quinta-feira, abril 16, 2009

Blogantologia(s) II - (79): Rua da Conceição nº 100, Lisboa, 1976

Lisboa > Terreiro do Paço (antes do terramoto de 1755) > Azulejos (pormenor) > Casa do Alentejo > 17 de Janeiro de 2009.

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.


Rua da Conceição nº 100, 1976

Blogarias.
Papéis velhos,
amarelecidos,
desenterrados do baú.
Literalmente,
do baú do sótão da casa e da memória.
Outros tempos.
Outros estados de alma,
se é que a alma tem estados,
como a matéria
que é sólida, líquida ou gasosa.
Em 1976, o mundo ainda era
a preto e branco.
Não havia televisão a cores.
Nem computadores pessoais.
Era a pré-história de qualquer coisa
que mal se advinhava.
Havia a IBM
e as main frames
e as máquinas da Bull
e o cartão perfurado.
E a guerra fria,
que ironia.
Escrevias numa maquineta
de dactilografar,
levezinha,
daquelas portáteis.
Imperial, inglesa, vitoriana.
AZERT ou HCESAR ?
Não, não tinha certificação de qualidade.
Eras estudante de sociologia.
Um safado,
Um sacana,
Um semi-privilegiado
Do hemisfério norte.
Trabalhador-estudante.
Ex-combatente
Da guerra colonial.
Com sorte.
E com culpa por ter tido sorte.
Trabalhavas na Rua da Conceição,
nº 100.
Na Baixa.
Num velho prédio pombalino.
Ao serviço do fisco.
E do seu projecto de modernização.
E apanhavas o já famoso 28,
o eléctrico amarelo da Carris,
para ires almoçar a casa.
Moravas nas traseiras da Infante Santo,
no bairro da Lapa dos pobres,
dos criados da velha nobreza decadente.
Numa parte de casa de estudantes
e de obscuros professores de economia
que um dia irão vingar-se
do triunfo do mercado.
Travessa do Possolo, meu caro,
Nº 17, 19 ou 21,
já não me lembro.
Tinhas posto um anúncio no Página Um,
uma pasquim esquerdista,
dirás tu quando tiveres 70 anos.
Tentando a sorte de arranjar
uma casa ou parte de casa.
Que quem casa, quer casa.
Que a crise de habitação já não é de agora,
vem de trás,
desde que congelaram as rendas
e prometeram o bacalhau a pataco
à rapaziada da classe operária.
Ainda te recordas
que o anúncio (pessoal) começava assim:
"A um capitalista
que leia o 'Página Um' por engano"…
Arranjaste uma parte de casa.
Estudavas à noite.
Eras casado.
Não tinhas filhos.
Mas houve um senhor ministro,
O Sottomayor,
o Cardia,
paz à sua alma,
que decidira mandado fechar o teu instituto,
o ISCPS.
Em nome da normalização
democrática.
Tinham tirado o U ao velho ISCSPU,
depois da queda do império colonial.
Sanearam as 'múmias', os profes.
Decapitaram o conselho científico.
Importaram latino-americanos para ensinar
a sociologia da mudança, da revolução.
Os assistentes e os estudantes tomaram o poder.
Alguém escreveu nas paredes do Palácio Burnay,
que era o homem mais rico de Portugal
no virar do Século XIX.
Nada que não se tivesse visto antes,
noutros tempos,
noutros lugares.
O poder tem horror ao vazio.
O Sotto Mayor Cardia tinha horror ao vazio.
Foste para o ISEG,
Onde continuaste a martelar
O economês e o sociologuês.
Outros como o pobre do Salgueiro Maia
ficaram por lá,
na Guerra Junqueiro,
para acabar a antropologia.
Para gerir mais presídios transformados em tristes museus.
Imagino que ele fosse bom em etnologuês,
que é o dialecto que nos resta,
à porta de entrada da Europa.
Mas os sociólogos e os economistas foram corridos.
Acabaste, no 3º ano,
por ir parar ao ISCTE,
do senhor engenheiro Sedas Nunes.
Algumas destas blogarias
são dessa época, de 1976/1977.
Outras são até mais antigas.
Tinhas-lhes perdido o rasto.
Já não te reconheces totalmente
no que escrevias nessa época.
Não tens que te reconhecer,
que um homem não é de pau,
nem cara de pau,
nem de pau santo,
nem de cera,
nem de marfim.
Nem é feito de uma só peça,
a canivete,
Mas não rejeitas esses escritos
nem vás branqueá-las,
nem muito menos sorteá-los.


o tempo era de outono
e de 1976
o lugar poderia ser portugal
porta do cavalo da europa

exercícios de estilo,
atenção meus senhores
isto é um assalto,
façam exercícios compensatórios,
mãos ao ar,
cabeça direita,
nada de truques,
impressões de viagem no eléctrico
Estrela rua da Conceição,
fichas de leitura
na diagonal,
escrita automática,
contributo para um novo modo de produzir
e de viver
faits divers
a ideologia que se consome todos os dias
à mesa da boa consciência,
o direito de cagar ao ar livre,
consagrado na constituição,
já,
reclamavam os velhos anraquistas,
notícias necrológicas,
Max Weber, Durhkeim,
a epistemologia,
histórias aos quadradinhos dum maginal-secante,
boletim metereológico
da revolução que o não será,
revolução pr’amanhã.
Prá mamã.
Mas quem pediu uma revolução pr’ amanhã, prá mamã ?
Cartas clandestinas
ou nem por isso,
folha dominical para os dias cinzentos da semana,
informações pidescas ou pós,
relatório do crime,
pequena enciclopédia da via sexual
dos sete aos setenta anos,
o ânus horrível de 76,
a bancarrota,
que o FMI vem aí,
o arroto da banca
nacionalizada, nossa,
diziam os bancários agora banqueiros,
títulos de caixa alta
o tédio em tempo de paz,
a imaginação para a prisão,
recortes de A a Z,
curriculum vitae oprimido e explorado,
cadastrado,
o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos,
transgressões íntimas,
o elogio do colchão ortopédico,
misérias e grandezas do(a) capital,
blá blá,
o livrinho vermelho dos maoístas
onde a explicação do mundo
cabe numa metáfora,
peças em 1 acto (sexual),
fogo sobre o revisionismo
e o social-facismo,
parecer sobre o estado calamitoso do reino,
a arte de fugir ao fisco,
os contos do vinho tinto,
a autofagia,
o fantasma do Pessoa
na tabacaria da esquima,
no Martinho da Arcádia,
ali tão perto,
ou a economia política
ao alcance de todas bocas,
proletas de todo o mundo (re)uni-vos.
ou melhor: os destroços das batalhas perdidas
dos últimos dois séculos.
Vous aimez Marx ?
A angústia em papel celofane,
poesia,
amor,
ao domingo,
na Rua da Conceição nº 100,
um pardieiro,
arte,
guerra,
solidão,
solidariedade de classe,
revolução de manhã, sol à tarde,
como a eira de sequeiro
e a horta de ragadio:
misturem bem e bebam frio!
Haraquiri dum petit-bourgeois,
aqui e agora
comem-se castanhas assadas
no jardim da Estrela.

PS - Nesse tempo não havia velhos.

quarta-feira, abril 15, 2009

Blogantologia(s) II - (78): A guerra como forma (heróica) de suicídio... altruista

Moçambique > Mueda > CART 2369 (1968/70) > O 2º sargento miliciano Sérgio Neves junto a um mural onde se lê: "Em Mueda, os cordeiros que entram, são lobos que saiem. Adeus checas". Recorde-se que o checa, em Moçambique, era o nosso pira ou periquito (*)


Foto: ©
Tino Neves / Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.



A guerra como forma (heróica) de suicídio altruista

Quem terá sido o 'grafiteiro'
(avant la lettre...)
que escreveu:
"Em Mueda, os cordeiros que chegam, são lobos que saem" ?

É um pensamento que é válido
para todas as situações de guerra.
Os jovens, quase imberbes,
os meninos de sua mãe
(como escreveu o grande Pessoa),
que chegam à frente de batalha,
ainda são cordeiros,
inocentes,
virgens,
imaculados...
O horror e a violência da guerra
irão transformá-los em lobos,
em duros,
em violentos,
em conspurcados...
Não necessariamente predadores,
assassinos,
criminosos...
(que é o estereótipo
que o ser humano ainda guarda
do pobre do lobo mau!)...

Mas há, seguramente, uma perda de inocência:
nenhum de nós foi para a Guiné
e veio de lá impunemente,
igual...
Os nossos amigos e familiares deram conta disso:
já não éramos os mesmos,
nunca mais fomos os mesmos...

Acho que é isto
que o inspirado autor do mural de Mueda quis dizer.
É claro que há também aqui
a dose habitual de bravata e de fanfarronice:
é uma frase para intimidar
os 'checas', os 'piras', os 'maçaricos', os novatos...

Também os militares, profissão de risco,
têm a sua ideologia defensiva,
as suas crenças,
os seus talismãs,
os seus mesinhos
(usavam-nos os guerrilheiros
na Guiné,
em Angola,
em Moçambique,
não obstante a sua 'formação' racionalista,
marxista-leninista,
dita revolucionária)...
A bravata e a fanfarronice,
além das praxes e do álcool,
ajudavam-nos, a todos nós,
a lidar com o medo,
as situações-limite,
a morte,
o sofrimento, físico e moral,
a impotência,
o desespero…

Não há, nunca houve,
super-homens,
super-heróis:
há apenas deuses,
que inventámos, à nossa imagem e semelhança,
e para quem transferimos qualidades e defeitos humanos...
Que inventamos todos os dias…
Precisamos dos mitos,
das lendas,
da efabulação,
do pensamento mágico,
mesmo sob a roupagem (enganadora) da ciência e da tecnologia.

Daniel Roxo deve funcionar,
para os nostálgicos do paraíso perdido do 'apartheid'
(Moçambique, Rodésia, África do Sul...),
como o Che Guevara
que (ainda) funciona como um ícone,
tanto para os jovens sem ideologia de hoje,
como para os ‘cotas’,
os seus pais e tios,
os velhos revolucionários românticos
que queriam, nos anos 60 e 70,
incendiar o mundo,
criando um, dois, três, muitos Vietnames!...

Há homens que são incapazes de deixar de combater...
Mesmo, no limiar da decadência física,
a adrenalina da guerra é mais forte que a razão...
É um pulsão muito forte.
O que terá levado este e outros compatriotas nossos
a alistar-se nas forças especiais do regime racista da África do Sul
e a morrer em Angola por uma pátria que não era a sua ?
Poderei perguntar o mesmo pelos cubanos
que morreram em Angola (mas também na Guiné).
Dir-me-ão que lutavam por um mundo em que acreditavam,
por uma bandeira,
por uma causa que era a sua razão de vida...
Sou céptico:
o ser humano é motivacionalmente muito complexo
e manipulável
e moldável…
Creio que a guerra também poder viciante,
havendo homens que nela entram
e dela nunca mais saem...
A guerra pode ser uma forma (heróica) de suicídio...
altruista.

_________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:

6 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1928: Estórias de vida (3): Sérgio Neves, meu irmão: em Moçambique, o Mercenário, amigo do lendário Daniel Roxo (Tino Neves)

7 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1933: Questões politicamente (in)correctas (30): os cordeiros e os lobos de Mueda ou a adrenalina da guerra (Luís Graça)

6 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2032: Estórias de vida (4): Ainda sobre o meu irmão, o Srgt Mil Sérgio Neves, que foi amigo em Moçambique de Daniel Roxo (Tino Neves)

24 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2127: Estórias de vida (5): Sérgio Neves, meu irmão, um homem bom (Tino Neves)

sexta-feira, abril 10, 2009

Blogantologia(s) II - (77): Para a Teresa, ao Km 60 da viagem da sua vida...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > A tradicional bola de carne da Páscoa...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Um quadro oferecido pela Joana Graça...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Uma nota aristocrática numa das belas casas brazonadas do centro da cidade de Macedo de Cavaleiros...


Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O regresso às origens, às velas casas de xisto (em Vale de Prados)...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas (aqui conversando com os seus amigos e convidados)...


Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Uma caixinha (neste caso, cesto) de surpresas...


Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Da esquerda para a direita: a Teresa, a Fernanda Rodrigues, professora universitária, e a Inês, filha da Teresa e do João (já falecido), doutoranda em Barcelona...


Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Um momento musical (que durou até às tantas): da esquerda para a direita, a Alice, o Manul Salselas e a Inês...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > Da esquerda para a direita, Laura, Bonina e Teresa...

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O David, a Ana Salselas (médica, interna de hematologia no Hospital e São João) e a Teresa..

Macedo de Cavaleiros > Vale de Prados > 10 de Abril de 2009 > Festa dos 60 anos da Teresa Salselas > O Daniel, neto dos agricultores que são vizinhos e amigos da Teresa (que vive no Porto)...


P’ra Teresa, ao quilómetro 60 da viagem da sua vida…

Queremos que saibas
que é, para nós, um privilégio
o teu nome figurar na lista
das nossas amigas… favoritas.

De: Alice, Luís, Joana e Laura



Refrão

Aqui estão estes romeiros,
Prontos para a tua festa,
Que em Macedo de Cavaleiros,
Não há amiga como esta.


Uns mouros, outros morcões,
Com mais jeito ou menos jeito,
Mas pr’as grandes ocasiões,
Todos amigos do peito.

Sessenta anos de doçura,
Em Vale Prados nascida,
És um poço de ternura,
És a nossa Teresa querida.

Mais que amiga, és irmã,
- diz a Alice, mui certeira -,
Oráculo, talismã,
Uma leal conselheira.


Refrão

Aqui estão estes romeiros,
Prontos para a tua festa,
Que em Macedo de Cavaleiros,
Não há amiga como esta.



És da Rua da Alegria,
Que já foi a da Tristeza,
Diz a Laura, nada tia,
P’ra sua vizinha Teresa.

Admiro a profissional,
Exemplo de competência,
No Serviço Social
É p’ra nós uma referência.

Intuitiva e transgressora,
Explorando outros caminhos,
És de ti sempre senhora,
Mesmo quando nos dás miminhos.

Refrão

Aqui estão estes romeiros,
Prontos para a tua festa,
Que em Macedo de Cavaleiros,
Não há amiga como esta.



E o que diz a Joaninha,
Artista, coach, ‘voa-voa’ ?
- É só mimos, Teresinha,
Quando você vai a Lisboa.

Há bruxas, duendes e fadas,
Quando conversas co’ a gente,
Deixas na alma dedadas,
E o teu toque a gente sente.

Faço versos para elas,
E ‘pra eles, por que não ?
Mas pr’a Teresa Salselas,
…Só um poema-coração!

Sessenta é sabedoria,
Marca de serenidade,
Título de poesia,
Prova de felicidade.

Refrão

Aqui estão estes romeiros,
Prontos para a tua festa,
Que em Macedo de Cavaleiros,
Não há amiga como esta.


Macedo de Cavaleiros,
Vale de Prados,
10 de Abril de 2009

domingo, março 15, 2009

Blogantologia(s) II - (76): Beware of pickpockets!



Foto: Luís Graça (2009). Direitos reservados


Beware of Pickpockets


No metro de Lisboa,
Colina acima,
Rua abaixo,
A vida underground.
Stop.
A economia subterrânea.
Stop.
A morte na alma.
Stop.
A ponte suspensa
Sobre as nossas cabeças.
Ponto.
Sinais do telégrafo
Que morrem, à toa,
À tona de água,
No estuário do Tejo.

Beware of pickpockets,
Cuidado com os carteiristas!,
Que isto é um assalto
À caixa
De Pandora.
Multibanco.
Ruas de ouro e prata
Do Novo Mundo
Que houvera de chegar.

Compro castanhas,
Quentes e boas,
Em Lisboa,
Numa manhã melancólica
De Outono.
Enquanto a vida segue
Pelas ruas, sujas,
Da amargura.

domingo, dezembro 07, 2008

Blogantologia(s) II - (75): MSN para os amigos em viagem

O entardecer na Praia da Areia Branca.

Foto e legenda: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.


Na Ponta de Sagres
Onde o mar acaba
E tu, poeta,
E tu, arquitecto,
Riscas o sonho
E desenhas a autoestrada
Da liberdade,
Pode não haver sol,
Mas há o farol
Da amizade.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Blogantologia(s) II - (74): Contos do barqueiro de Caronte


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  O Rio Geba, entre o Xime (margem esquerda) e o Enxalé (margem direita), numa foto de Carlos Marques dos Santos (, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70).

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Direitos reservados


No Geba Estreito 
ou os doze contos do barqueiro de Caronte (*)


1.

Um homem passa o rio, a nado.
Um homem atravessa a ponte sobre o rio.
Um homem cai ao rio, baleado.
Há uma piroga, no tarrafo. metralhada.
E flamingos brancos, tingidos de vermelho.

2.

Um homem pensa na jigajoga da vida e da morte.
Um homem olha-se ao espelho.
Um homem porfia, e nem sempre alcança.
Um homem tem uma crise, de confiança.
Um homem do norte camba o rio.
A sul. A vau.
O Geba Estreito.
Que a última coisa a perder é a esperança.

3.

Um homem desenha uma ponte, imaginária,
entre dois pontos de cambança.
Um homem põe-se a pau,
a caminho do Mato Cão.
O inferno em frente,
o rio serpente, a bolanha de Finete,
um very-light, um foguete.

4.

E Lisboa ali tão longe...
tão azul, tão gregária.
Lisboa, o cais de Alcântara,
uma multidão de pontos negros.
Outra ponte, outro rio.
Saudades a mais, um nó na garganta.

5.

Um homem do norte faz o corte epistemológico
dos pré-conceitos etnocêntricos.
Quem és tu, viajante ?
Quem és tu, barqueiro ?

6.

O homem é o mal escatológico
que atravessa o céu de bronze.
O homem é o jagudi em voos concêntricos.
O homem é a hiena que ri.
O ferreiro, de outrora, hoje o dari.
O homem é o pássaro-bombardeiro.
O animal alado.
O helicanhão.
O falo de fogo.
O obus catorze.
O RPG Sete.
O Katiusha.

7.

Um homem é apanhado pelo macaréu da história.
Como um cão,  sem glória.
E na bolanha de Finete descobre 
que não há ponte nem salvação,
que há terra e céu, mas não há elo de ligação.

8.

Um homem perde a memória,
ao afundar-se no tarrafo do Geba.
Um homem chama o barqueiro da outra margem.
Em vão.
O barqueiro faz contas à vida
que custa manga de patacão.
E ao progresso que não chega,
ao motor de explosão,
ao motor da Yamaha,
à explosão dos cinco sentidos,
aos Strela, aos Katiusha,
à liberdade de circulação.

9.

Um homem passa a ponte,
a passo, a peso pluma.
A ponte armadilhada.
O barqueiro conta um conto em cada viagem.
O barqueiro de Caronte.
Um peso, irmão.
Um bilhete de ida sem regresso.

10.

Um homem exorta o soldado
a que leve a guerra a peito.
É o capitão, medalhado,
que nunca irá chegar a oficial general.
O fantasma do capitão-diabo,
vagueando pelo Cuor.
Estatuado, na capital.

11.

Vais no Bissau,
num barco à vela,
no barco da Gouveia.
Aproveitas a maré-cheia
e o cacimbo sobre Ponta Varela.

12.

O milícia, número tal, vai morrer, exangue,
como a última estrela da manhã.
E tu espreitas o rio,
da tua torre de Babel.
Um terceiro homem pára,
no semáforo.
Vermelho. De sangue.
A caminho de Madina/Belel.

Versáo revista, 19/5/2023

___________


Nota de L.G.:

(*) Originalmente publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 10 de Novembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3431: O Tigre Vadio, o novo livro do Beja Santos (3): Um homem da palavra e da acção (Luís Graça)

quinta-feira, outubro 30, 2008

Blogantologia(s) II - (73): A filha de putice da vida



Lourinhã > Praia deVale de Frades > 8 de Junho de 2007 > A capacidade de adaptação e de sobrevivência dos moluscos.

Lisboa, Benfica > Grafito > 13 de Setembro de 2007 > Alguém um dia escreveu ao Alberto de Lacerda (que morreu há tempos, pobre, só e longe da pátria, como tantos outros poetas portugueses): "Merda, merda purra, para o Alberto de Lacerda com ternura"... Outro poeta, anónimo, anarquista, foi apanhado no Bairro Alto a degradar, ainda mais, com os seus grafitos, o depauperado património edificado da cidade... A prova material do crime ficou lá registada na parede: "Se a merda valesse ouro, os pobres nasceriam sem cu"...

Fotos: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.


Ao Zé António que faz hoje anos e a quem a vida tem dado tantas coisas boas, que ele bem merece, mas que também às vezes lhe prega as suas partidas... LG


A vida prega-nos muitas partidas,
Umas boas e até divertidas,
Outras duras, puras e duras,
E muitas vezes injustas.

A vida paga-se caro,
Com língua de palmo,
Com cabeça, tronco e membros,
Includindo as custas
Do processo,
Diz o salmo,
Devidas pelo continuum do nascer ao morrer.

A vida está pela hora da morte,
Mas não vale a pena
Pedir-lhe contas,
Que ela, a vida,
É uma viagem sem regresso
E está-se nas tintas
Para os viajantes,
Os inocentes,
Os videntes,
Os loucos,
Os sem abrigo,
Os doentes,
Os portadores de chagas & apostemas,~
Os doentes de dor de dentes,
Os poetas,
Os arquitectos de sistemas,
Os incautos,
Os imprevidentes,
Os que não fizeram seguro de viagem,
Os tontos e as tontas,
Como nós.

A vida é uma gaiata,
Da caravana do Faroeste,
Caprichosa,
Leviana,
De mini-saia,
Perna ao léu,
Muita lábia,
Pouco siso,
Licenciosa,
Pobretana,
A tentar impingir-te
O elixir da eterna juventude.

Outros, mais avisados e sizudos,
Sortudos,
Barrigudos,
Dir-te-ão, my friend,
Que só temos o que merecemos
Ou o que conquistámos
.

A vida é uma roleta russa,
A vida sorri-te, com meia cara,
E tu sorris à vida, alarve,
Como um sorriso amarelo,
De orelha a orelha.

A vida é um jogo de sorte e azar,
Um carrocel,
Uma escada de caracol,
Uma bolha de ar,
Um bordel,
Um brevíssimo orgasmo em si bemol.

A vida é uma puta
Ou é a nossa vida que é uma puta de vida!

... Mas um lutador,
Um ganhador, como tu,
Não vai atirar a toalha ao chão
Aos primeiros desaires,
Às primeiras filhas de putice da vida!

quarta-feira, setembro 24, 2008

Blogantologia(s) (II) - (72) Nasceu e morreu um pretinho da Guiné



Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > 2 de Março de 2008 > Uma jovem, da região, que estava grávida, e que tinha o marido em Bissau. Caíu nas boas graças das nossas senhoras, sempre muito maternais: a Júlia, a Alice, a Isabel... Cadi era o seu nome. Vivia em Farim do Cantanhez. Esteve recentemente às portas da morte. E perdeu o seu primeiro e único filho, o Nuninho, de 4 meses. Por paludismo. Por abandono. Por falta de tudo (ou quase tudo). Por falta de cuidados de saúde (primários e secundários). Por falência dos serviços públicos de saúde. Por falta de médicos que vêm estudar para Portugal e não voltam.... Por ser guineense, por ter nascido num dos piores países do mundo no que diz respeito a indicadores de saúde materno-infantil... "Que raiva, que mundo, que desgraça de país" - é a primeira reacção que nos ocorre, a nós, que estamos num país que tem um dos baixos indicadores de mortalidade infantil do mundo... Sofremos, e muito, com estas notícias tristes que nos chegam da nossa querida Guiné... e que nos envergonham a todos (LG).

Foto: ©
Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados..

(…) “Segundo os dados da UNICEF, em cada mil crianças nascidas na Guiné-Bissau, 233 morrem antes de completar os cinco anos de idade, das quais mais de metade (138) não chegam a fazer o primeiro aniversário”. (…) (Dos jornais)

Nasceu e morreu um pretinho da Guiné (*)


Cadi, de seu nome.
Amorosa,
uma ternura,
uma jóia de miúda.
Tinha a graça de uma gazela
apascentando na orla da bolanha.
Era nalu,
vivia em Farim do Cantanhez.
Filha de um velho combatente da liberdade da pátria,
com direito a pensão
ao fim do mês.
Estava grávida de muitas luas.
Atrelou-se à Júlia e à Alice
em Iemberém,
no início de Março de 2008.
Com aquela candura, doçura, espanto e maravilhamento
das crianças africanas,
quando veem uma Mulher Grande, branca.

Homem estava em Bissau.
Todo o mundo vai p’ra Bissau,
onde é a escola da vadiagem e da malandragem.
Homem vai embora.
Diz que vai à lenha
e não mais volta.
Que o mundo é bem maior
e mais sedutor
e bem mais perigoso
que Farim do Cantanhez,
tabanca interior no interior.
E deixa Cadi com a barriga cheia.
Agora Cadi vai a Bissau
levantar a pensão do pai.
As duas novas mães, tugas,
dão-lhe dinheiro para a viagem.
Ficam amigas.
Prometem dar notícias,
de Lisboa, cidade grande,
chão dos tugas,
e mandar roupa para o menino ou menina.
Cadi bem gostaria que fosse menino,
para trabalhar na horta com ela.

Agora Menino já nasceu
e vai ter nome de padrinho, tuga,
lá longe, bem longe,
tão longe,
que é preciso tomar avião,
avião grande.
Nuno, Nuninho,
vai ser o nome do menino,
Por homenagem
ao senhor capitão-fula,
homem valente de Mejo e de Guileje,
Nuno Rubim, hoje coronel.
Todo o mundo está contente,
família está contente.
nalu está contente.
Agora que o Nhinte Camatchol proteja o menino
e a sua mãe Cadi.
e o avô, pensionista,
combatente da liberdade da pátria.
E o Estado guineense
que ainda paga pensão do avô.
Que a vida é a travessia de um rio,
cheio de rápidos e de armadilhas,
de crocodilos,
de diabos,
de irãs maus…
A vida corre, como a água do rio.
Vem tempo das chuvas,
vem mosquito,
vem insecto, aos milhões,
vem virús,
vem bactéria,
vem fungo,
vem nuvem negra,
vem HIV/Sida,
vem tempestade,
vem fome,
vem doença,
vem ave agoirenta,
vem a morte, aos quatro meses...
Por paludismo!

A dor quebra coração da gente.
Da Cadi. 
Da Júlia. 
Do Nuno.
O Nuninho morreu.
Dirão as estatísticas:
foi mais um dos duzentos
em cada mil
que não chega aos cinco anos.
A implacável estatística
da mortalidade infantil
na Guiné-Bissau:
138 por mil nados-vivos não sobrevivem
ao primeiro ano,
diz a OMS.
O que é tu podes fazer ?
No teu país, há um século atrás
também era assim...

A Alice não sabia,
não sabia das últimas notícias.
Hoje foi comprar roupinhas, lindas,
para o filho da Cadi.
Ao Colombo,
em Lisboa,
no chão dos tugas,
tabanca grande.
Telefona ao Pepito
para saber quando vai,
de regresso a casa,
em Bissau,
no Bairro do Quelelé,
para retomar o belíssimo trabalho da AD.
E se ainda tem espaço na mala,
ele ou a Isabel,
para arrumar uma roupa bonita p'ró menino.
Eu deve estar lindo
e robusto
e saudável.
Que em Iemberém, no Cantanhez,
os meninos não tinham barriga grande.
E eram lindos, robustos, saudáveis.
Telefona ao Nuno e à Júlia
para saber notícias da Cadi e do Nuninho.

Do outro lado da linha,
... o desalento, a tristeza, a desolação.
Alice, o Nuninho morreu, aos quatro meses!...
De paludismo.
Sem assistência médica.
Sem esperança.
Sem salvação.
Como um cão vadio,
que morre na beira da estrada,
no meio do capim,
na lixeira do bairro.
E a Cadi também esteve às portas da morte.
Por paludismo e desinteria.
O Nuno e a Júlia providenciaram, a tempo,
o recurso a uma clínica privada
em Bissau.
E a Cadi salvou-se.
Desta vez salvou-se.
Porque gente amiga e solidária
proporcionou os cuidados de saúde decentes
que o dinheiro pode comprar.
Cadi perdeu o seu menino,
espero que não tenha perdido
a fé e a esperança nos seres humanos,
mesmo naqueles
que assobiam para o lado,
enquanto as crianças da Guiné morrem
como os cães à beira da picada e do capim.
De paludismo.
De pneumonia.
De diarreia.
De má nutrição.
De Sida.
De abandono.
De indiferença.
De falta de médico
(Que não volta
e fica a ganhar bom dinheiro em Lisboa,
tabanca grande,
chão dos tugas).
E de falta de medicamentos.
E de meios de prevenção e tratamento.
E das coisas mais elementares e essenciais da vida,
como a água potável.
ou um mosquiteiro impregnado.

O Nuninho nasceu e logo morreu.
Um pretinho da Guiné nasceu para morrer.
Logo logo,
de paludismo,
que é a doença da vergonha dos ricos
e um dos inimigos mortais dos pobres,
nomeadamente em África.
O Nuninho não é, não devia ser
um número, mais um número
para as estatísticas, frias e cínicas,
do nosso descontentamento
e da nossa má conscência.
O Nuninho não era mais um pretinho da Guiné.
O Nuninho era um menino nalu,
filho da Cadi,
sem pai.
Ou com um mau pai, ausente,
que foi a lenha e não mais voltou.
E nesse dia, fatal, em que adoeceu,
sem a sorte do Nhinte Camatchol
a protegê-lo.

Hoje a morte em Bissau tem um rosto:
o do menino da Cadi.
E a ti, pobre gazela,
que direi ?
Coragem,
és nova,
a vida continua...
Não tenho palavras,
a não ser de circunstância,
para calar a tua dor...
E mesmo assim sei
que irás lutar para vingar a morte do Nuninho,
que irás lutar pela felicidade a que tens direito,
que irás herdar a coragem do teu velho pai,
que lutou por um país novo,
onde os meninos pudessem nascer e crescer,
lindos, livres, robustos e saudáveis.
Não tens outro jeito, Cadi,
não temos mesmo outro jeito,
os guineenses
e os amigos da Guiné.

Luís Graça

Setembro de 2008 (**)

(*) Dedicado à Júlia, à Alice e ao Nuno Rubim,
Que na semana de 1 a 7 de Março de 2008
se afeiçoaram à Cadi e ao seu futuro menino,
que só teve neste mundo
direito a uma curtíssima viagem de 4 meses.


(**) Revisto nesta data. Originalmente publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > 3 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3167: Ser solidário (19): Morreu o Nuninho, da Cadi. De paludismo. De abandono (Luís Graça).

quarta-feira, setembro 10, 2008

Blogantologia(s) II - (71): Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma a uma madrinha de guerra

Com o atraso de décadas, quiçá de séculos,
presto hoje o meu preito às mulheres portuguesas
que se vestiam de luto
enquanto os maridos ou noivos ou namorados ou irmãos
ou simplesmente amigos
andavam na guerra do ultramar,
Ou guerra colonial, como se queira.

Já foi há tanto tempo
que eu perdi as contas aos contos,
às estórias, às vidas, às lendas,às narrativas.

Venço, por fim, a minha relutância,
o meu preconceito, o meu medo do irracional
e porventura o meu medo visceral do sagrado,
e presto a minha homenagem
às mulheres que rastejavam no chão de Fátima,
implorando à Virgem o regresso dos seus filhos,
sãos e salvos.
Só as mulheres, em bando, são capazes
de implorar a piedade dos deuses
e ao mesmo aplacar a sua ira,
para logo a seguir imprecar contra eles,
se for caso disso.

Decididamente, sem pejo nem pudor,
presto a minha homenagem
às mulheres que continuavam,
silenciosas e inquietas,
ao lado dos homens
nos campos, nas fábricas e nos escritórios.

Por que havia um silêncio
que não era cumplicidade,
que não era traição,
que era inquietação,
que não era claudicação,
que era a raiva a crescer dentro do peito,
que era porventura já a emergência, a explosão
da revolta e da liberdade.

Descubro a cabeça,
tiro o chapéu,
ajoelho-me,
perante estas mulheres do meu país
que ficavam em casa,
rezando o terço à noite,
como a minha mãe e as minhas manas
e até o meu pai,
a quem, de resto, nunca agradeci este gesto de amor.
Nem em público nem em privado.
Nunca saberia, porventura, merecê-lo
nem muito menos agradecê-lo.

Mas também endosso
as minhas palavras de admiração
às que aguardavam com angústia,
pelo aerograma, na hora matinal (e às vezes mortal),
do correio,
vindo do SPM número tal.
Sem esquecer as que, muito poucas,
subscreviam abaixo-assinados
contra o regime e contra a guerra.
Às que, muito poucas,
escreviam, liam, tiravam a stencil e distribuíam
comunicados e folhetos clandestinos.

Às que, também raras,
sintonizavam altas horas da madrugada
as vozes da rádio que vinham de longe
e que falavam de resistência
em tempo de solidão e de servidão.

Homenageio, sim, àquelas que, muitas,
tiravam carinhosamente
do fumeiro (e da barriga)
as chouriças
e os salpicões
e os nacos de presunto
e as morcelas
e as alheiras
que iriam levar até junto dos seus filhos,
homens-toupeiras,
no outro lado do mundo,
no calor dos trópicos
e na humidade dos abrigos,
um pouco do amor de mãe,
das saudades da terra,
dos cheiros da casa e dos animais,
dos sabores da comida,
e da alegria da festa.

Mas também, e por que não, às, muitas,
e em geral adolescentes, virgens,
e às jovens solteiras, namoradeiras,
que se correspondiam com os soldados
mobilizados para o ultramar,
na qualidade de madrinhas de guerra.

Não tive, nunca quis ter, madrinha de guerra,
por preconceito, por orgulho e preconceito,
por achar que era uma instituição ou criação
do Estado Novo,
dos senhores da guerra,
e das senhoras que os geravam…

Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma
a uma madrinha de guerra.


Lisboa, 1981/2008

segunda-feira, setembro 01, 2008

Blogantologia(s) II - (70): Deixa que os que gostam de ti, te apapariquem




Lourinhã > Praia da Areia Branca > Agosto de 2008 > Surfistas ao sol...

Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados



Aforismos de Agosto
(a pensar em ti)


Agosto é vento,
É areia,
É sal,
Contra as pálpebras dos marinheiros
Que morreram nos teus sonhos.
Nunca deixes morrer os sonhos.
Os teus sonhos.
Nem os marinheiros de olhos azuis
E cabelos louros ao vento
Que subiam os mastros dos navios
Do teu museu do mar, imaginário.

Tu que vieste com o vento norte,
Ganhas novo fôlego e alento
E outra leveza
Ao perfazeres os dez mil passos
Diários, matinais, no areal.
Para que o corpo não crie raízes.
E a gente possa desfrutar a beleza
Da enseada de Paimogo.

O melhor de Agosto
São as esplanadas
Das pequenas terras de Portugal,
À beira mar.
Tão cheias de nadas,
Tão saloias,
Tão pimbas,
Tão belas.
Conheci-te numa delas.

Agosto são os escorpiões tatuados
Nos corpos
Das petites filles portugaises
Que voltam à terra dos avós.
Agosto são as alegrias e as vertigens
Do regresso.
Porque voltamos sempre às origens.

Os únicos que têm de vencer
São os surfistas.
Vencer a onda,
O vento,
A areia,
O sal.
Não temos que destruir para vencer.

Agosto é também
O puro desejo da mãe
Pelo filho incestuoso.
Lânguidas mamãs,
De mamas flácidas.
São focas estiradas ao sol.
São focas.
São fofas.
Como é bom ser mamã,
E foca
E fofa
E babada.

O melhor de Agosto
É teres o dia todo
Por tua conta,
O dia, a semana, o mês.
Os dias úteis do mês.

Mas o melhor de Agosto é o teu dia.
Dezoito.
E estamos cá todos,
A apaparicar-te...
Deixa que os que gostam de ti,
Te apapariquem.

Lourinhã,
Rua da Misericórdia,
18 de Agosto de 2008.

Blogantologia(s) II - (69): O fim da notícia, ou nem sequer isso

O fim da notícia, ou nem sequer isso

Pedimos desculpa,
Mas hoje não há notícias…
Um dia gostaria de acordar sem notícias.
Sem televisão.
Sem jornais.
Sem Internet.
Sem o ruído das ondas hertzianas.
Sem mensagens.
Sem mensageiros.
Sem imagens
Nem palavras.
Nem sequer as duas últimas palavras
Do locutor de serviço a pedir desculpa
Por não haver notícias.

Um dia gostaria de acordar
Com a notícia do fim da notícia.
Ou nem sequer isso.
A notícia do fim do circo mediático.
Ou nem sequer isso.
Gostaria de acordar
Só com o buraco negro do ecrã
À minha frente
A milhões de anos-luz
No meu telescópio.
Um dia gostaria de acordar
No mais absoluto silêncio.
Nem ouvir sequer o ruído
Do vaivém das ondas do mar.
Ou nem sequer isso.
Um dia não gostaria sequer
de acordar.

Vimeiro, Lourinhã, 21 de Agosto de 2008, Bicentenário da Batalha do Vimeiro (1808-2008)

Blogantologia(s) II - (68): Gracias à la (mo)vida

A vida é la movida.
É Sagres.
É Boémia.
E choco frito.
Tudo o que a gente gosta.
Uma esplanada à beira-mar.
O sol.
A maresia.
A boa vida.
A sorna.
O fado.
A morna.
O dolce far niente.
Com a gente de quem se gosta.
Muito, pouco ou nada.
Mais a Nossa Senhora dos Milagres
Que te acode,
Quando aflito.
Enquanto a maré sobe.
E a noite espreita.
E a morte não pré-avisa.

Olha a moreia da costa,
Que é a melhor do mundo.
A vida é pregão.
A vida é merda.
A vida é Sagres, é Boémia.
A vida é hipoglissémia.
A vida é adrenalina.
A vida é prego a fundo.
A vida é stresse.

Sexta-feira à tarde,
Ao fim da tarde,
Uma hora antes do pôr do sol.
A vida é festa.
La fiesta, amigo.
Vengo de la altiva Castilla.

No TGVê espanhol
Que não paga imposto
único
de circulação.
Que o futuro não paga imposto,
Nuestro hermano.
Pressupuesto, amigo.
Que viva la siesta!
Que viva la vida!


Mas agora que vem aí a crise,
Como é que eu chego à ponta mais
acidental
Da Europa ?
Para comer o meu choco frito,
No bar da Peralta,
A las cinco de la tarde.
Com navios negreiros,
Fantasmagóricos,
Na linha do horizonte,
A quinze milhas.
Com os jacobinos do Junot
Na película da memória.
O Vimeiro aqui tão perto.
Com autos de fé,
Mouros, judeus, corsários,
No meu ADN de português
Sem história,
Maçarico, maltrapilho, errante.
No mar onde naufragam
Todas as boas consciências
E se afinam as ciências,
As ditas duras mais as ditas moles.

Um homem sorri com meia-cara
O sorriso amarelo do cinismo.
Aqui,
No cabo da terra,
Onde se proclama a ditadura do sucesso.
E do novo riquismo.
Com o isco
Da vã glória de ganhar
A medalha olímpica.
A vida eterna.
O Nobel.
Um lugar no paraíso.
O Olimpo,
Condomínio fechado dos deuses.
Que dos perdedores não reza a História.

A vida é la movida
No Peralta Bar,
Que não vem na lista do Expresso
Da Coma, Mesa & Roupa Lavada.
Haja lugar à mesa,
comprida,
e valha-nos Baco, velho compincha.
Viva o Portugal do petisco!
Viva o mês de Agosto!

Deixei os meus velhos
Institucionalizados
Nacionalizados
Alegaliados
Sedados
Securizados
Acorrentados
À árvore do Welfare State.
Na Atalaia,
A caminho do Porto das Barcas.
Ficaram aos cuidados de uma ucraniana
Que era enfermeira na sua terra,
E da santa padroeira
dos pescadores,
A Nossa Senhora da Guia.
Que há sempre uma santa para todas as aflições,
Das dores do parto
À agonia da morte.
Que às vezes, mais vale a morte
Que tal sorte.

Tenho insónias às cinco da manhã,
Mesmo sabendo que da janela
Do quarto dos meus velhos
Há uma linda vista para as Berlengas.
E que a associação é
Cultural,
Social,
Artística,
Desportiva
e Humanitária.

Minha mãe, minha avozinha,
Tens a graça até no nome,
Não é por seres mais velhinha
Que de amor passarás fome.


Passo pela loja do chinês,
Fugido de Tianamen,
E compro um prato
De Alcobaça, pintado à mão,
De contrafação.
Com quadras pimbas
Ao amor de mãe…

Brilhas como uma estrela,
No teu quarto, lá no lar,
Tens uma linda janela,
Com vista de céu e mar.


Quem disse que a vida é bela,
E que as mães é que dão cabo dela ?
Desligo o botão da televisão,
Puxo o reposteiro da janela
Donde vejo o mundo a cor de rosa,
Arrumo o cavalete
E as tintas do arco-íris.
E peço uma posta de moreia frita
E um copo de tinto.
É a hora da doce melancolia
E do leve sentimento de culpa
E da idiota reflexão sobre a idiossincrasia
De se ser velho, europeu e português,
Na ponta de uma navalha
Da economia
Da política
Da demografia
E da geografia.

Não escolhi nascer.
Não escolhi pai e mãe.
Não escolhi o pedaço de chão onde fui parido.
E não sei o que farei com este poema,
Que não vale um algoritmo
Nem um simples teorema.
E que não é de protesto
Nem é manifesto.
Entre a ciência da morte
E a fé da ressurreição,
Haverá sempre uma santa
Que me valha.
Ou uma azinheira ou uma carvalha
Onde possa pôr a uma santa aparecida
Que me salve da má consciência
De la movida.

Lourinhã, Praia da Peralta, Agosto de 2008

Blogantologia(s) II - (67): Se tens galinha perdês, não a mates nem a dês

Se tens galinha perdês, não a mates nem a dês

Como era simples a vida da camponesa
Que ia ao monte buscar lenha
No carro de bois.
Ou que, de saco à cabeça,
Ia levar o grão de centeio
À azenha.
E que abria as pernas, depois,
Ao seu homem e seu amo,
No meio do campo de milho.

Que quadro,
Que pintura,
Que beleza,
Tardo-naturalística,
O desta humilde portuguesa,
Sem rosto,
Sem nome,
Sem registo,
Sem trilho.
Sem a mística
Nem a estética do Movimento Nacional Feminino.
Porra e lenha,
É quanto a venha
.

Como era simples e brutal
A vida da mulher do campo
No tempo em que ainda havia
A distinção socioantropológica
Entre a cidade e o campo.
E havia o carro de bois,
E a maçã, biológica,
E o império colonial,
E a costeleta de Adão
E as criadas de lavoura eram violadas
Em cima da meda da palha de centeio.
Enquanto os bois gemiam
E as rodas do carro chiavam
E o abade pregava:
Freiras e frieiras
É coçá-las e deixá-las
.

Como eram imutáveis as leis
Que regiam as relações
Entre machos e fêmeas,
Entre fidalgos e rendeiros,
Entre donzelas e donzéis,
Entre soldados e capitães,
Entre ricos e pobres
Entre operários e patrões.
E cada um tomava o seu lugar
No desconcerto das nações
Ou no palco do teatro da vida e da morte.
Se queres conhecer o vilão
Mete-lhe o mando na mão.


Como era estupidamente alegre
A infância, breve,
No tempo em que a sardinha
Era para três.
E sobreviva o mais forte.
E o galo cantava
Para a galinha perdês.
E a vida fiava-se e tecia-se
Linha a linha.

Como era curta a vida,
A esperança de vida,
E certa, tão certa, a morte.
Muita saúde, pouca vida,
Porque Deus não da(va) tudo.

Ou noutra variante, feminista:
Se tens galinha perdês,
Não a mates nem a dês.

domingo, abril 06, 2008

Blogantologia(s) II - (66): O Parque dos Poetas do Isaltino

Cartaz do Parque dos Poetas

© Luís Graça (2005)


Originalmente publicado, no Blogue-Fora-Nada, como post de 3 Julho de 2005 > Blogantologia(s) - XXVII: O Parque dos Poetas .
Revisto, hoje, para poder ser dedicado à minha Joana, que faz 30 anos. E a quem há 14 anos atrás, eu escrevi a seguinte máxima singela, típica de um poeta de encomenda(s):

"a felicidade,
(...) se não me engano,
é também isso
de seres tu a construir
a tua própria vida
com e através dos outros
e às vezes contra os outros".


Parque dos Poetas do Isaltino

Poeta é quem tem
Uma estátua do Simões
No Parque dos Poetas
Mas também
As contas em dia
Nos Serviços Municipalizados
De Águas e Saneamento
De Oeiras.

Poeta não é
O Bocage, émulo de Camões
Que não tinha maneiras,
E, pior que tudo,
Dizia asneiras:
- Porra, atchiiim!
- Ai, tia, que ordinário,
Esse Ary.
Ah!, o Zé Carlos,
O Ary dos Santos,
O planfletário,
O pseudo-revolucionário,
O bardo
Do botequim!

Ser poeta não é
Ter os colhões...
In su situ
Como o Mário,
O Cesariny,
Que não quis, o parvo,
Ganhar o euromilhões
E entrar para a história
Da literatura do imobiliário.

Entrada para o Panteão Municipal de Oeiras

© Luís Graça (2005)










Em questões de género,
Aplique-se, entretanto,
O camartelo
Camarário,
Perdão, o regulamento municipal
Em forma de soneto,
Que manda atribuir quotas
Às senhoras:
- São cotas, senhoras, são cotas!
Para o caso são três, não mais,
Que foi a conta que Deus fez:
Natália, Sophia, Florbela.

- Mas que raio de país é este,
Em que a poesia é coisa de homens! -
Grita o almoxarife dos SMAS.
As senhoras, meu Deus,
Ficam sempre bem
Nas quermesses da cidade,
Nos jogos florais,
Nos bazares da caridade,
Nas feiras e mercados,
Na vida e na tela,
Nas telenovelas,
Nos lavadouros públicos,
Na vida-de-faz-de-conta,
No passeio das virtudes,
Na despedida dos soldados,
Na partida das caravelas para a Índia,
Nos funerais
E nas procissões.
Nos comícios.
Nas comixões.

Um século atrás
As nossas queridas poetisas
Teriam ficado à porta do parque,
Com botinha de pé alto
E saias de entrefolhos,
Com cliché tirado pelo Joshua Benoliel,
Capa na Ilustração Portuguesa,
E legenda a condizer:
"Não ficam bem as senhoras
Que se metem a doutoras".


Salvou a Natália
A honra do gineceu,
Ao trocar a poesia por comida
Que sempre enche a barriga:
"Senhores autarcas, sois a cidade,
E eu a cereja no cimo do bolo serei,
Não há pólis sem o parque
Dos sonhos que vos roubei".

Dantes os poetas, os machos,
De bigode farfalhudo
Ou de pálidas cores andróginas,
Íam para o Olimpo,
Laureados,
Ou para o Aljube,
Agrilhoados,
Ou para o Manicómio
Do Rilhafolhes,
Ferrados e dopados,
Ou para o Tarrafal,
Exilados,
Ou para o Sanatório,
Tuberculizados.
Para a Ilha da Madeira,
Os mais afortunados.
Ou para a Morgue,
Congelados,
Ou até para o Panteão Nacional,
Nacionalizados.
Conforme as vagas que houvesse
E o equilíbrio dos quatro humores
Do Senhor Intendente Geral.
Só a Sophia pediu para voltar:
Para passar os dias que não viveu
...Junto do mar.

Hoje o poeta,
Meus senhores,
Não sonha nem dorme
Nos bancos de jardim,
Ocupados pelos sem abrigo,
Os desistentes,
Os repetentes,
Ou como se diz agora
Os infoexcluídos...

Hoje o poeta vai directamente
Para o Parque,
De preferência já morto e cremado.
O Parque dos Poetas.
Das merendas.
Dos velhinhos
Que dão milho aos pombinhos.
Das criancinhas
Da escola, de bibe
Aos quadradinhos.
Dos desempregados
À espera do subsídio de
Desemprego
Ou do emprego virtual,
Do teletrabalho,
Da chamada do call centre,
E dos frutos da flexibilidade
Organizacional.
E a fazer contas
À puta da vida
Que está pela hora da morte.

Em vão, protestou
O Rosa,
O Ramos, o António,
Adjectivando a liberdade:
Mas que coisa horrorosa
Se ela não fosse liberdade... livre!

O Parque dos Poetas
E dos namorados,
Do arco e do balão
E das quadras
Ao Santo António,
Milagreiro,
Casamenteiro,
Brigão,
Brejeiro,
Fodilhão.

Porque a Poesia
Quando nasce não é
Para todos,
Terá já dito um estrangeirado,
O Conde de Oeiras
E futuro Marquês de Pombal
(Volta, Marquês, que estás perdoado!)
Aos eleitos e aos camareiros,
Atentos e venerandos,
Em soirée,
No seu paço,
Ali mesmo, junto à Marginal.

Homens de letras
Ou de cânones,
Os poetas lusitanos.
Míopes, nos seus fatos
Poídos e castanhos,
Cinzentões.
Só o Jorge Sena
Era engenheiro.
Naval. No papel.
Não consta que
Construisse ou reparasse
Embarcações.
O Torga, clínico.
O Régio, místico.
O O'Neil, publicitário,
E claro
O David Mourão-Ferreira,
Doutor de letras,
Universitário,
De capa e batina.
E o Pessoa, esse, coitado,
Era escriturário comercial.
Marçanos,
Cabouqueiros,
Coveiros,
Limpa-chaminés,
Cantoneiros de limpeza,
Calafates,
Estivadores,
Mineiros,
Calceteiros,
Picheleiros,
Almocreves,
Pescadores,
Barbeiros-sangradores,
Construtores civis
Ou outra gente
Dos ofícios mecânicos.
Nãoo há nenhum,
Que se saiba,
Que conste da lista imortal.
Dos poetas imortais
Do Parque do Isaltino.
Minto: há o Álvaro de Campos,
Guardador de rebanhos.
Mas esse não vi lá,
Porque é proibido pisar a relva
E pastar. E sonhar.
E sobretudo apascentar.
Guardador de rebanhos,
À porta da capital,
Parece mal,
Destoa.
Não dá,
Já não é para turista.
Não rima com coisa boa,
Não rima com Lisboa.
Não casa com a modernice
Da Oeiras futurista.

O poeta Manuel Alegre.

© Luís Graça (2005)



Nem o Alegre, o Manel,
Escapou, em vida,
Ao destino cruel
De ser transformado
Em réplica
Do homem de mármore.
Podiam ter-lhe posto,
Ao menos, numa mão, a pena,
E na outra a cana de pesca.
Há quem jure que é castigo
Para o ex-revolucionário
Da Praça da Canção,
Hoje homem de Estado,
Senador da República,
Bonacheirão,
Canastrão,
Arengando para a arraia-miúda do TagusPark:
"Em Nambuangongo, tu não viste nada!"...

Quem não viu nada,
Mas que riria
Até às lágrimas,
Se fosse vivo,
Seria
O caixa d'óculos do O'Neil,
Agora príncipe
Do Reino da Dinamarca.
Imagino-o,
De Ombro na Ombreira,
Polidor de esquinas,
Desnalgando as gajas,
Mesmo não sendo trolha
Da construção
Nem nunca tendo ido
Para o trabalho,
De lancheira na mão.
Ou de lancheira na mão
Para o trabalho,
Trocando a mão direita
E a esquerda,
A lancheira e a mão,
Subindo e descendo a Avenida
Da Liberdade
À espera talvez de uma outra vida,
Mais segura,
Ou da dita,
Que só era de nome,
Reza a história,
Por causa da Ditadura,
De má catadura,
De má memória.

Mas que pode a palavra, etérea,
De um poeta,
Surrealista, anarca,
Genial,
Mas mais que morto
E enterrado,
Contra a palavra, de pedra e cal,
De um senhor autarca,
No seu feudo, no seu horto, no seu olival?


Forbela Espanca (1894-1930)

© Luís Graça (2005)



Alguém roubou
Uma pérola do colar
Da Florbela,
Tão excessiva em vida
Como na morte.
Alguma ninfomaníaca
Da tribo gótica,
Algum admirador secreto,
Coleccionador,
Adolescente,
Voyeurista,
Turista,
Visionário,
Cleptómano,
Antiquário,
Violador,
Sexista,
Misógeno,
Detective,
Homem aranha.
Ou quiçá
Algum promotor
(I)mobiliário,
O próprio dono da obra,
O empreiteiro,
O engenheiro,
O trolha,
O arquitecto paisagista,
O ajudante do escultor,
O fiscal,
O fisco,
O contabilista,
A mulher da limpeza,
O guarda municipal,
Eu sei lá!,
O homem do lixo
Ou até o morto da guerra colonial.

Outro tonto, senil,
Septuagenário,
É o Herberto, o Helder,
Que recusa viver
Com qualidade de vida
No Lupanário
Da poesia.
Porque ser poeta, sortudo,
É ser maior, ser mais alto,
Viver no enésimo andar do pensamento
Com vista para o Tejo e tudo.



Camilo Pessanha (1867-1926)

© Luís Graça (2005)



Por mim, confesso,
Gostaria de ter sido
Um simples Conservador
Do Registo Predial
Como o Pessanha.
E de ter escrito,
Não a fria Clépsidra,
Mas o Caleidoscópio
Lusotropical

Em mangas de alpaca.

Gostaria de ser poeta-funcionário,
Da autarquia local,
Ou do ministério da eternidade,
Com cama, mesa e roupa lavada,
Uma tença, mesada ou salário,
E ajudas de custo para poder sonhar
E ter tempo e vagar.
Gostaria de ter feito (e dito)
Um soneto
A letra gótica,
À mão,
À moda antiga,
Com punhos de renda,
Em papel azul, selado.
E de ter tido tempo
Para fumar ópio.
Na época das monções,
Em Macau.
E de imaginar
O eclipse total
Do Império Colonial,
Como um baralho de cartas monumental,
A desmoronar-se,
Do Minho a Timor.
Gostaria ainda de ter sido l
Laureado
Pelo Prémio do SNI
Do António Ferro.

Gostaria sobretudo
De ter dactilografado,
Em Courier, fonte 12,
Sem o mais pequeno erro
Nem rasura,
O Sentimento de um Ocidental
E de o ter posto no meu currículo
Existencial:

"Nas nossas ruas, ao anoitecer
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer".

Em Lisboa
Nem poesia má nem prosa boa,
Mas prefiro aquele verso,
Mais rasca,
Mais proleta,
Mais canalha,
Que evoca os construtores da cidade,
Tão bravos quanto boçais,
Vistosos nos seus fatos-macacos,
E que engrossavam as estatísticas
Dos acidentes de trabalho
Mortais:
"Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros".

Oliveira do Alqueva in su situ

© Luís Graça (2005)

Poeta maior da nossa modernidade menor,
Cesário, o Verde,
Não alcançou o Século
Da energia nuclear.
Da viagem à lua.
Dos amanhãs que o outro galo cantaria.
Da Festa do Avante.
Do cimento armado.
Do motor de explosão.
Dos tsunamis revolucionários.
Das alegrias dos futebóis.
Do triunfo da ecologia
E da googlização.
Da bomba que brilhou
Mais do que mil sóis
Em Hiroshima, meu amor.
O Século dos chips
E do chispe de porco liofilizado.
Do Spínola, prussiano,
De monóculo e bengalim
Nas bolanhas da Guiné.
Da farsa da história.
Da caixinha que mudou o mundo.
E que mundo!,
Basta puxar o autoclismo
E fazer glu-glu,
Par ires parar aos buracos negros
Do admirável mundo virtual.
O Século, e que século!,
O dos vestidos de fru-fru.
Da aspirina e da farinha Amparo.
Da Lili e do Caneco.
Do Taylor e do Ford on the road.
Do terror de Tianannmen.
Da Nossa Senhora de Fátima de Felgueiras.
Do Luís Moita aos microfones da Emissora Nacional:
- Rapazes, não cantem o fado!
O século dos comícios da Fonte Luminosa
Ou do povão do garrafão
No Pontal do Portugal sacro-profano.
O século do Portugal de Salazar,
Prometendo eleições tão livres
Quanto a livre Inglaterra.
E do O'Neil e do Ruy Belo.
E do Millenium BCP.
O Portugal do maneta.
E o Portugal futuro.

Cesário não conheceu a Amália
Nem a Mariza desta Lisboa que eu amo.
Não conheceu o Sá,
Talvez só o Mário,
Não o Soares, mas o Carneiro
A fazer o pino.
Não figura por isso
No Parque do Isaltino.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Blogantologia(s) II - (65): Em dia de São Valentim

Vila Praia de Âncora > 4 de Fevereiro de 2008

Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados



Um dia vou ter pena de morrer,
Só por ti
E pelo azul da luz de Lisboa
Nas manhãs perfeitas de domingo.

Um dia vou ter pena de partir,
Não pelo que não vivi,
Mas só por que não namorei contigo
Nas horas e nas desoras
Dos dias em que o azul não era tão azul,
Nem os domingos tão domingos,
Tão perfeitos,
Como tu querias….

Ficarás na dúvida
Se eu afinal sempre era o teu príncipe
Desencantado,
E tu a minha chita,
Selvagem e pouco borralheira,
Em busca do azul perfeito dos domingos
À beira Tejo.

Fora eu transparente como o céu de Lisboa
Lúcido e translúcido,
Tão certo e previsível como o Domingo
Que é o Dia, perfeito, do Senhor,
E talvez tu nunca tivesses escutado
Os meus passos na rua estreita do teu bairro,
Nem sequer lido a letra do meu fado,
Ou estranhado a primeira e única carta
Que te escrevi.
De Amor.

O teu (e)terno namorado

Lisboa, Dia de São Valentim, 14 de Fevereiro de 2008

domingo, fevereiro 10, 2008

Blogantologia(s) II - (64): A triagem de Manchester ou o paciente português

Eurolândia > Portugal dos pequeninos > 2008 > Há sempre um português que (des)espera... no banco do jardim, na bicha do autocarro, no centro de emprego, no banco de urgência, na barra do tribunal, no manicómio, na rua, em casa, na escola, no trabalho, e até no canil...

Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.




Na sala de espera
do Banco de Urgência
há gente que desespera
com paciência.
Gente com paciência de santo
ou então pouco esperta.

Há gente que não conhece
a porta do cavalo
do hospital.
Sangrai-o e sangrai-o
e se morrer,
enterrai-o.

Mais logo,
eu estou de banco.
Apareça.
Ou então desapareça
da lista dos vivos.

Há um jovem casal
de apaixonados,
just married,
ela de fita amarela,
no pulso,
lívida, branca, exangue,
no banco do hospital.

Há dois negros que dormitam
e que devem sofrer de paludismo.
Estão ali há horas.
Podiam vir dos arrozais do Sado,
há décadas atrás,
tremendo de sezonismo.
Mas... mal por mal,
antes cadeia que hospital

e antes justiça que misericórdia.

Há um casal de paquistaneses
ou de indianos.
Muçulmanos.
Ele é o paciente,
de fita vermelha ou laranja,
que o sistema de Manchester
é quem mais ordena
e não olha à cor da pele.

Racista, eu,
sra. enfermeira ?
Até tenho um amigo preto
da Guiné.
Trabalha, no gosse gosse,
no estaleiro do subempreiteiro,
que não é nenhum mal essa tosse,
é do catarro,
é do tabaco,
é do tempo.

Há velhos.
Muitos.
Em saldo.
Doentes de solidão, abandono, exaustão.
Doentes de Alzheimer, Parkinson, fim de estação.

Chegam ambulâncias.
De Almoçageme, Alcáçovas, Alcácer, Almargem...
Da outra margem.
Tristes lugares ao sul.
Tentativa de suicídio,
diz o bombeiro para o securitas,
e a chusma de voyeuristas
e de tabagistas
que estão lá fora,
ao frio da noite.
A velha quis matar-se com comprimidos.
A maluca tinha alguma necessidade de fazer isso,
pergunta, resignada, a nora.

Alentejanos, ciganos,
mouros, morcões,
jovens de brinquinho,
colarinhos brancos e azuis,
activos e não activos,
pescadores, traficantes,
toxicodependentes,
mães solteiras,
domésticas em robe de dormir,
famílias monoparentais,
doentes pré-terminais...
E até um um cão, um canito,
magricela,
a quem os pacientes dão bolachas.

Há um português emergente
em cada dez.
Vermelho.
Doente. Paciente. Dormente.
Pouco ou nada eloquente.
Diz o sistema de triagem de Manchester.
Há um português urgente
que vem na ambulância da emergência pré-hospitalar.
De um triste lugar ao sul.
Há um português laranja,
que fica em segundo lugar.
O resto não conta,
são amarelos,
fura-greves,
racha-sindicalistas,
proletas,
marretas,
hipocondríacos,
queixinhas,
maus contribuintes,
cidadãos de segunda,
gente que não presta,
gente de baba e ranho,
pouca honesta,
que fuma e que bebe e que come,
e não ouve o Pádua
a dizer que no andar é que está o ganho...

Que já não há o azul nem o verde
do meu país
na paleta das cores do gestor
dos doentes
e das doenças.
Que há fé e até caridade,
mas pouca esperança, Senhor.

É triste e feia e fria
a sala de espera da urgência
do hospital,
Senhora Ministra.