quinta-feira, março 08, 2007

Blogantologia(s) II - (37): Conto(s) do barqueiro do Geba



Africanidades > 8 de Março de 2007 > Do Casamança ao Cacheu

Foto: © Jorge Rosmaninho (2007). (Com a devida vénia...). Extraído do seu blogue Africanidades (Vivências, imagens e relatos sobre o grande continente África vista pelos olhos de um branco... que, por sinal, é também um grande português do pós-império)


Jorge: Roubei-te o teu barqueiro, o teu belíssimo homem da piroga no Cacheu, que eu não conheço. Conheci o Geba, o Corubal, o Udunduma, outros rios, a mesma humanidade, a mesma africanidade...

Revisito de tempos a tempos o teu/nosso blogue, o Africanidades, as tuas vivências, imagens e relatos sobre o grande continente África (re)visto, sentido, cheirado, apalpado, (red)escrito, fotografado, amado por um grande português do pós-império, errante, inquieto, solidário, meridional, global...

Olha, em troca, deixo-te aqui um poema, uma lengalenga que um dia ouvi a um barqueiro do Rio Geba. Não sei fula, nem mandinga, nem balanta. Mas - imagino - a língua dos barqueiros não deve diferir muito de rio para rio, do Geba ao Tejo, e até ao rio da nossa aldeia, como diria o Alberto Caeiro/Fernando Pessoa (O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia /Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia)...

Ao Jorge e ao todos os portugueses errantes, de ontem, de hoje e de amanhã. A todos os barqueiros do mundo. A todos os que querem cambar um rio e não têm barqueiro, nem barca, nem ponte, nem margens, nem pontos de cambança ou de referência... Por fim, ao senhor barqueiro de Caronte para que, quando nos levar, de vez, na sua barca, nos leve com cuidado, com jeito, não vá a gente... acordar. (LG).


Conto(s) do barqueiro do Geba
por Luís Graça (1)


Um homem passa o rio,
a nado.
Um homem atravessa a ponte
sobre o rio.
Um homem cai ao rio,
baleado.

Há uma piroga
no tarrafo.
Metralhada.
E flamingos brancos,
tingidos de vermelho.

Um homem pensa na jigajoga
da vida e da morte.
Um homem olha-se ao espelho.
Um homem porfia,
e nem sempre alcança.
Um homem tem uma crise,
de confiança.

Um homem do norte
camba o rio.
A sul.
A vau.
O Geba Estreito.
Que a última coisa a perder
é a esperança.

Um homem desenha uma ponte,
imaginária,
entre dois pontos
de cambança.
Um homem põe-se a pau,
a caminho do Mato Cão.
O inferno em frente,
o rio serpente,
a bolanh de Finete,
um very-light, um foguete,

E Lisboa ali tão longe...
tão azul,
tão gregária.
Lisboa, o cais
de Alcântara,
uma multidão de pontos negros.
Outra ponte,
outro rio.
Saudades a mais.
Um nó na garganta.

Um homem do norte
faz o corte
epistemológico
dos pré-conceitos etnocêntricos.
Quem sou eu, viajante ?
Quem és tu, barqueiro ?

O homem é o mal escatológico
que atravessa o céu
de bronze.
O homem é o jagudi
em voos concêntricos.
O homem é a hiena que ri.
O ferreiro,
de outrora, hoje o dari.
O homem é o pássaro-bombardeiro.
O animal alado.
O helicanhão.
O falo de fogo.
O obus catorze.
O RPG Sete.
O katiusha.

Um homem é apanhado pelo macaréu
da história.
Como um cão.
Sem glória.
E na bolanha de Finete
descobre que não há ponte
nem salvação,
que há terra e céu,
mas não há elo de ligação.

Um homem perde a memória,
ao afundar-se no tarrafo do Geba.
Um homem chama o barqueiro
da outra margem.
Em vão.
O barqueiro faz contas
à vida
que custa manga de patacão.
E ao progresso que não chega,
ao motor de explosão,
ao motor da Yamaha,
à explosão dos cinco sentidos,
aos Strella,
aos Katiusha,
à liberdade de circulação.

Um homem passa a ponte,
a passo,
a peso pluma.
A ponte armadilhada.
O barqueiro conta um conto
em cada viagem.
O barqueiro de Caronte.
Um peso, irmão.
Um bilhete de ida
Sem regresso.

Um homem exorta o soldado
a que leve a guerra a peito.
É o capitão,
medalhado,
que nunca irá chegar a oficial general.
O fantasma do capitão-diabo,
vagueando pelo Cuor.
Estatuado,
na capital.

Vou no Bissau,
num barco à vela,
no barco da Gouveia.
Aproveito a maré-cheia
e o cacimbo sobre Ponta Varela.

O milícia, número tal,
vai morrer,
exangue,
como a última estrela
da manhã.
E eu espreito o rio,
da minha torre de Babel.
Um terceiro homem pára.
No semáforo.
Vermelho.
De sangue.
A caminho de Madina/Belel.

__________

Notas do editor do blogue:

(1) Vd. outros poemas do autor, de temática guineense ou africana, ou relacionada com a guerra:


5 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1342: Poema: os meninos da Ilha de Luanda (... pensando nos meninos de Bolama, de Chamarra, de Mansambo ou de Saré Ganá) (Luís Graça)

5 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1047: Alá não passou por aqui (Luís Graça)

1 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P930: O Relim não é um Poema (a propósito da Op Tigre Vadio) (Luís Graça)

10 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLII: A galeria dos meus heróis (2): Iero Jau (Luís Graça)

28 de Setembro de 2005 > Blogantologia(s) II - (5): War is over, baby

17 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - LIX: Esquecer a Guiné...por uma noite!(Luís Graça)

11 de Julho de 2004 > Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada (Luís Graça)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Blogantologia(s) II - (36): Tempo de alterações climáticas


Lourinhã > Praia da Areia Branca > Agosto de 2006 > Pôr do sol.

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.


Tempo de alterações climáticas (1)


À noite houve uma grande trovoada acompanhada de muita chuva.
À noite iluminações. Tempo lindo.
Às 11 h. p. m. choveu.
Bom tempo e fresco.
Bom tempo.
Chovia bastante.
Continua a inverneira.
Continua a ventaneira fresca.
Continua o lindo tempo.
Continua o mau tempo.
Dia de calor terrível. À noite refrescou.
Dia de chuva e trovoadas.
Dia de chuva.
Dia de horroroso calor, mas eu quando tenho que fazer não dou pela calma.
Dia de tão grande ventania que se quebraram algumas árvores da cerca [do Paço de Mafra]
Dia de verdadeiro Inverno! Chuva e frio !! Embarque difícil no arsenal.
Dia lindo, bom de mais. Assim não há meio de trabalhar.
Dia menos quente do que ontem.
Diminuiu o frio, mas veio a chuva.
Em Lisboa calor horrível.
Em Lisboa continua o calor medonho: na minha consulta, 34º à sombra.
Em Lisboa muito calor, aqui [Sintra] tempo fresco e lindo.
Em Lisboa o calor medonho, aqui [Mafra] fresco, delicioso.
Esteve um lindíssimo dia de Inverno.
Felizmente para as tropas o tempo continua óptimo.
Grande calor em Lisboa e aqui [em Sintra].
Há grande temporal do sudoeste e muita chuva.
Hoje dia de calor horrível em Lisboa.
Joguei um pouco de ténis no fim do almoço e depois dormi um pouco porque faz calor [ em Vidago].
Linda tarde e bom vento.
Manhã de grande invernia! Parece Dezembro ! [ Junho].
Mudou o tempo, temos a chuva grossa.
Muito vento e alguma chuva.
Ninguém se lembra de um tempo assim neste mês [ Junho].
Noite de luar, mas há calor fora do natural.
Noite de temporal.
O dia menos mau, talvez ainda não seguro.
O tempo continua um encanto.
O tempo aguentou-se.
O tempo bom. Continuo a ter boas notícias de casa.
O tempo continua bom. Muitos drinks, muito cavaco até à meia noite [ no Iate Real Amélia].
O tempo continua de chuva.
O tempo continua escandalosamente belo.
O tempo continua fresco e lindo.
O tempo continua frigidíssimo, mas sempre bonito.
O tempo continua mau.
O tempo continua mau: borrasca do sudoeste com chuva.
O tempo está mau: tem chovido bastante.
O tempo está mau: trovoada e muita chuva.
O tempo está muito frio e todo o dia houve nevoeiro cerrado.
O tempo incerto.
O tempo incerto. Faz nove anos que eu casei.
O tempo lindo hoje, muito ameno.
O tempo lindo mas muito frio. Vento do nordeste.
O tempo melhorou de dia, mas para a noite ameaçava de noite chuva.
O tempo melhorou
O tempo mudou: esteve um bonito dia.
O tempo muito mais quente hoje.
O tempo parece querer mudar.
O tempo parece querer mudar. Que venha chuva e frio para tónico das gentes.
O tempo parece querer mudar como é sempre costume no Entrudo.
O tempo péssimo. Verdadeira invernia.
O tempo piorou.
O tempo refrescou muito e à noite choveu.
O tempo tende a melhorar.
Os Príncipes já jantam à mesa de Estado. Já era tempo!
Parece Inverno.
Parece que a terra perdeu tanto calor pelos vulcões das ilhas americanas 
que não pôde haver Verão, o que aliás me não faz a maior falta. 
Dizem telegramas do Brasil que caiu neve e há gelo 
em pontos onde nunca gelou nem nevou.
Parecia um dia inglês.
Tempo a fazer caretas.
Tempo a querer mudar.
Tempo ameaçando chuva, mas quente.
Tempo ameaçando chuva, o que é mau por causa da bagagem 
que irá esta noite para Lisboa.
Tempo ameaçando chuva e eu muito embronquitado.
Tempo ameaçando trovoada.
Tempo bom.
Tempo bom. Vim jantar a casa.
Tempo bonito e fresco aqui [ em Sintra] , em Lisboa calor.
Tempo bonito e fresco o que descansa dos calores transmontanos.
Tempo bonito e fresco. Fui de manhã à Ericeira com os pequenos.
Tempo bonito e fresco. Graças a Deus todos estamos bem.
Tempo bonito e fresquinho.
Tempo bonito e mais fresco.
Tempo bonito e ventoso, quase frio.
Tempo bonito, mas de grande nortada.
Tempo bonito, mas quente.
Tempo bonito, mas quente e que fez recear chuva.
Tempo chuvoso.
Tempo com tendência a melhorar.
Tempo com vontade de virar a Leste.
Tempo de aguaceiros e grande ventania.
Tempo de aguaceiros, mas de tarde levantou.
Tempo de chuva.
Tempo de frio e chuva como Inverno.
Tempo de grande nortada.
Tempo de invernia como em Dezembro: chuva e frio.
Tempo de Inverno.
Tempo de terrível inverneira.
Tempo duvidoso.
Tempo esplêndido.
Tempo fazendo caretas para os lados do sudoeste.
Tempo feio e muito frio.
Tempo fresco.
Tempo frio e bonito.
Tempo frio e de aguaceiros.
Tempo frio e mau.
Tempo horrível.
Tempo horrivelmente quente tanto em Lisboa como aqui [em Sintra].
Tempo incerto.
Tempo irregular.
Tempo irregular: aguaceiros.
Tempo lindíssimo.
Tempo lindo. Recebi ordem de El-Rei para partir amanhã para Mafra.
Tempo lindo e eu muito constipado.
Tempo lindo e fresco em Sintra.
Tempo lindo e fresco.
Tempo lindo e fresquíssimo nesta nesta boa terra [Mafra] 
que eu desejaria que mais uma vez fosse o que costuma ser 
na convalescença da minha rica filha.
Tempo lindo e frio.
Tempo lindo mas frio. Jantei em casa.
Tempo lindo, luar magnífico.
Tempo lindo, mas frio.
Tempo lindo, mas muito frio. Vento nordeste.
Tempo lindo, mas pouco frio, 
o que não é muito bom sinal nesta época do ano.
Tempo lindo, mas quente de mais para a época [ Outubro].
Tempo lindo, mas um pouco quente principalmente na Ericeira.
Tempo lindo, muito ameno.
Tempo lindo, passeio encantador.
Tempo lindo.
Tempo lindo. Dias de Outono claros e frescos. A Tapada está um encanto.
Tempo lindo. Para a noite as minhas filhas estavam melhorzinhas.
Tempo lindo: Outono puro que aqui é lindo [ em Mafra].
Tempo magnífico e fresco.
Tempo magnífico.
Tempo mais fresco.
Tempo melhor, mas não frio.
Tempo melhorado.
Tempo muito frio e húmido.
Tempo muito frio, de nevoeiro cerrado.
Tempo não muito quente. Alguma aragem.
Tempo óptimo.
Tempo óptimo: bonito e fresco.
Tempo péssimo.
Tempo péssimo: frio e muita chuva.
Tempo que parece mais de Inverno.
Tempo quente [ em Outubro ] como se fora Julho
Tempo quente até aqui que é a terra fresca [Mafra]
Tempo quente e de trovoada.
Tempo quente mas encoberto, ameaçando trovoada.
Tempo quente, mas bonito.
Tempo quentíssimo como raras vezes aqui há [ em Mafra].
Tempo quentíssimo. Linda noite de luar. 
Todas as janelas abertas o que é raro nestas paragens [ Sintra].
Tempo quentíssimo: mais de 33º à sombra.
Tempo regular.
Tempo sempre lindo, o que aumenta a minha tristeza.
Tempo um pouco melhor permitiu as luminárias na Avenida da Liberdade.
Tempo um pouco menos quente.
Tempo variável.
Teremos mau tempo brevemente.
Todo o dia choveu como no Inverno.
Todo o dia enevoado e à noite choveu.

Fonte: Citações de: BREYNER, Thomaz de Mello – Diário de um Monárquico: 1902-1904. Porto: Fundação Eng. António de Almeida. 2005.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Blogantologia(s) II - (35): No dia dos namorados

Teu (e)terno namorado

(Em homenagem às bordadeiras dos lencinhos de namorados de Vila Verde, Minho, Portugal)

No dia dos namorados,
Fica bem falar de amores
Aos solteiros e aos casados,
Às senhoras e aos senhores.

Nunca é tarde para amar,
Mesmo com falta de guita,
Uns versinhos vou mandar
À minha querida Chita.

O serviço vai deixar,
C’o a passagem à reforma;
No resto e no coisar,
Continua em boa forma.

Se a mulher é sempre assim,
Vou-te pedir protecção,
Ó meu santo Valentim,
Que não me falte a t…

Prometo ir a Amarante,
Ao teu primo, pôr a vela,
Serei sempre o melhor amante
Da rapariga mais bela.

E no dia em que eu morrer,
Quero um lencinho bordado
Pr’a ela, com o dizer:
Teu (e)terno namorado.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Blogantologia(s) II - (34): The End

The end

Está tudo previsto,
que o fim é uma palavra seca e breve,
um monossílabo
que mal se escreve.
E tão seca e breve que não dá sequer
para gerar um sentimento,
por pequeno e ténue que seja,
de tristeza,
saudade,
morabeza
ou perplexidade.

Nunca gostei da palavra fim,
nem quando era criança,
nem na vida
nem no cinema,
nem quando me pediste o divórcio
num hotel de Ipanema,
naquela viagem
- lembras-te ? -
em que depositavas tanta esperança
e a que chamavas a tua segunda lua de mel…
Bobagem,
-disse-te eu -
não há mel sem fel,
nem amor morno,
nem amor eterno.
Não há fim,
há apenas o eterno retorno…

Podes ficar descansada, agora,
no teu último dia à superfície da terra,
a caminho da tua última morada,
da tua metacidade,
do reino de Osíris,
como tu gostavas de chamar.
Uma estranha paz sucedeu à guerra
das celúlas cancerígenas,
em total liberdade,
desvastando o teu corpo,
que eu amei outrora.

Sempre te ouvi dizer
que o não-stresse era a ausência da vida,
daí o abafado silêncio
a que chamamos morte,
a tua casa vazia,
a esta hora,
a porta arrombada do cofre-forte,
o teu testamento escrito ironicamente
em falsos hieróglifos egípcios,
os móveis subitamente cobertos de pó,
as teias de aranha,
a árvore de Natal
que não chegou a ser desmontada,
coberta de pó no jardim,
os ponteiros do relógio parado,
os olhos fechados das tuas bonecas,
o teu ursinho de peluche
que hibernou,
as megeras
das tuas irmãs
com a sua cara seca de abutres,
as toalhas de linho
com que a tua filha cobriu
os sofás e as cadeiras,
a cor desbotada
dos teus falsos tapetes persas,
os livros que nunca chegaste a ler,
à espera da tua reforma dourada,
os teus pincéis, o cavalete,
os teus quadros a óleo,
as lágrimas sinceras
da tua empregada caboverdiana
que te acompanhou nestes últimos anos,
a ti e aos teus gatos…

A agência funerária toma conta de ti,
arranja-te o bouquet de flores
com os protesto de eterna saudade
do teu ex-marido e da tua filha.
Tive dificuldade em escolher-te as flores,
hesitei entre as rosas e os espinhos,
o cor de rosa e o vermelho.
Sempre gostaste de rosas,
mas não de todas as rosas,
nem dos espinhos das rosas vermelhas.
Enfim, concederam-me
esse pequeno privilégio,
a mim que sou um ex-qualquer coisa de ti,
amante, marido, vítima,
amigo, gestor, cliente.

Encomendei-te a missa de corpo presente,
mesmo sabendo
que tu nunca foste lá muito católica
- só agora descobri
o teu secreto culto de Osíris.
Fi-lo por descargo de consciência,
como quem puxa o autoclismo,
por um qualquer automatismo,
por que me disseram que era bonito,
que fazia todo o sentido,
que não fazia nem bem nem mal,
e que até estava na moda,
que era que o se fazia
em Portugal,
o pequeno rectângulo da Europa,
em que afinal
me obrigaste a viver
por amor, a ti,
e à tua janela,
que desenhaste recortada sobre o mar.

Ah!, a missa,
perguntou-me a tua velha mana,
de todas elas a mais tagarela.
Ah!, sim, foi também por esmola,
por caridade,
por desfastio,
por moleza,
por me ter dado na real gana,
para te querer fazer uma última surpresa,
por mor do padre da freguesia
que já não casa nem baptiza
nem catequisa
ninguém,
por falta de clientela.

De repente lembrei-me do sino da igreja
da tua aldeia de pedra
que já não existe.
E tive um estúpido princípio de comoção.
Apeteceu-me chorar, por ti, por mim,
pelos teus mortos e pelos meus.
Pelos que cá ficam.
Pelos que virão.

Fica descansada
que a agência providencia tudo,
incluindo as amenidades,
os pequenos detalhes
a que tu davas tanta importância,
sempre gostaste dos Hotéis NH
por um questão de detalhes…
De repente, só me lembro de ti,
à janela de um NH,
em Barcelona,
quando eu lá ia em negócio…
De repente, só me lembro de ti
em detalhes,
em momentos de lazer e de ócio,
como se a vida fosse uma bóia,
ou um balão de ar quente,
e flutuássemos à tona,
na deriva do dolce far niente
da nossa decrépita classe média,
alta, acrescentarias tu.

Além do cafezinho e dos biscoitos
para os velhos da família
que vieram de longe,
e que eram do ramo pobre,
transmontano,
da tua aldeia de pedra,
e que ficaram na noite de velamento.
Velamento ou velório ?
Desculpa, não tenho aqui à mão
o dicionário Houaiss
da Língua Portuguesa,
nem o portátil para consultar o Ciberdúvidas.

De qualquer modo,
fiz bem em não me preocupar,
a agência tem garantia de qualidade
e está certificada
segundo a ISO nove mil e tal.
Disseram-mo logo,
quando telefonei para o número verde grátis,
que a satisfação do cliente era
a sua preocupação nº 1
e por isso toda a organização
fora desenhada de raiz
em prol desse objectivo.
Como eu gosto das empresas ISO nove mil e tal,
que põem o cliente sentado na cadeira do presidente,
e que têm uma missão,
e que sabem defini-la,
e que têm passado, presente e futuro.
Chama-lhe deformação profissional
ou idiotice de um catalão,
com costela de fenício e de judeu,
obcecado pelo organizacional.

Que não te choque esta linguagem
dos gatos pingados:
eles fazem pela vida,
como tu, coitada, fazias pela tua,
quando por cá andavas, penosamente,
a caminho do IPO.

O cliente, real ou virtual
(que eu não sei, afinal,
se és tu ou se sou eu)
é acompanhado por um técnico da empresa,
com CAP reconhecido no espaço comunitário.
Agora já se pode morrer
em qualquer parte do mundo
que até na morte há assistência,
como deve ser.
Eu diria
que já se pode morrer descansado,
sem perturbar muito a vidinha dos vivos.
A vidinha safada
dos que estão na próxima lista para morrer.

Dez anos,
foi uma guerra longa
com os teus bichos,
e a gente a pensar que o pior já tinha passado.
O que passou foi a vida, minha amiga,
foram os anos,
só sobraram os que não viveste.
Uma luta inglória contra a doença,
contra um temível predador,
disse o teu médico.
Abandonou-te, o sacana,
quando percebeu que a partida estava perdida.
Nunca gostei dele,
mesmo sendo durante anos
o meu parceiro de xadrez
e o meu compincha do Jerez.

Esta noite, querida,
vais ficar na câmara frigorífica,
como mandam agora
as regras da nova saúde pública.
E depois da missa, às 10 horas,
segues para o Alto de São João.
Os teus amigos, poucos mas bons,
lá estarão.
Serão os teus barqueiros de Caronte.

Permite-me uma última inconfidência:
recorri ao crédito da agência,
vou pagar a tua mumificação
em suaves prestações.
Sei que concordarias
comigo, velho forreta,
se estivesses cá, chez les vivants,
neste lado do mundo.
Mesmo discordando desta
e de outras tuas bizarrias,
vou ter que a cumprir,
por minha honra e da tua filha,
como teu executor testamentário.
Sempre ouvi dizer que nunca se diz não
à última vontade de um defunto.
E que quem gasta dinheiro com os mortos
Não é perdulário.

Não te esqueças, por fim,
das palavras que terás de proferir
quando a tua alma penetrar nos mundos do além
(São extraídas do Livro dos Mortos,
o teu último livro de cabeceira):

Salve, Osiris, Touro do Amenti,
Eis que Tot, príncipe da eternidade,
Fala pela minha boca!
Na verdade, eu sou o grande deus
Que acomponha, na sua navegação, a barca
celeste...

Blogantologia(s) II - (33): Os meninos da Ilha de Luanda

os meninos da ilha de luanda
são filhos de pescadores
são filhos de náufragos
são filhos da deriva dos continentes
são filhos bastardos da guerra e da paz
são filhos dos sonhos do dia e dos pesadelos da noite
são crisálidas
são puras formas de ser
são filhos dos homens
que nunca foram meninos

pergunto-me
como é que eles poderão um dia
chegar a ser homens


Angola, Luanda, Ilha de Luanda, Setembro de 2004

terça-feira, setembro 26, 2006

Blogantologia(s) II - (32): Vem aí a retoma

No verão,
entre cigarras e grilos,
éramos arquitectos esquilos,
desenhávamos à mão,
dedo a dedo,
frágeis barreiras de areia
contra a maré cheia
do medo,
contra o medo do medo.

Em Agosto,
ainda não se advinhava Setembro,
às portas do Império,
as pousadas estavam repletas
e éramos inconscientemente felizes.

Em Beirute caíam bombas
e nas Canárias davam à costa
cadáveres subsaharianos,
O verão já era Outono,
vindima, mosto,
passeávamos agora
com as nossas bicicletas,
à volta do círculo polar ártico,
furando o buraco do ozono.
Definitivamente cancelámos
o cruzeiro pelo Adriático.

Na rentrée,
os novos príncipes deste mundo
anunciavam a boa nova
pela têvê:
vem aí a retoma.

Praia da Areia Branca, Agosto de 2006

domingo, setembro 24, 2006

Blogantologia(s) II - (31): Alá não passou por aqui

Originalmente publicado npo blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > vd. post de 5 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1047: Alá não passou por aqui (Luís Graça)

Alá não passou por aqui,


por Luís Graça


Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de Janeiro de 1971 / Lourinhã, verão de 2006


Vinte e quatro anos:
ocorreu-te que hoje fazias anos,
e que por mera curiosidade
era o teu segundo aniversário
nestas terras da Guiné,
e, por sinal, o teu terceiro
na tropa,
coincidindo com o terceiro
da era do marcelismo.

Vinte e quatro anos,
vividos mal,
vinte e um meses de tropa-macaca,
entre o Geba e o Corubal,
vida de cão rafeiro,
de macaco-cão,
saltando do chão
e do baga-baga
para a copa
da árvore dos teus desenganos.


Tempo de miserabilismo,
tempo do salve-se quem puder,
tempo de calculismo e de cinismo.
Desenfiado,
é a palavra de ordem,
para a soldadesca,
para os gajos do quadro
ou do contingente geral,
quer concordem ou discordem
desta farsa grotesca.

Aqui vive-se sem calendário
nem ética,
nem dignidade,
não se apurando perdas e danos,
não se distinguindo
dias da semana, sábados,
domingos ou feriados,
o verão e o inverno,
os bons, os maus e os safados.
Se há resistência, ela é invisível e muda,
e o tempo que conta
é o que falta para a peluda.


És um cão,
um cão danado,
apanhado na rede.
O tempo é pura aritmética,
soma de momentos,
de dias riscados
na parede,
suja, mimética,
dos nossos abrigos:
se um ano aqui é uma eternidade,
dois é o inferno.
O teu corpo fede,
tresanda a tarrafo,
a suor
cheira a morte,
cheira a merda,
a luto,
a perda,
a da tua juventude,
a dos teus ideais.

És um pobre fantasma de Quinhentos,
que perdeu o norte
e os demais pontos cardeais,
a idade,
a quietude,
a auto-estima,
a praça-forte,
o astrolábio,
as Índias,
a caravela,
a rota,
a proa,
a pose,
a árvore genealógica,
as coordenadas de Lisboa,
os Lusíadas,
a Peregrinação,
do Fernão Mentes Minto,
a História (trágico-marítima),
o ritmo,
a rima,
o ADN,
o pedigree,
a inocência do Nuno Tristão da Silva,
a cruz,
o cruzeiro,
o estandarte,
a espada,
o manual,
a valentia do Teixeira Pinto,
e até o jeito de matar
do Afonso Albuquerque,
para além da arte
e da ciência de marear,
no macaréu do Geba,
nas bolanhas do Corubal.

Mais prosaicamente,
na Guiné
o dia dos teus anos é
uma rodada
de uísque ou de cerveja
pr’os teus camaradas
no bar de sargentos.
No fundo,
o teu dia é um pretexto
para a autocomiseração,
para um voo até
às galáxias da metafísica,
que é sempre melhor, chiça!,
que ouvir
o silvo de uma granada,
em teu redor,
que é coisa bem mais real
e mortífera,
é a quilha
do barco da morte.
Com sorte,
talvez o amável Zé da Ila,
de nós todos o menos reguila,
pegue na viola (1)
e te cante
a Pedra Filosofal…

Talvez cantemos todos juntos,
às tantas da noite,
africana,
pestífera,
mortal,
e suficientemente alto,
com as nossas vozes guturais,
para que Eles, os gajos,
nos oiçam, mesmo ali ao lado,
no bar dos oficiais…

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E sempre que um homem sonha,
A vida pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança…


Seguramente
um dia como os outros,
sem mais nada,
seguramente mais um dia
de solidão,
com ou sem o poema do Gedeão
e a música do Manuel Freire,
a tua canção favorita,
a nossa balada querida,
e que eu sei que irrita
os teus Cães Grandes

Ninguém te vai dar os parabéns,
só por fazeres anos:
ainda não ganhaste nada,
nem o direito a outra vida.
De resto, estás sempre só,
mesmo quando segues,
em bicha de pirilau,
coberto de suor e pó,
com o teu pelotão,
às ordens de Bissau,
para montar segurança à TECNIL
que está a construir
a nova estrada de Bambadinca-Xime (3).

Enfim, mais um dia da tua condição,
triste e vil,
de poeta travestido de soldado
de uma guerra
a que sempre chamaste crime,
mas da qual és actor,
cúmplice,
quiçá testemunha sublime,
guerra que tem dor e tem horror,
mas de que os teus camaradas não falam,
por pudor.

Je m’en passe,
je m’en fous
,

escrevias tu
no teu diário de um tuga.
Como quem diz:
aqui não há lugar para a fuga,
nem sequer te podes dar ao luxo
de um mísero voo raso
sobre a cerca de arame farpado
ou sobre o ninho de metralhadoras
que varre a pista de aviação,
como um vulgar jagudi
que é uma pássaro feio
mas é livre,
e tão ou mais importante do que tu
no seio da criação.

Senhores e senhoras,
respeitável público
do Circo de Imbecilburgo:
Simplesmente, neste caso,
este homem não é um homem
é um palhaço,
é um soldado,
fardado,
de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência
cumpre ordens,
às vezes com coragem,
outras com medo,
é isso que lhe dói,
neste cenário
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme
com o RDM:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem nenhum herói
da resistência
nem muito menos do 10 de Junho:
saíu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus nharros,
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas
dos senhores
de Bambadinca,
que dormem na cama,
em lençóis lavados,
fazendo p’la sua vidinha.

Os Cães Grandes,
como tu gostas
de chamar-lhes,
com o teu humor corrosivo
de dramaturgo
do teatro do absurdo,
aos oficiais superiores
de Imbecilburgo.
Escuta,
quer queiras quer não,
são eles os lídimos representantes
da tua Nação,
foi o que ouviste desde o primeiro dia
da tua recruta.

Vida de puta:
com raiva e impotência,
vês o tempo,
a areia da ampulheta,
escoar-se,
do cabo até ao fundo,
e tu aqui hipotecado
ao Estado,
a este Império de opereta,
dono da tua existência,
que te requisitou o corpo,
da cabeça aos pés,
e te comprou a alma
e a vendeu ao diabo,
aqui no cu do mundo.

Voaste há dias, ai!,
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões (3,
mas estás vivo, ó tuga,
graças talvez à mezinha
que te deu um nharro,
um mauro, um marabu,
em Sinchã Mamadjai
e melhor prenda de anos
desejar poderias,
meu grande safado ?

És um sortudo,
se acordares,
de manhãezinha,
com o dedo grande do pé
a mexer,
dizia o Marques,
que nesse dia treze,
que nem sequer era sexta-feira,
teve azar, coitado,
sentado na parte traseira,
da GMC,
não teve a mesma sorte que tu,
indo parar, em mau estado,
em estado de coma,
ao Hospital Militar.


Pobre tuga,
pobre nharro,
pobre turra:
na Guiné,
longe do Vietname,
em plena guerra fria,
há muito ano
que vos chupam o tutano.
Aqui faz-se poesia,
de barriga vazia,
o corpo exangue,
só com o cavername,
a pele e o osso,
a morte na alma.

Resta-te a consolação da escrita
e da leitura,
além do teu uísque
com água de Perrier.
Eis o poema,
que te ofereço,
com ternura,
como prenda de aniversário,
O Tempo que Faz em Imbecilburgo:

Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro,
contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça
de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente
mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como furriel miliciano.

Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que import-export
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo
(se o houver).

Tu até podias acreditar
numa Guiné Melhor,
no Herr Spínola,
nos teus nharros,
nos patriotas dos guinéus
que lutam a teu lado,
ou até na derrota do Cabral,
teu herói e teu inimigo,
o líder revolucionário,
ou no Nino,
teu turra de estimação,
vestido à cow-boy
e armado de RPG
no nosso imaginário;
podias mesmo acreditar
na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado,
glorioso,
perdido,
sabendo-se que o dinheiro e as armas
compram tudo
menos o direito à eternidade,
e nem talvez à liberdade.

Se te portares bem,
meu velho,
aos vinte e um meses de Guiné,
na recta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição
individual,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o cronista-mor
da estória oficiosa da tua companhia
.


Post scriptum:
Alá
não passou por aqui,
disse-me uma vez um homem-grande
da tabanca de Saré Ganá (4).



__________

Notas de L.G.

(1) Furriel Sousa, da CCAÇ 12, madeirense, carinhosamente conhecido pela alcunha do Zé da Ila: Vd post de 8 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P945: 'Gente feliz com lágrimas': o Zé da Ilha, o furriel Sousa, madeirense, da CCAÇ 12


(2) Empresa que em finais de 1970/princípios de 1971 estava a construir a nova estrada alcatroada Bambadinca-Xime. A CCAÇ 12 faria regularmente a segurança destes trabalhos, já no final da sua comissão.

(3) Vd. posts de

2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXIX: E de súbito uma explosão (Luís Graça)

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

(4) Zona leste, Regulado de Joladu, carta de Bambadinca, 1/50.000

Vd. post de 30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXI: Sare Ganá, a última tabanca de Joladu

segunda-feira, julho 10, 2006

Blogantologia(s) II - (30): O Relim não é um poema

Originalmente publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 1 de Julho de 2006 >
Guiné 63/74 - P930: O Relim não é um Poema (a propósito da Op Tigre Vadio)



Extractos de : História da Unidade: BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Bambadinca: Batalhão de Caçadores 2852. 1970. Cap. II. 145-146.

Op Tigre Vadio

Iniciada em 30 [de Março de 1970], às 7h00, com a duração de 2 dias, para fazer um patrulhamento conjugado com emboscadas e batida na região do Cuor/Madina.

Tomaram parte na operação os seguintes destacamentos:

Dest A: CCAÇ 2636 a 2 Gr Com, reforçada pelo Pel Caç Nat 52

Dest B: CCAÇ 12 a 3 Gr Comb

Dest C: Pel Caç Nat 54 + 1 Esq Mort 81 / Pel Mort 2106

Relim:

Op Tigre Vadio terminou 1 [de Abril], 13h00. Regresso quartéis terminado 1, 16h30. Aproximação dificultada partir 31, 8h00 queimada linear feita IN. 31, 14h00, detectado acampamento região Belel (Mambonco 7I4-97) oito moranças com colmo sete adobo.

IN reagiu PPSH e RGPG-2 cerca de 2 minutos, sofrendo 15 (quinze) mortos confirmados, vestígios sangue 10 (dez) feridos graves. Verificado após incêndio acampamento 6 PPSH queimadas.

Destruídos meios vida. NT sofreram 2 feridos ligeiros. Batida Mort 81 mata (Mambonco 8H5- 17) ouvidos muitos gritos de dor. Fuga IN direcção (Mambonco 8G6 -32).

31 [de Março], 17h00 encontrada cadeira vigia e 2 granadas RPG-2 (Bambadinca 1A8-95). Gr[upo] IN estimado 6/8 elementos emboscou NT 2 LGFog, RPG-2 e PPSH cerca de 5 minutos.

IN fugiu reacção NT impossibilitadas perseguição virtude forte ataque abelhas causou diminuição física bastantes elementos. NT tiveram 1 ferido ligeiro e 1 ferido grave, 1 doente grave esgotamento.

Transcrição MSG 1404/C Com-Chefe (Oper): COMCHEFE MANIFESTA SEU AGRADO REALIZAÇÃO RESULTADOS OBTIDOS OP TIGRE VADIO.

Comentário de L.G.:

Relim não é poema


Participei nesta operação,
a Operação Tigre Vadio,
que era pressuposto durar dois dias.
Um passeio a Madina/Belel.
Um patrulhamento ofensivo,
a travessia de um rio,
uma excursão a um santuário da guerrilha,
uma visita de cortesia,
aos homens do mato,
ali tão perto,
para retribuição de outras visitas de cortesia
que eles nos faziam,
aos destacamentos de Missirá e de Finete,
e à navegação do Geba Estreito.
Em boa verdade,
só te faltou o autocarro autopulman,
com ar condicionado
e bar aberto.

Éramos só tropa-macaca,
como convinha,
sempre era mais barato:
pretos de primeira da CCAÇ 12
e do Pel Caç Nat 52,
mais alguns brancos de segunda,
os açoreanos
da vinte e seis trinta e seis.

Levámos dois cantis de água por cada G-3.
À noite quando saímos de Missirá
chovia a cântaros.
Lembro-me de ter perdido
o impermável camuflado
e de o ter recuperado
à luz de mil sóis,
mil relâmpagos.

O que é que um gajo pensa,
aos vinte três anos,
de Missirá a Salá
e daqui a Sancorlá,
em bicha de pirilau,
de noite, com chuva a cântaros,
escuro como breu,
a alma tensa,
o corpo lasso,
o capim mais alto
que as searas de trigo da tua terra,
a fustigar-te as trombas ?
Um gajo não pensa nada,
não tem tesão
para pensar,
apenas para sobreviver
a mais um operação...

Era pressuposto haver um reabastecimento
no dia seguinte,
como manda o mais elementar bom senso
e a experiência operacional do passado
(vd. Op Lança Afiada
em que um cada seis foi evacuafdo).

Caminhámos toda noite.
Penosamente.
Era pressuposto a guerra parar
às dez horas da manhã.
Às dez em ponto.
Porque o clima é quem mais ordena,
e não o relógio do comandante.
Cortaram-nos as voltas.
Os tipos do PAIGC
(não me apetece dizer IN)
cercaram-nos pelo fogo.
E quanto a Deus
e às abelhas selvagens da Guiné,
a gente nunca sabia exactamente
de que lado estavam.

Temerariamente,
decidimos brincar ao gato e ao rato.
catorze horas, no píncaro do dia,
com uma temperatura brutal
e os cantis vazios...
Havia ali uma dúzia de casas
de colmo e de adobe,
mesmo a jeito ou por azar,
para a gente despejar
as nossas granadas de bazuca
e de morteiro oitenta e um.

Nós, quem ?
O major da Dornier, do PCV,
a quem as casas estragavam a vista
nos seus passeios matinais
pelo corredor do Oio.
Ainda não havia os Strellas,
a temível arma dos arsenais
do inimido,
que haveriam de pôr o homem
borrado de medo
e definitivamente em terra.

Alguém puxou dos galões
e decidiu fazer um golpe de mão.
Ou melhor: mandar fazer,
que eu nunca vi nenhum cão grande,
de capitão para cima,
andar cá em baixo,
com a tropa-macaca,
com a puta da canhota nas mãos.

A escassas semanas de acabar a comissão.
P'ra ficar bem na fotografia.
E para pôr no curriculum vitae
e impressionar o Caco...
Um senhor major qualquer
do BCAÇ 2852,
que gostava de andar de Dornier
e que queria chegar a tenenente-coronel.
Um herói de opereta.

Quem ?
Quem é que manda nesta merda,
quem comanda esta tropa-macaca ?
É uma imensa cobra
que se desloca nas terras do Infali Soncó,
espantando os bichos e os irãs,
destruindo tudo à sua passagem.
Não se lhe vê nem o rabo
nem a cabeça.

Entretanto, já alguém,
o Beja Santos,
o nosso tigre de Missirá,
tinha ido buscar, de heli,
o reabasteciemnto de água
a Bambadinca.
Não voltou.
Alguém dos nossos (?!) terá,
intencional ou inadvertidamente,
disparado uma rajada que atingiu o heli
(soube isto agora,
pelo relato dramático do Beja Santos) (1).
O heli foi para Bissau, para a oficina,
e o Beja Santos ficou retido no Xime.

A verdade é esta:
O PCV falhou, o heli falhou.
O cadeia de comando quebrou-se.
Ou porventura alguém quis matar
o tigre de Missirá.
O ataque de abelhas fez o resto,
enquanto o cabrão do comandante do PCV
foi bater a sesta em Bambadinca.

No regresso ao Enxalé,
sofremos brutalmente.
Eu sofri,
que a dor não para dá
para partilhar.
Sofri brutalmente a desidratação,
o esgotamento físico.
A insolação.
O absurdo.
A desumanidade.
Tive miragens.
Bebi o próprio mijo,
esgotado o soro.
Mastiguei as ervas do orvalho,
esgotada a água.
Desesperei,
perdida a esperança.
Bebi sofregamente a água choca dos charcos.
Amparei os mais desgraçados do que eu.
Transportei os nossos feridos.
Consolei os mais desesperados.
Fiz as minhas obras de misericórdia,
segundo o Evangelho de São Mateus.
Não deu nenhum tiro de misericórdia
porque nunca dei nenhum tiro em combate.
Mesmo cristãmente,
odiei o PCV,
Bambadinca,
as fardas, os galões,
a tropa, a guerra,
Herr Spnínola,
a Guiné.

Um homem,
mesmo o cristão que eu não sou,
tem que odiar
para sobreviver.

Amigos e camaradas,
depois de tantos anos,
releio o relim
e há qualquer coisa que mexe em mim.
O relim não é um poema.
Um poema épico ou dramático.
É sim, tão apenas,
Um esquema telegráfico
da guerra
para os senhores que estão em terra.

O relim faz economia
dos quilos de merda
que destilaste,
que destilámos.
Das miríades de abelhas kamikazes
que arrancastes do cachaço.
Dos gritos de dor
que ecoaram pelas matas de Madina/Belel.
Dos teus gritos
e dos gritos dos desgraçados elementos pop
que morreram à hora da sua sesta.
Das paredes do estômago
coladas uma à outra pela fome, a sede.
A lassidão do corpo, a tensão da alma,
sem um colchão
para te estirares,
sem um ombro amigo
para morderes de raiva.

Não, nunca mais irei esquecer Madina/Belel.
Eu e mais 250 homens combatentes
(oito grupos de combate),
fora um número indeterminado de civis, nativos,
contratados ou arrebanhados
como carregadores
(para transporte p à cabeça,
como no tempo do Teixeira Pinto,
de granadas de morteiro,
de bazuca,
de jericãs de água, etc.).
E que largaram tudo,
ao primeiro ataque
do exército das abelhas do Cuor,
quiçá treinadas na China.

Ah, esqueci-me de mencionar o médico
da CCS do BCAÇ 2852,
o Alferes Miliciano Médico
Saraiva (tinha esquecido o nome),
que o Beja Santos
deve ter conseguido aliciar
à última hora,
face aos casos graves de desidratação,
insolação,
intoxicação...
O pobre do doutor
(ninguém tratava ninguém por doutor
lá no cu do mundo,
longe do Vietname)
ficou em terra,
perdeu a boleia do heli
e conheceu o inferno do Cuor.

Meus senhores,
o Relim não é um poema,
é um exercício de economia,
um tratado
de estética,
um compêndio de gramática,
um fait-divers cokm que se brinca,
um escarro na cara do Zé Soldado,
entre duas partidas de King
na messe dos oficiais de Bambadinca.

Que nos valha, ao menos, o RDM,
o Regulamento de Disciplina Militar,
é mais grosso,
tem mais papel,
é coisa que se vê
e que em último caso serve
para limpar... o cu.

Fonte: Extractos do Diário de um Tuga.
Abril de 1970 / Julho de 2006

_______

Nota de L.G.(1) Vd. posts de:

29 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P924: SPM 3778 ou estórias de Missirá (4): cão vadio disfarçado de tigre (Beja Santos)

27 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P918: Operação Tigre Vadio (Março de 1970): uma dramática incursão a Madina/Belel (CAÇ 12, Pel Caç Nat 52 e outras forças)

segunda-feira, junho 26, 2006

Blogantalogia(s) II - (29): De pequenino é que se torce o violino

De pequenino é que se torce o violino

Há um Beethoven
para todo o mundo,
de Nantes a Lisboa,
de Bilbao a Tóquio.
Há uma Beethoven em festa,
nas nossas cidades,
ao alcance de todas as bolsas
e de todas as idades.
Há quem, egoísta,
o queira só para si,
por menos de cinco euros.
Coitado do Pinóquio,
que tem ouvido de pau,
e que nunca andou no Conservatório Nacional.

E depois há quem se recuse a ir ao evento
como aquele melómano,
com assinatura anual no São Carlos,
que ia todos os anos a Berlim
só para limpar o ouvido…
Ah! que chique!
Felizes os melómanos
porque será deles o grande auditório
celestial.

A ucraniana,
que limpa os corredores
do Centro Cultural de Belém
e teve uma esmerada formação musical
no tempo do socialismo soviético,
está-se nas tintas
para o génio teutónico,
outrora disputado por Bona e Viena.

Há filas democráticas
e fileiras geriátricas
no grande templo da música.
E muitas meninas voluntárias,
de umbigo à mostra,
e úberes generosos,
na Missa Solene opus 123.

Gosto do meu país de gente gira,
e sem cera no ouvido,
mas do que eu mais gosto
é dos embevecidos papás
das sobredotadas criancinhas
que tocam violino
tão perfeitinho
como os papudinhos anjinhos do céu.
Porque, como diz a babada maestrina,
é de pequenino
que se torce o violino.

Luís Graça



Lisboa, CCB, 6ª edição da Festa da Música,
dedicada à Beethoven e seus amigos,
22-24 de Abril de 2005.

Versão de 1 de Setembro de 2007

sábado, junho 24, 2006

Blogantologia(s) II - (28): Um dia hei-de ir a Porto Azzuro.

Publicado originalmente em Arrivederci Portogallo, blogue de João Graça no Erasmus (Florença, 2005/2006), em comentário ao post sobre a ilha de Elba, de 30 de Maio de 2006, que a seguir reproduzo, em itálico:

ELBA

A viagem de Piombino, na costa toscana, a Porto Azzuro, em Elba, faz recordar aquilo que terá sido a deportação de Napoleão, em Maio, mas de 1814. Aqui viveu durante 9 meses, onde partiu rumo a Paris para reconquistar o poder. Mas foi derrotado na famosa baltalha de Waterloo em Junho de 1815. Dizia eu que a viagem, aparte o barco hoje movido a motor, faz recuar a esses tempos. Tempos de definição geo-política europeia. Pelas ilhas selvagens, pelos aves que me giravam em torno, pela vegetação verdejante e inóspita.

Em Porto Azzuro passou-nos pela cabeça a ideia mais iluminada destes dias. A de alugar bicicletas para nos deslocarmos ali. Dito e feito. Ao fim da tarde chegamos à outra ponta para um merecido repouso, depois de um longo caminho que terminava com 4km a subir. Do lado sul da ilha avistava-se a ilha de Monte Cristo, que serviu de inspiração a Alexandre Dumas. Recordo-me de seguir apaixonado a mini-série "O Conde de Monte Cristo" com Gerard Depardieu e Ornella Muti. E qual o meu espanto, quando a vejo, diante dos meus olhos, ali, vejo a ilha de Monte Cristo.

O dia, no entanto, estava ainda longe de acabar. Apesar do cansaço físico, e mesmo depois de tanta boa disposição, ainda tivémos pedalada para dançar numa festa popular em Secchetto. Nada sabíamos desta festa. Encontrámo-la por mero acaso. Gente dali, daquela terra longe de tudo, mas cheia de hospitalidade. Dançar com os velhotes música pimba é uma experiência que todos nós já passámos, nalgum dia de Agosto da nossa vida quando se volta à terrinha e se encontram os emigrantes (como eu). Mas dançar o "Dime la verità" com os velhotes de Secchetto é único. Juro-vos...




Texto alteradao e actualizado nesta data

Um dia hei-de ir a Porto Azzuro


De Piombino a Porto Azzuro,
no encalce de Napoleão,
o pequeno e genial corso
que ajudou a construir
a Europa das Nações.

Ah!, que ingratos
os tecnocratas de Bruxelas
que alimentam sonhos imperiais,
que nada sabem de história
e que não te puseram na lista dos pais-fundadores,
com direito a pensão vitalícia!
e outras mordomias!

Que serias tu, bela Itália,
sem o safado parteiro da Europa
e os seus canhões ?
E tu, Garibaldi,
mais os teus descamisados,
como chegarias a Nápoles,
e a Palermo,
para conquistar
o último Reino das Duas Sicílias ?

Na ilha de Elba,
estudo estratégia
que é a arte do general,
do capo,
do condottiere,
do conquistador.

E observo o preclaro voo
dos pássaros,
que não têm bússola,
nem GPS,
nem telemóvel.
nem o Google Earth,
e que nunca se perdem
entre o alfa e o omega,
o norte e o sul,
o leste e o oeste.
Pelo menos não conheço
nenhum brevet de piloto ornitológico.

Nove meses é o tempo suficiente
para se nascer e se morrer,
entre a ilha de Elba
e a estação de Waterloo.
É o tempo ontológico,
o do ser e do saber-ser.

E num só dia dei a volta
à ilha,
de bicicleta,
um fait-divers que hei-de pôr
no meu currículo hipocrático.

MoveEurope,
mexe-me esse rabo,
levanta o cu do selim,
põe-me essa mama tesa,
pedala, Europa,
velha Europa,
anaconda,
eriçada,
anafada,
encastelada
cercada,
crispada,
na tua feia fortaleza
de Schengen.

Em Porto Azzuro
percebi
que pode haver dias felizes
na vida dos homens e das mulheres.

Apaixonei-me pela felina Ornella,
a Ornella Muti,
a deusa mediterrânica,
que guardava na Ilha
de Monte Cristo
os segredos do amor,
o elixir da vida,
que é breve a vida
do espadachim
que há em ti
e que há em mim.

Ainda se podia pressentir,
ao pôr do sol na ilha,
na ponta mais além,
a presença encantatória
do Alexandre Dumas,
romântico ma non troppo,
em recorte subtil,
em versão light.
Que a ficção fica sempre aquém
da vida.....

Mas do que eu gostei mais
foi de dançar
o Dime la verità
com os guardiões da ilha,
os velhos e as velhas de Seccheto,
quiçá os últimos habitantes,
da velha Europa
que eu amo,
ou da bela e pimba,
divina e pérfida Itália
que me seduz.
A verdade que os miseráveis tecnoburocratas
de Bruxelas


Em Porto Azzurro,
olhando em redor o mare nostrum
o mar que já foi nosso,
e as ruínas da minha civilização,
ou do meu projecto
europocêntrico,
estudei filosofia,
fui discípulo do Erasmus,
e percebi,
mesmo que por breves instantes,
a importância da ontologia,
que é o tratado que trata
mais do ser do que do ter.
Do ser autêntico,
sem implantes.

Luís Graça

PS - João:
Um dia hei-de ir
a Porto Azzuro.
Só para confirmar
as tuas impressões... digitais.

sábado, maio 20, 2006

Blogantologia(s) II - (27): Como é bom rever-te, Lisboa e Tejo e tudo.

Lisboa > Terreiro do Paço > 2005 >

A entrada da Rua Augusta e a colina do castelo vistas de uma janela do Ministério da Agricultura. "Da minha janela" diz ela.

© Maria Helena Moutinho (2005)

Como é bom rever-te, Lisboa e Tejo e tudo (1).


Lisboa, sete colinas,
o rio, uma paixão,
que deram origem
à arte e à ciência da olissipografia.
E a Helena era uma das meninas
que ficava bem,
à janela,
recortada em pórtico manuelino
da Casa dos Bicos
ou no laranjal
da estória da Nau Catrineta,
desenhando castelos de Espanha
nas areias de Portugal.

Lisboa, menina e moça,
tu podias não saber nada
de geografia,
nem da didáctica da educação de adultos,
nem da fisiologia do coração,
nem de desenho a três dimensões
nem do risco sísmico
nem do simples risco de existir e de estar viva.
Mas sempre tiveste por perto
o estúpido pirata de perna de pau,
vesgo e maneta,
irrompendo os teus sonhos
com o pesadelo do sentimento de um ocidental
na ponta mais fina de uma espada
guardada na Torre de Belém.

Lisboa, o casario, o castelo,
e rente ao chão,
a devoção, a procissão
da Senhora da Saúde,
que nos valia nos anos de peste,
nos meses de guerra,
nas semanas de fome
e nos dias de depressão,
a depressão funda, cavada,
do vale de Alcântara até Xabregas.

Lisboa e os livros, os incunábulos,
os alfarrabistas da Baixa-Chaiado,
as pedras, as cantarias,
as traves mestras
que nos falam da cidade
em construção,
dos arquitectos,
dos trolhas,
dos estucadores,
dos pintores de tabuletas
e de retábulos dourados,
dos aguadeiros
do poço do mouros,
do Carmo e da Trindade
de pedra e cal,
dos engenheiros hidráulicos,
dos agrónomos,
dos agrimensores,
dos silvicultores do pinhal d’el-rei,
dos santos inquisidores,
das freiras e das frieiras
que é coçá-las e deixá-las

no cemitério de todos os prazeres.
Ah, aí onde a vida acaba
na ponta de uma naifa
no Bairro Alto
das fadistas e dos seus chulos.

Mas não de tédio,
minha querida,
diz o pregão da varina,
enquanto houver o 28 para a (Des)Graça
com bilhete de ida e volta,
as Escadinhas do Duque
ou a Calçada do Combro
e os escombros do terramoto
por subir, trepar ou escalar.
E os filetes de alfaquique
ou peixe-galo
com açorda de ovas.
E os pastéis de Belém
e o bife dos ricos
à Marrare
e as iscas com elas
nas carvoarias dos galegos
e o cheiro a carvão e a sardinha,
linda que tresanda
nas ruelas e vielas dos bairros populares.
E o Portugal very tipical
do António de Ferro
com que te quiseram tramar
e as sécias e os peraltas da Belle Époque
que a Avenida da Liberdade
acaba na rotunda das públicas virtudes
e no beco dos vícios privados.

A terna, eterna, Olissipo
onde o azul do céu é único
e te leva a todos os caminhos do infinito.
Ulisses sabia-o
e guardado estava o segredo
do mais fundo do tempo.
E por isso fundeou no estuário do teu Tejo
e trouxe com ele a Helena,
troiana,
transmontana,
fenícia, grega,
cartaginesa, romana,
celta, iberíssima,
goda, visigótica,
moura, berbere, preta,
bárbara, bela, pérfida Helena,
santa e penitente,
globetrotter,
errante, caminhante,
mística, algures perdida,
loucamente perdida
nos caminhos de Santiago.

Que te importa
se Lisboa já não é
uma praça forte,
uma bolsa contra os valores
daqui d’ el-rei
que o paço e o terreiro,
a trono e a régia cabeça,
tremem e estremecem,
entre o Martinho e a Arcádia,
na iminência de um ataque
terrorista.
Dantes chamava-se anarquista,
à bomba regicida,
quando a palavra de ordem era
a bolsa ou a vida.
E não havia as avenidas novas,
do Ressano Garcia,
nem o risco dos engenheiros,
nem a construção a custos controlados,
nem o prémio Valmor,
nem o fundo de mão-obra,
nem o Dow Jones ou o NASDAK.

E estavas tu, Helena,
postada à janela,
com vistas largas
para o casario, a sé, o castelo,
o mar da palha,
a rua do ouro e a da prata,
o augusto senhor dom José a mata-cavalos,
a serra, a arrábida fóssil,
a armada outrora invencível,
a ribeira das naus,
o turista, o voyeurista,
o motorista
do senhor ministro sem pasta
nem forragem para o gado na canícula do verão,
os heróis menores, anónimos,
que vieram morrer na praia,
o velho do Restelo,
que já foi praia sem bandeira azul,
o velho do Restelo agora ainda mais velho
e mais bota de elástico,
o Cesário e a sua idiossincracia,
o Cesário, verde e rubro,
nos estádios dos eurofutebóis,
mais o Eça de Queiroz,
o estrangeirado,
que te amava à maneira dele,
a Sofia, a deusa, a olímpica,
o Almada e os seus marinheiros sem futuro,
o Ary, provocateur,
panfletário,
o luminoso Eugénio de Andrade,
a Amália e a nossa estranha forma de vida,
e tantos outros poetas que te cantaram.
Ah, e o Pessoa, subindo e descendo o Chiado,
de braço dado contigo,
recitando-te o heterónimo:
A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo…
Que pena eu não ter casado com ela…
Teria sido feliz.
Mas como é que eu sei se teria sido feliz ?

Esquece o Álvaro de Campos, o sedutor,
e deixa-me pôr-te a caminhar
pelos caminhos ínvios e íngremes
desta cidade-sortilégio,
que tu amas, que eu amo, que nós não amamos…
E se, contudo,
há um privilégio,
é sempre o da amizade e do amor,
é esse de poder ter-te
ao alcance da mão e do coração,
entre Paço d’Arcos e o Cais de Sodré,
ou de permeio,
entre o teu blogue e a caixa de correio.
É, enfim, esse privilégio de poder dizer-te:
Como é bom rever-te…
Helena, Lisboa, Tejo e tudo.


________


Nta de L.G.:

(1) Querida Helena: Este é o meu contributo possível para tua festa, o meu e sobretudo o da Alice, que me deu mil e uma dicas sobre ti, como amiga tua de há muitos anos.

A pretexto da prenda que escolheram para te dar (O Livro de Lisboa / coord. Irisalva Moita. Lisboa: Livros Horizonte. 1994), glosei e explorei a tua paixão por Lisboa, o mesmo é dizer, a tua incessante procura da vida, da beleza, do amor, da liberdade, da poesia, do prazer, da felicidade...

Daí a festa que te fizeram na noite de 19 de Maio de 2006, na Casa de Cabo Verde, os teus amigos e amigas de longa data, que trabalharam contigo estes anos todos. Não foi um festa de despedida, mas de (re)encontro(s). Não existe, de resto, essa palavra, despedida, no dicionário dos amantes e dos amigos.

Como escrevi no teu blogue (Caminhos), fiz votos para que algum deles ou alguma delas, te tenham dito nessa noite, ou ouvido:
- Como é bom rever-te, Helena, Lisboa e Tejo e tudo.

Trata-se, se bem reparares, de uma ideia do Álvaro de Campos, um verso que eu adaptei do famoso poema Lisbon Revisited, de 1926.

domingo, maio 14, 2006

Blogantologia(s) II - (26): Às vezes este país quase perfeito e sem mácula

Às vezes este país
parece-me quase perfeito e sem mácula.
Em certos dias.
A uma certa hora.
Em certos sítios.
Visto de um determinado ângulo.
Num dia qualquer, tirado à sorte do calendário.
Por exemplo, no mês de Abril, em pleno Baixo Alentejo.
Ao pôr do sol.
Experimenta ver este país
sentado no banco da frente
do piso superior do autocarro.
Ao sul.
A 250 km ao sul de Lisboa.
Ao fim da tarde.
Ao pôr do sol.

Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula,
numa viagem de regresso a casa,
de Beja a Lisboa.
Viaja sobre as planícies de Beja.
Podes ver as cegonhas
que não já trazem os bebés de França.
Num certo troço da estrada não-sei-quantos
que vai desembocar na A2.
A tal, que é mais conhecida como a autoestrada do Sul,
a que te leva para o Algarve.

Visão panorâmica.
A dois metros e meio acima do solo.
Em voo raso de cegonha.
Toma nota que a hora é importante para veres o teu país.
Tal como o sítio e o ângulo de visão.
Ao fim da tarde,
no conforto relativo do autocarro da Rede Expresso.
Nada como deixares o teu carro em Lisboa
e viajares na Rede Expresso.
Toma a viatura nº 95, de preferência o lugar nº 1.
Podias ter reservado o bilhete pela Internet
ou enviado um SMS.
Mas não vais estragar este momento único
contaminando os teus pensamentos poéticos
com as coisas prosaicas das novas tecnologias.

Nada como um perfeito pôr do sol no Alentejo.
Nada como um montado de sobro
e um bando de cegonhas em formação de voo.
De regresso a casa, também elas.
Nada como um horizonte quase perfeito e sem mácula.
Tão pouco como isto.
Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula.
Por nove euros e meio.
Viajando na Rede Expresso.
Em certos dias, a uma certa hora, em certos sítios.
Saíndo de Beja, a caminho de Lisboa.

Tanto e tão pouco, afinal, para te reconciliares com o teu país.
Noutra hora e noutro lugar, eu acrescentaria:
Nada como um pedaço de pão alentejano,
umas azeitonas com o gosto dos orégãos,
um bocado de requeijão,
um copo de vinho branco,
uma roda de amigos.

Na Festa de Nossa Senhora das Pazes,
entre ficalheiros e azinheiras centenárias.
Todos os anos no domingo seguinte à Páscoa.
Este ano veio muito menos gente.
Que a morte bateu, com mão pesada,
a muitas portas de Vila Verde de Ficalho.
Vinte e cinco mortes, dizem-me desde Janeiro.
A festa e o luto não combinam.
Mas veio gente de outras partes do mundo,
do Montijo, do Seixal, do Barreiro, de Lisboa,
da diáspora alentejana.
E a alegria e a festa do reencontro são universais.

Todos os anos na primeira semana a seguir à Páscoa.
Quer faça chuva, quer faça sol.
E mesmo que os homens não se incorporem
na procissão da santa que dá três voltas à capelinha.
A um tiro de distância da raia espanhola.
Nossa Senhora das Pazes.
Lembrando, pelo caminho, os ódios e os amores antigos
que atraem e repelem os vizinhos separados
pelas extremas de dois países do Al-Andaluz.
Desde 1232 quando o lusitano e cristão D. Sancho II
reconquista aos mouros a margem esquerda do Guadiana.

Mesmo que haja quem queira desistir da vida.
Ou dela se despedir com dignidade.
Doutor, em passando a festa, eu dou um rumo à minha vida.
E aí tu percebes a diferença
entre ter e não ter
um médico de família,
um equipa de saúde,
um centro de saúde,
ao alcance do teu braço.

Para trás deixas o verde das searas de trigo,
do Alentejo que ainda dá pão.
Para trás deixas gente fantástica.
No mínimo, gente competente, boa e generosa.
Que trabalha nos centros de saúde
e suas extensões do Baixo Alentejo.
Para trás deixas amigos.
Em Vila Verde de Ficalho.
Em Serpa.
Na Cuba.
Na Vidigueira.
Em Aljustrel.
Em Almodôvar e no Alvito.
Em Barrancos.
Em Beja.
De Castro Verde a Ferreira do Alentejo.
Em Mértola e em Moura.
Em Odemira ou em Ourique.
Médicos de família, enfermeiros, administrativos.
Em condições muitas vezes difíceis,
sem o conforto do teu gabinete de Lisboa.
Sem o ar condicionado da Sony.
Com 37 graus à sombra.
Com um frio de rachar.
Com falta de equipamentos sociais.
Dando consultas em insólitos lugares,
como o Sporting Clube de A do Pinto.
Ou fazendo SAP em velhos conventos transformados em hospitais.
Remando contra a maré
do individualismo,
do cinismo,
da arrogância,
da gestão mercantilista da saúde,
da descrença,
da desmotivação.
Remando contra os doentes da saúde,
as vítimas da aculturação médica,
os tiques, os taques, as contas, os ajustes de contas
do Portugal Sociedade Anónima dos Hospitais,
da indústria farmacêutica, dos lóbis,
do poder, da política politiqueira...
Gente que cuida dos outros e que se cuida pouco.
que cuida pouco de si própria.
E que pode estar trinta anos numa carreira administrativa
como terceiríssimos oficiais.
Ou que continua a fazer urgências mesmo para além do limite legal de idade.
Que trabalha sem rede.
E que às vezes é até agredida ou maltratada.

Um dia quiseram trabalhar em equipa.
Para prestar melhores cuidados de saúde.
Para trabalhar com outra motivação e satisfação.
Um dia pensaram na utopia igualitária.
Nos idos anos de setenta.
Que nenhum deles era perfeito mas que juntos podiam sê-lo.
Que podiam organizar o trabalho nos cuidados de saúde primários
numa base cooperativa e, sobretudo, igualitária.
Fora da tradicional relação hierárquica
chefe / subordinado ou especialista / leigo.
Pondo também na equipa o utente.
Subvertendo a organização burocrática
que o prussiano Max Weber considerava o tipo-ideal da racionalidade legal.

Hoje a utopia não morreu.
Mas está mais velha e cansada.
A utopia também envelhece mas não morre.
Há muito que as equipas nucleares de saúde
perderam o seu vigor ou se desfizeram.
Mas contaminaram a cultura organizacional
da Sub-Região de Saúde de Beja.
O bichinho está lá e não morreu.
Sempre discordei dos que pensam a utopia sem tempo nem lugar.
A utopia também pode ter um tempo e um lugar.
Porque na sua dupla etimologia,
utopia tanto quer dizer nenhum lugar (ou + topia)
como lugar perfeito (eu + topia).

Eles não são heróis nem levam nenhum existência heróica.
São portugas como os outros.
Profissionais de saúde como os outros.
Apenas fazem alguma diferença.
Eu diria que é um certo modo de ser e de estar.
Algo que não se ensina em escola nenhuma.
Que não se aprende nos cursos de formação do Fundo Social Europeu
me na Faculdade de Medicina
nem nas Escolas de Enfermagem
nem nas Business Schools.
Um modo de ser e de estar
Para o qual não há receitas de cozinha.
Pequenos detalhes que fazem a diferença.
Por isso, por tudo isso, gostei de os ver,
gostei de voltar a encontrá-los.
Eles são portugas
que merecem as minhas palmas.
As nossas palmas.

Originalmente publicado, em prosa, no Blogue-fora-nada > Vd post de 21 de Abril de 2004 > Portugas que merecem as nossas palmas - VII: O pessoal dos centros de saúde do Baixo Alentejo