quinta-feira, julho 28, 2011

Vamos cantar as janeiras (3): Escola Nacional de Saúde Pública, 2010

Viva a Escola Nacional,
Nossa, de Saúde Pública,
Ao pé dela não falem mal,
Qu’ é senhora muito púdica!


Houve até um Pai Natal
Que pensou em embrulhá-la,
Em mau diploma legal
E simplesmente… fechá-la!


Se alguém cá ouve asneiras,
Que se queixe às tutelas,
E, na falta de maneiras,
Que se mude p’ra Bruxelas.


A haver promiscuidade
Entre ciência e poder,
Escolham sempre a liberdade,
E mais o ser que o ter.


Entre ódios e amores,
Vamos cumprindo a missão
De fazer mestres e doutores
Em linhas de produção.


Jingle bell, jingle bell,
Dizem que a crise é global,
Não há tinta nem papel,
Só suporte digital.


Muitas renas, poucas prendas,
Traz à Nova este Natal… mau,
Que ao menos, ó Reitor Rendas,
Não nos falte o bacalhau.


Já foi mais fiel, o amigo,
À mesa dos portugueses,
Estando agora em perigo,
Nas mãos dos noruegueses.


Quem vê caras não vê c’roas,
Diz o nosso economista,
E sem guita não há broas,
Nem saúde que resista.


Vem aí novo director,
Mesmo sem voto democrático,
Boas festas, p’ró senhor,
Quer seja ou não catedrático.


Que cuide bem desta casa,
E de quem nela labuta,
Com sorte e um golpe de asa,
Vamos ganhar a nova luta.


É o melhor que a Escola tem,
Os seus recursos humanos,
Não se queixam a ninguém,
E melhoram com os anos.


Constantino, se não importa,
Uma palavra lhe é devida,
De Alma Ata a Harry Porter,
É toda uma história de vida.


Apreço e gratidão
Ficam bem à nossa mesa,
Com ou sem Natal cristão,
Não aumentam a despesa.

O velho sanitarismo
São os croquetes e as retretes,
Com o sakellaridismo,
É gestão da diabetes.


É estratégia, é parceria,
Mais doenças do milénio,
Não digam que é poesia,
Mas pensamento de génio.


É uma outra gramática,
Policy e governance,
Teoria mais pragmática,
Inovação e nuance.

Co´o intelectual orgânico,
Do novo sanitarismo,
Dissemos não ao pânico,
E abaixo o pessimismo!


Não é líder de cruzeiro,
Nem sequer é general,
Mas é de todos o primeiro,
A ver o novo e o genial.


Sai aqui no apeadeiro
Da Avenida Padre Cruz,
Um abraço, companheiro,
Exemplo e fonte de luz.

E p’ro povo em geral,
Fornecedores e clientes,
Boas Festas, Feliz Natal,
E os corações sempre quentes!


Luís Graça, 16 de Dezembro de 2010

Vamos cantar as janeiras (2): Escola Nacional de Saúde Pública, 2007

ENSP, Natal de 2007

Vozes: Margarida + Pedro + coro da ENSP
Viola: Pedro
Tema musical: Satisfaction


Refrão


O Natal, todos os dias,
É um bom tema de gestão
Não queremos mordomias,
Mas tão só satisfação.


Há uma estátua, frente ao IN…SA,
De um ilustre profe….ssor,
Que nunca usaria pin…ça
P’ra falar com o senhor rei…tor.

Ricardo Jorge, avozi…nho,
Vem cá baixo, à nossa ter…ra,
Aconselhar juizi…nho
Ao que da saúde faz gue…rra.

Tenho de ser diploma…ta.,
Catedrático e director,
Se um diz esfola, outro ma…ta,
Ai, Jesus, Nosso Senhor.

Ainda mais podero…so
É um tal senhor Bolo…nha,
Com o seu quê de mafio…oso,
Diz que o ensino é uma vergo...nha.

Doutor Prista, o É Cê Tê Esse,
Já não posso mais com as Fu…ques
Se a Escola envelhe…ce,
Tire-lhe os tiques e os truques.

Por mor da mobilida…de,
Viaja em cima o discen…te,
No comboio da liberda…de
Fica em baixo o do…cente.

Meu Pai Natal é astu…to,
Não me vai abrir a co…va,
Traz com ele novo estatu…to
P’ra Univerdade Nova.

Refrão

O Natal, todos os dias,
É um bom tema de gestão
Não queremos mordomias,
Mas tão só satisfação.

L.G.

Vamos cantar as janeiras (1): Escola Nacional de Saúde Pública, 2008

Natal de 2008, na ENSP/UNL


No Natal de dois mil e oito,
Muitos votos e poucas prendas,
Diz aflito e nada afoito
O pobre do Reitor Rendas.


Novo estatuto vem no sapato
Da nossa querida escolinha:
- Pai Natal, aqui há gato…
Vamos passar muita fominha?


Lá se vai o belo tacho,
Desta escola director:
- De escalão é que eu não baixo,
Serei sempre professor.


Já fiz o meu TêPêCê,
Senhor Professor Bolonha,
Nesta Escola, como vê,
Muito estudo, pouca ronha.


Neste mar de tubarões,
Não sejas peixe miúdo,
Só em cardume, aos milhões,
Podes vencer o Graúdo.


De vós que em breve vos ides
Para a reforma dourada,
Cito o Doutor Sakellarides
E Hígia (*), a sua amada.

No aforismo hipocrático,
Vida curta e longa arte,
Não condiz com catedrático,
Que entra, sai e… logo parte.


Tudo por mor do povo,
Natal é festa... e também
Saudar o Ano… Novo -
Dizem eles! – que aí vêm.


Sendo uma casa com história,
E uma Escola Nacional.
O ano vai ser de glória,
Para a saúde em Portugal.


Venha o novo director,
Com ou sem bênção geral,
Que o Ano seja o melhor,
Boas Festas, pessoal.

Lisboa, ENSP/UNL, 19 de Dezembro de 2008


LG


______________
 
(*) Hígia, deusa grega da saúde, irmã de Panaceia, a deusa da medicina (a arte), ambas filhas de Asclépio, o semi-deus, pai mitológica da medicina ocidental



http://www.ensp.unl.pt/lgraca/textos2.html

sexta-feira, julho 01, 2011

Bogantologia(s) II - (94): Homenagem ao Prof Constantino Sakellarides

1. Homenagem, poético-sentimental, ao Prof Catedrático Jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), Constantino Thedor Sakellarides, também conhecido pelo nickname SAK, ao quilómetro 70 da sua autoestrada da vida, por parte de todos os companheiros e companheiras da saúde pública, aqui sentados/as à volta desta mesa, como ele gosta…


Companheiro: palavra que vem etimologicamente, do  latim cum + pane (aquele que come o mesmo pão à mesma mesa)….


É grego, de ascendência,
Moçambicano profundo,
Portuga por excelência,
Grande cidadão do mundo.

É nativo de Aquário,
Nascido em 1 de Fevereiro,
Tem fama de visionário,
Mas não de… facebookeiro.

É SAK, lutador também,
Detesta o assim-assim,
Faz jus ao nome que tem,
Constantinus, em latim.

Theodor, que é dom de Deus,
Foi por paixão, não por sina,
Que, em vez do reino dos céus,
Escolheu a medicina.

Com o seu quê de bizantino,
Tem fama de sedutor,
É o Doutor Constantino,
Mestre, guru, professor.

Do Maputo a Copenhaga,
Ou de Houston a Granada,
Sua vida é uma saga,
E a Higia a sua amada.

É um homem com memória,
E sentido de gratidão,
Que até da pequena história,
Faz a magistral lição.

Só não andou embarcado,
Em velhas Naus Catrinetas,
De três ninfas pai babado,
Avô de netos e netas.

Se o SAK é estrangeirado,
Por trabalhar que nem um negro,
Quem o diz está enganado,
SAK é tão tuga como grego.

Ao SAK pouco lhe importa,
A guerra que lhe é movida,
De Alma Ata a Harry Porter,
SAK é história …(de)vida.

Chamam-lhe o ideólogo
Do novo sanitarismo,
Da saúde, o politólogo,
Viva o SAK’llaridismo!

Não é gestor de cruzeiro,
Mas foi director-geral,
De todos é sempre o primeiro,
A ver o novo e o genial.

Não é roubo, não é saque,
Tem valor acrescentado,
A amizade do nosso SAK,
Prof agora jubilado.

Ao quilómetro setenta,
Da autoestrada da vida,
O SAK ainda aguenta
O calor da despedida.

Continuamos a conversar
Sentados à volta da mesa:
Que o contrato a celebrar,
É co’ a vida, de certeza!

Sais aqui, no apeadeiro
Da Avenida Padre Cruz…
Xicoração, companheiro,
Exemplo e fonte de luz!


Jantar de homenagem,
Lisboa, Bairro Alto,
Restaurante La Paparrucha
1 de Julho de 2011


2. Deixa-me acrescentar aqui, Constantino, um excerto de um recensão do teu último livro, “Novo contrato social da saúde: incluir as pessoas” (Lisboa: Diário de Bordo, 2010).

Foi feita para um dos meus módulos, por um nosso  (meu/teu) aluno do programa de doutoramento. Ele vai perdoar-me (e tu também) se eu, abusivamente e sem autorização prévia, transcrever e ler aqui publicamente o que ele disse a respeito de ti, autor do livro:

“Sakellarides reforma-se agora, com 70 anos de idade. Tive o privilégio de assistir às últimas aulas que leccionou sobre políticas de saúde, na Escola Nacional de Saúde Pública, onde expôs, no modo eloquentemente brilhante que o caracteriza, as ideias que expressa neste livro. Confirmei as convicções que já possuía: Sakellarides é um dos maiores politólogos da saúde portugueses (e internacionais) de sempre, uma das pessoas com maior influência na estruturação do pensamento em saúde e um Homem com dedicação à causa pública como não tem rival. A sua última obra escrita, aqui em análise, é o testemunho vivo disso mesmo”.

Deixa-me dizer-te o nome do aluno: Domingos Malta. Quando ele chegar ao quilómetro 70 da sua autoestrada da vida, vai seguramente lembrar-se, como tu, dos mestres que teve e que o marcaram, e entre eles figura um senhor chamado Constantino Sakellarides.

Podem, meu caro SAK, tirar-te, tirar-nos tudo, mas são estas pequenas recompensas imateriais, dadas pelos nossos alunos, que nos reconciliam com a vida de professor, suas grandezas e misérias, suas alegrias e tristezas… Acho que é bom sentir que afinal o pedagogo (do grego, paidagōgós) é mais, muito mais – etimológica e metaforicamente falando - do que o escravo que leva a criancinha, pela mão, à escola


LG (em nome de todos/as os/as presentes e dos/das que não puderam vir, que tiveram – e continuam a ter - o privilégio de te conhecer, trabalhar contigo ou simplesmente privar contigo).

quinta-feira, abril 28, 2011

Blogantologia(s) II - (93): Elegia para um paisano





Elegia para um paisano (*)

por Luís Graça [ foto acima, no "oásis de paz" de Contuboel, Centro de Instrução Militar, Junho de 1969]

(À memória de A…, meu camarada
da CCAÇ 12, Guiné, 1969/71…
e dos demais camaradas, desconhecidos
que morreram,
de morte violenta,
já como paisanos,
por homicídio, por suicídio, por acidente)



Disseram-me que tinhas morrido,
Meu infortunado camarada,
Já muito depois do nosso regresso a casa.
Talvez nos finais dos anos 70
Do século passado,
Não posso precisar.
Morrido, lerpado,
Para usar o nosso vocabulário,
Bruto e feio.
Lerpado, assim, sem mais nada,
Sem uma palavra,
Sem uma despedida,
Sem uma oração,
Talvez até sem um ui nem um ai,
Sem um grito.
Sem aviso prévio,
Nem sequer um cheque-mate!
Morrido, de morte matada!
Morrido, como um cão.
De um tiro na nuca.
Como os cães que abatemos,
Um noite, em Bambadinca,
A Noite das Facas Longas,
Lembras-te?!

Disseram-me que tinhas sido encontrado,
Longe da nossa Guiné,
Dessa terra verde e vermelha que tu amavas,
Longe da tua Sinchã Mamadjai,
E da morança da tua bela Fatumatá,
De mama firme,
Que se escapulia para a tua morança,
Nas noites, de lua cheia,
Em que uivava a hiena…
Longe do tarrafo do Geba,
Do Mato Cão,
Dos Nhabijões,
Da Missão do Sono,
Da Ponte do Udunduma,
Da orla da bolanha,
Do poilão,
Do bagabaga…
Onde ?
Longe dos teus verdes anos,
Longe do arco-íris do teu céu de menino.
Perto do teu Tejo,
Numa valeta da rua
Da tua cidade…
Ou de qualquer subúrbio triste e cinzento
De cidade nenhuma.

Que morte tão crua,
A ser verdade,
Oxalá fosse boato a notícia de fait-divers
Que alguém leu no jornal.
A notícia de uma morte
Em que eu não te (re)vejo.
Oxalá, meu camarada,
Tenhas simplesmente desaparecido,
Emigrado,
Sido sequestrado,
Mudado de código postal
Ou até de identidade,
Sempre era menos mal.
E poupavas-me o teu elogio fúnebre,
Que é a pior das missões
Que se pode pedir a um camarada de armas.
Disseram-me
(Mas eu não quis crer)
Que tinhas sido morto,
Sem honra nem glória,
Depois de cumprido o teu dever
Para com a Pátria
Que te foi madastra,
Cruel Jocasta.
Já depois da última nau da Índia ter naufragado
No mar da Palha da tua infância!
Já muito depois
Dos últimos guerreiros do império,
Terem feito o espólio de todas as guerras
E o relatório da sua errância
Desde Quinhentos.

No século passado, meu amigo!...
No século passado, meu irmão!...
Lembro-me do velho Uíge,
Da velha Companhia Colonial
De Navegação,
Nos ter devolvido a terra,
À nossa cidade e capital,
Nas praias de Alcântara,
No cais da saudade,
No cais de pedra
Donde partíramos,
Quase às escondidas,
Vindos do comboio nocturno e soturno
De Santa Margarida.

Não sei quem te esperava
Nesse dia 22 de Março de 1971,
Mas seguramente os mesmos entes queridos
Que me esperavam a mim,
A todos nós,
Que ali, no cais, passávamos à condição
De paisanos.
Vestidas as calças à boca de sino,
E as camisas às florinhas,
Regressávamos ao doce lar,
Com as bugigangas compradas no Taufik Saad
ou na Casa Gouveia,
E à rotina das nossas vidas,
Insignificantes.
E a uma outra guerra,
A da lufa lufa do quotidiano.
Tu tinhas um lar,
Todos tínhamos um lar,
Uma família, alguns um emprego,
Muitos uma namorada ou noiva à sua espera…

Mas eu o que sabia de ti ?
O que sabíamos uns dos outros ?
E dos nossos sonhos ?
Muito pouco, afinal…
Casaste ?
Tiveste filhos ?
Não tiveste tempo de ser bom filho,
Nem bom pai,
Muito muito menos avô…

Nunca mais voltei a rever-te,
Em todos estes anos,
Em que tantas coisas aconteceram,
Para o pior e o melhor,
Na nossa Pátria,
Uma palavra, repara,
Que saiu do léxico dos tugas,
E já não se usa mais…

A imagem mais forte, não a última,
Que retenho de ti,
É a do menino e moço
Que saiu, fardado, garboso,
Da casa de seu pai e sua mãe…
É a do puto reguila,
Quiçá rebelde,
Temperamental,
Belicoso mas generoso,
Da margem sul do Tejo.
Com jeito para o desenfianço,
O desenrascanço,
Que a vida era dura para os homens
Da CCAÇ 12,
Brancos e pretos.

Retenho ainda a imagem
Do nosso patético duelo
No bar de sargentos de Bambadinca,
Tendo por arma, letal,
Uma garrafa de VAT 69
(Ou era Jonhnie Walker ?
Ou White Horse,
a tal do cavalinho branco ?
Já não me lembro do rótulo,
Sei apenas que era scotch,
E do bom,
Daquele que vinha
From Scotland
For the Portuguese Armed Forces
With love
!)…

Um duelo de morte,
Gole a gole,
Até ao gole final,
Em menos de 15 minutos!...
Com árbitro e tudo,
Apostas a dinheiro,
Mirones e claques de apoio,
Como mandavam as regras
Dos apanhados do clima de Bambadinca!

Apanhados do clima, dizes bem,
Exaustos,
Usados e abusados,
Filhos de um Sísifo menor,
Condenados ao mais insano dos suplícios,
Uma guerra a que chamavam
De contra-guerrilha,
Uma guerra do gato e do rato…
Não, não, era a roleta russa,
Ninguém tinha pistolas de tambor,
Era o fado lusitano,
Era o fado da Guiné,
Meu camarada, meu amigo, meu irmão,
Era a nossa triste condição,
Era a nossa quiçá estúpida, mas viril, maneira
De matar… o tempo,
O tempo em tempo de guerra,
O tempo de espera entre uma e outra operação.
O tempo de espera que podia ser
Entre a vida e a morte.
Era a insanidade mental,
Era a raiva, traiçoeira,
Era a lucidez da loucura a tomar conta
De nós….

Foi esse fado que te matou,
Essa maldita, tóxica, adrenalina,
Que trouxeste do Geba e do Corubal.
E que te impedia de parar para pensar,
Simplesmente parar,
Simplesmente pensar,
Simplesmente viver,
Simplesmente respirar
À tona de água.


Meu irmão.
Meu camarada.
Meu amigo.
Foi o sobressalto da vida.
Foi a vida em sobressalto.
Foi a vida em saldo.
Foi a alma em dor.
Foi isso que te matou.
No pós-guerra.
Na guerra dos paisanos.
Foi isso, foi a Guiné que te matou.
Ao retardador.
Ou não ?!

Sexta-feira Santa, Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, 22/4/2011

Originalmente publicado no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné: Vd.poste de 23 de Abril de 2011 > Guiné 63/74 - P8157 Blogpoesia (146): Elegia para um paisano (Luís Graça)

  

quarta-feira, abril 06, 2011

Blogantologia(s) II - (92): Como era difícil a ternura em 1978

Para a minha Joaninha,
Que continua a ser a minha Joaninha,
E para a mãe da Joaninha,
Que continua a ser a minha… Chita!


Chita, como era difícil a ternura,  em 1978!
A festa, o 25 de Abril,  tinha acabado há muito.
Arrumados o palco,
As cadeiras, 
Os bonecos, 
As palavras de ordem,
Regressávamos a casa e ao trabalho.
Em 1977 o país, pobre de pedir, 
Batia à porta do FMI.
Em 5 de Abril de 1978,
Pelas nove da manhã,
Eu tinha-te deixado à porta do elevador,
No 3º piso do Hospital de Santa Maria.
Feio, 
Lúgubre, 
Medonho, 
Estado-novista.
Estavas grávida.
Gravidíssima.
Não escondias algum cansaço e ansiedade.
Nada do que tinhas planeado, batera certo.
A sala de maternidade do Hospital Egas Moniz,
De quarentena,
Por causa de uma  infecção qualquer.
O parto sem dor, em não sei quantas lições,
Era para esquecer.
A minha presença,  a teu lado,
Um direito que tínhamos conquistado há pouco,
Gorava-se…
A maternidade agora era um fábrica de parir.
Demos um beijo, apressado,
Enquanto a enfermeira te levava para dentro do bunker.

Às duas da manhã do dia 6 tu dormias, pensava eu.
No 6º piso do hospital.
Ou foi o que me disseram ao telefone, à meia noite.
Alguém, sonolento, do outro lado da linha.
Em casa, na Travessa do Possolo,
Eu disfarçava as insónias,
Por entre um bagaço e dois cigarros.
(Ainda se fumava, naquela época!).
Tinha regressado das aulas à noite, no ISCTE.
Não devo ter estado muito atento
Ao que disse o professor.
Por entre a janela da sala de aulas, podia vislumbrar
O mastodonte do edifício do hospital
E lá dentro, naquele imenso formigueiro,
Uma mulher desesperada para dar à luz…
E sentia-me vagamente culpado
Por não poder (ou não querer ?) ser
Totalmente solidário contigo
Que estavas ou ias estar em sofrimento nessa noite,
Para de madrugada pores no mundo um filho,
O teu filho, o nosso filho…
De repente dei conta
Que não estava a escrever ou a dizer
O meu filho,
Não estava ainda a assumir o meu papel de pai,
A parentalidade, como agora se diz…

Afinal, era a ti que essa criança
Estava ligada pelo cordão umbilical,
Era a ti que ela ficaria vinculada para sempre,
E as dores só podiam ser tuas…
Nunca, em época alguma, um homem podia
Sentir nas entranhas, 
Avaliar, 
Conhecer por experiência própria
As dores do parto,  
O anátema bíblico
Do “Parirás com dor!”…
De repente tive um momento de fraqueza,
De dúvida,
De angústia.
Será que vou ser um bom pai ?
Um bom marido ?
Ou o melhor pai ?
Ou o melhor marido ?

Do trabalho, no Terreiro do Paço,
Às 13h15  telefonei  para o hospital…
E não queria acreditar.
Não havia ainda telemóveis,
Em 1978,
No século passado…
Não podia sequer falar contigo.
Por isso, não acreditei.
Pensei que devia haver confusão,
Troca de nomes,
Bagunça à portuguesa,
E até quiçá troca de crianças.
Eu sei lá, o que me terá passado pela cabeça.
Pedi a uma colega de trabalho,
Que me confirmasse.
Olga, de seu nome. Minha amiga.
E ela transmitiu-me o recado:
A parturiente Maria Alice Ferreira Carneiro,
De 32 dois anos,
Casada,
Residente em Lisboa,
Na Travessa do Possolo,
Tinha dado à luz
Uma robusta, perfeita e linda criança,
Do sexo feminino,
Com 3,850 quilos de peso
E  50 centímetros de altura,
De olhos de amêndoa,
Achinesados,
Por volta das 10 e meia da manhã.
Mãe e bebé estavam bem…
E logo confirmei, à tarde,
Que tu e a nossa Joaninha estavam bem.

… Claro que nessa noite,
Sozinho em casa,
Fui festejar com os amigos 
Que convidei.
Os amigos da turma, o Jorge, a Joana...
Coisas de homem, de pai babado,
De macho orgulhoso.
Comemos a tua reserva de bolinhos,
Feitos por ti, com tanto amor,
Para oferecer às visitas.
Sei que nunca me perdoaste esse gesto perdulário!
Mas, acredita, 
Esse crime de lesa-património familiar
Foi por uma boa causa,
Na altura, pela melhor causa do mundo,
Por  ti e pela nossa Joaninha!

Alfragide, 6 de Abril de 2011, trinta e três anos depois…

terça-feira, março 15, 2011

Blogantologia(s) II - (91): Nada disto é fado

Nada disto é fado


Nada disto é fado, é apenas história (de)vida,
Ruas do ouro e da prata, de outrora, querida.

Colina acima, rua abaixo, no metro de Lisboa,
Ou no amarelo da Carris, é a vida, à toa.

A vida é um assalto à caixa de Pandora, meu amor.
Beware of pickpockets, avisa o revisor…

Alcântara, a ponte de fogo, suspensa
Sobre a tua cabeça, e a nossa raiva, tensa.

Em Almada, a teus pés, tens o estuário do Tejo,
Mas é na solidão do Terreiro do Paço que eu mais te desejo.

Compro castanhas, quentes e boas, com ternura,
Enquanto a vida segue pelas ruas, sujas, da amargura.

Nada disto é fado, é apenas história (de)vida,
Ruas do ouro e da prata, de outrora, querida.

21/3/2011

Blogantologia(s) II - (90): Horóscopo

Horóscopo

És caixa de fragrâncias do mar,
És navio de popa a proa,
Ancorado na enseada de Paimogo,
És ágar-ágar,
Corpo escorrido de algas,
És ilha e promontório,
És gruta, caverna, furna, algar,
Só não és tágide, nascida em Lisboa.

Chamam-te chita, mas és leoa.
És caminho de Pedro e Inês
Entre as fragas das Cesaredas,
Aonde voltarás uma e outra vez.
No meu sul, és ave de arribação,
Mas também, no teu norte, rota de colisão.

És o princípio da mentira
De todas as verdades proclamadas,
Tens sabores de coentro e hortelã,
E de outras ervas aromáticas como a ternura,
És razão, nua,
Às vezes, muda, surda e cega,
És contradição,
Pura e dura,
Nunca malsã,
És argumento e metáfora,
És alfa,
Mas nunca omega.

Poderias ter sido pássaro híbrido,
Entre a cegonha e o flamingo,
Se não fora o norte, o teu norte,
Magnético,
Truculento,
Desabrido,
Traçado na linha da vida da tua palma da mão.

Poeta, sou pobre na arte da adivinhação,
Praticada entre o pôr do sol e a aurora,
Mas julgo que já foste deusa,
Entre Atena, Diana, Higia e Pandora,
Quiçá até pastora,
Tocando no Olimpo bandos de animais,
A preceito.

Pode ser grosseiro o meu traço do teu horóscopo,
Pode até ser pouco ético,
Mas a mim falta-me sobretudo o jeito,
Para te dizer que te amo… demais!


(Originalmente publicado em A Nossa Quinta de Candoz > 18 de Agosto de 2010 > Horóscopo (para a Chita que  hoje faz anos)

domingo, fevereiro 13, 2011

Blogantologia(s) II - (89): História (de)vida: Vila, vida, com o mar em frente, entre cabeços (para a Alice, companheira de meia vida)





Lisboa > Estuário do Tejo > 5 de Fevereiro de 2011 > Fim de tarde...


Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados





História (de)vida:
Vila, vida, com o mar em frente, entre cabeços
(para a Alice, companheira de meia vida)


A vida no campo não era vida,
Não era a vida a vila,
A cidade, o campo.
Nem as tuas leiras,
Os teus solcacos,
Os teus montes.
Não era a vida devida.
Querida,
Esperada,
Sonhada.


Mas o que é a vida,
Meu bem ?
Pensando bem,
A vida no campo até tem
Ou tinha
O seu lado terno,
Ma non troppo.
Eu gostava do campo,
Nas férias grandes,
Do ar puro dos pinhais e eucaliptais
Do Vale de Geões
Que faziam bem aos pulmões,
Dizia o João Semana
Lá na minha terra,
Bacharel de medicinas
E de ervas medicinais.
Em contrapartida,
Odiava a colher de pau,
O óleo de fígado de bacalhau.
E as bolas de carne em sangue
Enroladas em açúcar,
Metidas pela goela abaixo.
Lembrar-me-iam mais tarde a guerra,
E a anatomia dos corpos
E a fisiologia do horror.
Temia, sobretudo,
E temia que me pelava,
As bruxas, à noite,
Debaixo dos lençóis.


Ele há coisas na vida do campo
Que eu nunca saberia explicar.
A lufa-lufa, a freima,
Os grandes trabalhos colectivos,
A ceifa,
Os miasmas das doenças,
O trabalho de sol a sol,
Trabalhar que nem um mouro,
Trabalhar que nem um boi,
Trabalhar que nem um galego,
Trabalhar que nem preto.
Temia a pata dos poderosos.
E dos seus cavalos e dos seus mastins.


Não, nunca trabalhei no campo.
Mas gostava da vida no campo
Onde não vivi.
Nasci ao som dos moinhos de vento
E do gemido nas redes dos barcos à vela.
Gosto do campo,
Quando o sol nasce,
Quando o sol se põe.
Tenho um pensamento piedoso
Para a parteira que me aparou.
E para o padre que me baptizou.
E para a professora que me ensinou
A ler, escrever e contar.
E me levou a primeira vez
À cidade.
Grande.


Gosto do campo,
Não sendo camponês
Como tu foste camponesa.
O campo,
A vindima,
A colheita,
O riacho,
As pedras no leito do rio,
O inverno,
A invernia,
O cheiro a estrume,
As batatas com pele,
A febre dos fenos,
Os amores ardentes,
Os colchões de palha,
A lareira no inverno,
Os lençóis de linho,
As tamancas,
As sardas escaladas,
As miúdas de sardas
E ranho no nariz,
Os carapaus secos,
A raia cozida,
A esterqueira,
A neve que nunca vi,
A matança do porco…


Ah! A matança do porco do teu imaginário,
Que o melhor era a bexiga do porco
Para os putos que nada sabiam da vida,
Nem das suas sete partidas.
Nem da guerra anunciada.
Para os putos jogarem à bola,
Os pés descalços
No campo da debulhadora do trigo.
A dois quilómetros da vila.
No Nadrupe.
Na Quinta do Bolardo.


No fundo, o que sabias tu da vida ?
O que sabes ?
Não é preciso ser bem pensante,
Que a vida é mal passada,
Pensada,
Prensada,
Uff! Puxá vida!
Na cidade,
Na vila,
Ou na cidade e no campo
A vida, a vila, é apenas
A estratégia da aranha,
A cilada da morte.
Por tédio,
Asfixia,
Overdose,
Aflição,
Desassossego,
Insónia,
Erosão,
Irrisão,
Depressão da paisagem
Por montes e vales.
A via estreita da vida na vila no campo
Ou na cidade.
A erecção.
A evicção.
A força centrífuga da morte
Na curva da vida.


Mal pensada a coisa
Da vida indevida,
Vida de cão na cidade das sete vidas,
Sete Colinas,
Capital,
Capitólio,
Tudo somado igual
A sete fôlegos de gato
No sobe e desce do bairro,
Entre o pau e o fogo da lareira.


Trespassa-se a vida,
Traspassa-se o corpo,
Trapaça de vida,
Em vila sossegada com vista de mar.
Prensa prensada puxada
Bem parecida a vida na vila,
Apetecida,
No campo de cebolas do talho
Que se comiam em azeite e sem alho.
Na tua terra, Candoz.
Na terra de todos nós,
O Portugal de lés a lés.
Pensando nos parentes embarcados,
Nos Brasis, nas Terras Novas,
Ganhando o pão que o diabo amassava.
Ou nos filhos mobilizados,
Feitos soldados,
P’r’a guerras do império.
Índia, Angola, Moçambique, Guiné…
A malga do vinho tinto verde
Entre os camponeses do norte.
O pão, o centeio, o milho,
A casa farta,
A mesa farta,
O presunto,
O salpicão,
A salgadeira que mata.
Alguém sabia lá da cartografia da morte
No Cacheu, ou no Oio, ou no Cantanhez ?!
O sal,
O colesterol,
A tensão essencial,
A vidinha.
Pior é a saudade que rói e que mata.


E agora que não há razões para pensar
Que a vida no campo é
O corpo de delito,
Eu grito
Que a vida está pela hora da morte
Vida, morte, ex-exaequo,
Tensão,
Macho e fêmea,
Misógina a cidade,
Macho, marialva, o campo
Ou o pré-conceito
da minha civilização judaico-cristã.


Saudades ?
A vida no campo era bem passada
Como o bife ao domingo,
Que tu ganhavas fazendo o pino
No Talho do Xico.
No tempo em que a vida no campo ou vila,
Que diferença!,
Era a tua infância.
Vida, vila com o mar em frente,
Entre cabeços.
As Berlengas ao fundo.
A eterna errância
Do mundo.
Foi lá que te vi,
Foi lá que te conheci.


(Para ser lida no dia dos namorados, 14/2/2011)

quinta-feira, outubro 28, 2010

Blogantologia(s) II- (88): A Caixa de Pandora

A caixa de Pandora




(...Ou um poema panteísta contra a misoginia
No Dia Internacional da Mulher, 21 de Março)


* Luís Graça






Os deuses criaram a primeira mulher,
e puseram-lhe o nome de Pandora.
Dizem que foi por castigo,
como presente envenenado,
oferecido aos homens,
a quem Prometeu, o titã, tinha dado o fogo,
roubado aos céus.


Na sua fabricação,
à imagem e semelhança dos deuses,
trabalharam Hefesto e Atena,
sob as ordens do próprio Zeus,
e com o auxílio do resto do Olimpo.


Cada dividindade se esmerou
e lhe deu uma qualidade:
a graça,
a beleza,
a meiguice,
a paciência,
a persuasão,
a inteligência,
a graciosidade na dança,
o talento para a cozinha,
a destreza para os trabalhos manuais,
o amor maternal…


Porém Hermes, o pérfido,
inocolou no seu coração
o virús da traição e da mentira.


Zeus, o colérico e vingativo pai dos deuses e dos homens,
mandou então a sua obra-prima
para a terra.


Epimeteu, irmão de Prometeu, estava por este avisado:
- Do céu nunca virá nada de bom!
Nunca aceites nenhum presente divino…


Deslumbrado com a sua beleza,
Epimeteu tomou Pandora como esposa.
Em casa, ele tinha uma misteriosa caixa
que trouxera consigo do céu.


Pandora fora instada a nunca a abrir,
em circunstância alguma.
Mas a curiosidade feminina foi superior às suas forças.
… Lá dentro estavam todos os males e todas as doenças,
incluindo a peste (a pior das doenças),
que haveriam de afligir a humanidade,
até ao fim dos séculos dos séculos…


Mas no fundo da caixa, ficou ainda
um resto do recheio da caixa
o único elemento que não se chegara a libertar,
porque Pandora, assustada, acabou por fechar a tampa,
na última fracção de segundo …


E esse elemento era… a Esperança!
Apesar do erro irreparável,
com Prometeu, Pandora vai permitir aos homens
manter acesa a luz ao fundo do túnel,
manter vivo o fogo do conhecimento e da paixão,
ter direito ao futuro,
levá-los, enfim, a superar a sua condição animal…


Com Pandora, não somos definitivamente criaturas divinas,
somos assumidamente seres livres,
humanos,
mortais,
mas donos do nosso destino.


Com Pandora, tornámos irrisórios os deuses,
libertámos as suas criaturas,
humanizámos a vida e a terra…


Pandora não é a fonte de todos os males,
é afinal “a que tudo dá",
em grego.