...<br /><br />Eles funcionam, de algum modo, como o coro da tragédia grega, invectivando os deuses, causticando o poder, contestando a (des)ordem estabelecida… No palimpsesto, mil vezes escrito e reescrito, o narrador vais buscar pérolas e pérolas de sabedoria, que vão pontuando e secundando o discurso dos penitentes, reunidos na Assembleia Final do Tempo:<br />- A saudade, mano… a nossa última riqueza! Porque a lembrança é a fonte de onde parte toda a riqueza….<br />- <em>We are born to loose everything, everytime and nothing at all</em>.<br />- Não faças sempre a mesma pergunta. Apenas luta por uma resposta diferente.<br />- Mudei a passagem para ir para a outra margem, esperando que o futuro não seja uma miragem…<br /><br />O que o nosso querido Zé António escreveu, ao quilómetro 70 da sua árdua, mas generosa e bem sucedida caminhada da vida, foi nem mais nem menos do que um belíssima e comovente regresso ao passado, à sua infância, à sua ilha, à sua origem ilhavense… É também a redescoberta da sua/nossa insularidade e da situação-limite que é a própria vida, cercada de sinais de fragilidade, de solidão, de morte e de finitude por todos os lados…<br /><br />Além do narrador, há um <em>alter ego</em> – Irineu – ou mais do que um – seguramente, o Ábio – e uma plêiade de personagens que ainda têm ou tiveram carne e osso:<br /><br />O Avô Materno de Ábio, mais conhecido como <em>O Valente</em>, sepultado na Praia da Tijuca; o Pai de Ábio, marinheiro com 12 anos; a Avó materna, a mãe Rosa… Sem dúvida, o núcleo da sua intimidade, do seu doce lar… Como o pai, sempre ausente e sempre presente, gostava de dizer: “O mundo todo não vale o meu lar”…<br /><br />Mas há também outros homens e outras mulheres ilhavenses, recriados pelo autor, que fazem parte desta galeria de memórias: O Mestre Zé, marinheiro; o Manuel da América; o Sacerdote Manuel, cego; o Sant’Ana, merceeiro e chefe dos escuteiros; o Ismael, o poeta, amigo dos gatos, funileiro, contador de estórias; o João Bocanegra, mais conhecido entre o povo como o Trampolineiro, homem de muitas falas e poucos saberes; a Rosa Cravo, a oficiante do Templo de Vénus; a Joana Paciência, vendedeira de peixe, matriarca, mãe de muitos filhos espalhado pelo mundo….<br /><br />Criado no matriarcado, cercado de mulheres e das suas recordações, Ábio faz, o entanto, da figura do pai a mais bela evocação da narrativa:<br />- Estávamos todos em casa, isto é, ele não estava no mar, que é como quem diz, sabe-se lá onde…<br /><br />Narrativa, é o termo mais exacto: é uma tocante narrativa que se lê de um ápice e por onde perpassa a memória de um povo, de um colectivo: povo das matas costeiras, gentes da areia, povo das águas, homens do bote, pescadores e marinheiros da Terra Novo… Mas também a memória dos lugares da infância: o Vale Central, a Gândara, o Vale das Padeiras, a Laguna, o Mar, sempre o Mar, atraindo e repelindo as gentes tal como Pátio dos Ressoeiros atraía e repelia os adolescentes…<br /><br />Não se pense que é uma narrativa passadista ou pessimista… No final, Irineu (re)descobre o anátema da ilha… no nome, mas também (re)descobre que faz parte de um vasto arquipélago , e que um ilhéu, mesmo quando deixa a ilha, nunca destrói as pontes, o cordão umbilical que o liga ao passado e ao futuro…<br /><br />Zé António, ao quilómetro 70, já não precisavas de provar nada, nem muito menos de fazer jus à ironia queirosiana do Zé Fernandes em relação ao seu príncipe, o Jacinto de A Cidade e as Serras (“Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem”…). Os teus amigos já conheciam e apreciavam o teu talento criativo, mas agora tramaste-os, deixando-os com água no bico, à espera da próxima surpresa…<br /><br />Fica, desde já, marcada na agenda uma próxima paragem ao quilómetro 71. E até lá os meus duplos parabéns, ao jovem escritor e ao veterano corredor de fundo! Escusado será dizer, para mim e para todos nós, quanto é grande o privilégio de te ter como amigo!<br /><br />Luís Graça<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-5507850140385048636?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-14193932193749907152007-11-12T16:59:00.000Z2007-11-25T15:33:38.725ZBlogantologia(s) II - (60) Obsessivamente o mar...<a href="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/Rzw-KMLgCYI/AAAAAAAAGFk/WopsL4Bzy3c/s1600-h/Lisboa_Rua+de+São+Bento_Grafiti_12Nov07_LGDSC07604.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5133046020084599170" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_pMkPOXBWOec/Rzw-KMLgCYI/AAAAAAAAGFk/WopsL4Bzy3c/s400/Lisboa_Rua+de+S%C3%A3o+Bento_Grafiti_12Nov07_LGDSC07604.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Rua de São Bento > Grafito > 12 de Novembro de 2007 > "Vida de Cão"...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados<br /><br /><br /><br />Obsessivamente o mar<br />da tua infância.<br />E as criaturas que o povoavam:<br /><br />A Sereia<br />e a sua melopeia,<br />o seu canto de cigana,<br />fatal,<br />a sua rede,<br />onde afogava os seus pobres amantes,<br />depois de os arpoar com o seu tridente,<br />como se fossem lagostas suadas<br />nas mãos da chefe de cozinha;<br /><br />A Baleia Azul, com a sua enorme bocarra,<br />que te transportava no ventre,<br />qual submarino,<br />até os mais recônditos e inóspitos lugares<br />do centro da terra em fogo;<br /><br />O monstro, o terrível Adamastor,<br />que aterrorizava os teus pobres patrícios e parentes,<br />os Maçaricos de antanho,<br />marinheiros e pescadores,<br />agrilhoados ao cavername das caravelas;<br /><br />A feiticeira Atlântida,<br />a cidade de som e luz,<br />que sempre fascinou os pobres povos ribeirinhos;<br /><br />O Pirata de Perna de Pau e Cara de Mau,<br />que desembarcava na costa,<br />incendiava, estripava, matava, violava…<br /><em>Ou comes A sopa<br />ou Eu chamo o Pirata de Perna de Pau…</em>;<br /><br />A Passarola Voadora<br />que te catapultava para o Novo Mundo,<br />para os paraísos tropicais,<br />os canibais,<br />os praias de palmeirais e de corais,<br />os macacos e os leões;<br /><br />O Búzio Gigante,<br />que podia ser o teu ursinho de peluche,<br />mimado,<br />e que era também o teu carrocel marinho,<br />alucinante<br />e alucinado;<br /><br />E por fim o Moínho do Tio Xico Marteleira<br />que te fazia mover as ondas<br />e regulava as marés…<br />e os teus sonhos de criança<br />e os teus pesadelos<br />nas noites de invernia.<br /><br />Ah!, como o mundo era perfeito<br />Na tua infância.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17041222-1419393219374990715?l=blogueforanadaevaodois.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0