quarta-feira, maio 01, 2013

Oração fúnebre: Horácio Mateus (1950-2013)


Horácio,
querido amigo, 
grande lourinhanense, 
geálico nº 1… 

És o primeiro a partir,
nessa viagem solitária e sem retorno 
que todos teremos que fazer um dia. 
Só não sabemos quando nem em que lugar, 
só o velho barqueiro de Caronte 
é que tem a lista dos passageiros 
e os horários e os percursos da última viagem 
da terra dos vivos. 
Mas estamos tristes, 
infelizes, 
inconsolados, 
porque achamos que partiste cedo demais. 
Tinhas direito a realizar os teus sonhos. 
E alguns levaste-os contigo para sempre, 
sem os poderes partilhar connosco. 

Alguns desses sonhos realizaste-os
e deves ter orgulho neles; 
o grande amor da tua vida, 
a Isabel, 
os teus filhos, 
o Simão e o Octávio, 
que seguiram as tuas peugadas, 
a tua filha Marta,
o GEAL, o museu… 
Poucos são aqueles que são profetas 
na sua terra. 
Tu podes orgulhar-te de ter sido um deles. 
E um dia o Parque Jurássico 
pelo qual lutaste, 
há-de fazer jus 
ao teu nome, ao teu exemplo, à tua obra, à tua memória.

Sem a tua saudável loucura, 

tua, da Isabel, do Octávio, do Simão,
e de outros tantos geálicos, 

alguns presentes nesta hora 
em que viemos despedir-nos de ti, 
não haveria lugar a alguns dos sonhos bonitos 
que aconteceram na nossa terra, 
e que irão continuar a acontecer, 
sob a tua inspiração e proteção. 

Tu foste um exemplo de paixão pela vida, 

pela terra, 
pelos seres que o habitam ou habitaram, 
pelas artes e ofícios dos nossos antepassados, 
pelas pedras das suas casas, 
pelos muros dos seus caminhos, 
pelas árvores dos seus campos… 

Cultivaste a paixão
pela história, 
pela ciência, 
pela cultura, 
pelo património de todos nós. 

És também um exemplo de amor 

pela tua (e nossa) terra, Portugal e a Lourinhã, 
mesmo quando a tua terra 
nem sempre te compreendia, 
ou te reconhecia 
ou te amava, 
como devia, 
e como tu esperavas. 
Julgo que terá sido Fernando Pessoa a dizer 
que quando um português sonha, 
alto e bom som, 
há logo alguém que o acusa de estar 
fora de escala 
e de ser doido varrido...

Pois bem, tu tiveste o mérito
de nos desassossegar, 
desinquietar, 
e de  juntar alguns de nós, 
e pôr-nos a sonhar alto 
e a fazer coisas, 
com paixão, 
com inovação, 
com verdade, 
com rigor e credibilidade. 

E isso às vezes incomoda
os que se sentam na cadeira 
da inércia, da mediocridade, do comodismo, da inveja. 

Obrigado, Horácio,
pela tua saudável loucura, 
pela tua criatividade (muitas vezes imprevisível), 
pelo teu humor (às vezes inconveniente e corrosivo 
mas sempre inspirador), 
Obrigado pelas flores que soubeste cultivar 
no teu jardim do amor, da amizade e da convivialidade. 

Foste um homem bom,
um bom cristão 
como Cristo possivelmente gostaria 
que fosse um bom cristão, 
um ser humano que soube nesta terra 
praticar as obras de misericórdia 
que vêm no evangelho do teu homónino, 
São Mateus… 
Lembras-te ? Sete eram corporais: 
Remir os cativos e visitar os presos; 
curar os enfermos; 
cobrir os nus; 
dar de comer aos famintos; 
dar de beber a quem sede; 
dar de pousada aos pobres e aos peregrinos; 
e enterrar os mortos… 
Ou de dar um barco ao náufrago, 
como diz o livros dos mortos dos antigos egípcios… 

E as outras sete obras de misericórdia eram espirituais: 

ensinar os simples; 
dar bom conselho a quem o pede; 
castigar com caridade os que erram; 
consolar os tristes desconsolados; 
perdoar a quem nos errou; 
sofrer a injúrias com paciência; 
rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos. 

Na tua vida, tão rica e tão curta,
fizeste tudo isso, 
sem alarde,
sem pompa nem circunstância,
foste um homem misericordioso. 

Onde quer que estejas,
tens direito a estar em paz. 
Se existe o céu, será aí a tua morada. 
Nesta terra, 
que foi a tua terra da alegria, 
mas também às vezes uma das estações do inferno, 
serás sempre lembrado 
por aqueles que querem e podem honrar a tua memória. 

Quanto a nós,
vamos ter muitas saudades tuas. 
À boa maneira dos nossos antepassados romanos, 
dir-te-ei: Requiescat in pace. 

Descansa em paz, Horácio, 

Descansa finalmente em paz!

Lourinhã, Capela de Nossa Senhora dos Anjos, 30 de abril de 2013

sábado, janeiro 05, 2013

Vamos cantar as janeiras (5): Escola Nacional de Saúde Pública, 2012


As Janeiras da ENSP/UNL, 2012

Manda a nossa tradição
Que se cantem as janeiras,
Ao diretor que é o patrão,
Aos confrades e às confreiras.

Companheiras e companheiros,
Será mais apropriado,
São os que são lambareiros
E comem à mesa do Estado.

Confraria não é convento,
Nem diretor é abade,
Ele bem estica o orçamento,
E corta na eletricidade.

O nosso Robim dos Bosques
Tem que ser Zé do Telhado,
Valente, não dá de frosques,
Há-de ser condecorado.

Já cá falta quase tudo,
Nesta escola nacional,
Até o papel p’ró canudo
Do programa doutoral.

Falta a tinta p’ra impressora,
Falta a santa paciência ?
Não, diz a administradora,
Que falte tudo… menos a ciência!

Com o prémio e o pecúlio
Foge, foge, ó Aguiar!,
P’ra onde, pergunta o Júlio,
Se eu nem sequer sei surfar ?!

Com a crise a durar,
Tudo chora, minha gente,
E com o trabalho a dobrar,
Da secretária ao docente.


Com a saúde feita em cacos,
Que se lixe a educação,
Na rua é só  buracos,
Acabou-se o alcatrão.

Até os melros, de certo,
Emigraram para Angola,
Transformando em deserto
O campus da nossa Escola.

Até a pobre da Marta,
Sonha à noite com coelhos,
Dando cabo da relva, farta,
Que chegava até aos joelhos.

Mas agora o que é chique
É exportar nosso produto,
Para Angola e Moçambique,
Processado ou em bruto.

Esta escola de doutores,
Empresa de exportação,
Vai p’ra bolsa de valores,
P’ra ajudar a Nação.

Este é o estado da Nação
Que penhorou o seu Estado,
Do hospital à prisão,
Só resta o triste fado!

Saúde agora é saudinha,
Diz o rei mago Gaspar,
Medicamento é mezinha,
Sopa do pobre, jantar.


 Esta escola não é escolinha,
 Vamos lembrar o velho adágio,
Na nossa santa terrinha
Vale tudo, sim,  …menos o plágio.

Boas festas, presidente
Do conselho pedagógico,
Contra o eduquês corrente,
Temos um combate ideológico.

Boas festas, presidente
Do conselho científico,
Diga lá agora à gente
Se o lugar não é pacífico.

Boas festas, presidente
Do conselho de escola,
Afável e sorridente,
É um senhor sem cartola.

Boas festas, presidente
Do conselho de gestão,
Que em cima põe o cliente,
E em baixo… os que aqui estão.

Boas festas, professores,
No dia do fim do mundo,
Pra quê fazer mais doutores
Se isto vai tudo ao fundo?!

Boas festas,  Cê Dê I,
És o templo do saber,
O  papel diz “Já morri!,
Mas continuo a valer”.

Boas festas, pró setor
Da nossa pagadoria,
Meninas que são um amor,
E uma fonte de alegria.


Boas festas, Marieta
Mais o resto da sua secção,
Falte o papel e a caneta,
Mas nunca a motivação.

As secretárias  da escola
Ficam no fim das janeiras,
Meto no saco na viola,
Já não digo mais… asneiras.

São versos de mirra e  incenso,
Com o ouro da amizade.
O  Natal, segundo o que eu penso,
É o que fazemos… na cidade.

Luís Graça
ENSP/UNL, festa de Natal, 21/12/2012





PS - Boas Festas para toda a gente desta casa: gabinete de comunicação, gabinete de informática, gabinete(s) de projetos, serviço de publicações, Revista Portuguesa de Saúde Pública, bar, reprografia, segurança, portaria… (será que esqueci alguém?), bem como da NOVA, incluindo os nossos queridos alunos, sem os quais fecharíamos as portas…
E pró ano logo se vê, se o mundo não acabar hoje!... Estaremos cá todos/as!...



Vamos cantar as janeiras (4): Escola Nacional de Saúde Pública, 2009


Cantigas de escárnio e maldizer… natalícias

Se ele há coisa que não rima,
Nesta Escola Nacional,
É o depressivo clima
Da campanha eleitoral.

Fui a Delfos consultar
A pitonisa famosa,
Pôs-me um galo a cantar
Em pose vitoriosa.

No templo de Epidauro,
Logo perguntei, sorumbático:
- Eleito,  é cristão ou mouro ?
- Será doutor… hipocrático!

Na sinagoga, gentil,
Rabino disse que “Cá,
Não há OPA hostil,
É vontade de Jeová”.

Nem Sobrinhos nem Afilhados,
São os Grandes Eleitores,
Impolutos, sem pecados,
Os melhores decisores.

Sem sindicato de voto,
Decidindo em consciência,
Longe da algazarra do povo,
Dirão de sua ciência.

ENSP é uma marca
Tem história e tem brasão,
Mas há gente de visão parca
Que a quer pôr em leilão.

Vamos agora,  enessepês,
Que o Pai Natal faz ó-ó!,
Escolher uma boa rês
Para puxar… nosso trenó!


Quentes e boas… festas natalícias
Para todos os enessepês,
Alunos, dirigentes, docentes, não-docentes e demais colaboradores,
Que dão (ou já deram) o seu melhor
Para que cada um de nós continue em ter orgulho em dizer:
"Eu  ? … Eu trabalho (ou trabalhei)
na Escola Nacional de Saúde Pública",

Lisboa, ENSP, 17 de Dezembro de 2009
Luís Graça

terça-feira, julho 03, 2012

Blogantologia(s) II- (100): De Lisboa a Luanda, ou o puro azul do desejo


De Lisboa a Luanda: o puro azul do desejo



Estavam lindos os jacarandás
quando deixei Lisboa
e o Tejo,
ao fundo.
Eram o puro azul do desejo,
o azul mais inebriante do mundo.
Para trás,
ficava o sulco de uma canoa
e o cheiro a alfazema de Alfama.
No teu quarto, de hotel barato,
o sofá-cama desfeito
era um certo jeito de dizer adeus.
Um jeito tão português,
tão nosso,
o nosso fado,
dirás.
Não posso
falar da saudade de quem fica,
nem devo dizer do desejo de quem parte,
que o amor é ciência e é arte.
Subo aos céus,
em avião a jacto
que corta o planeta
em duas metades laranja
ao pôr do sol.
Não sei se é amor,
de jure e de facto,
ou apenas sorte
o arco-íris da tua paleta
com que pinto Lisboa de jacarandás.
Mas que pode a imaginação do poeta,
quando o coração, mais forte,
pensa que manda ?
Eram os teus lábios
que eu em vão procurava
nas folhas das acácias vermelhas
com que imaginava,
coberta,
a ilha de Luanda…

Luís Graça

Portugal, Lisboa, Parque Eduardo VII;
Angola, Luanda, Ilha de Luanda, Clínica da Sagrada Esperança, junho de 2012.

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terça-feira, maio 01, 2012

Blogantologia(s) II - (99): Poema para os dias tristes


Poema para os dias tristes
(Dedicado às mulheres que eu amo)

Às vezes não sabemos lidar
Com este mundo,
Sobretudo quando ele é claustrofóbico.
Às vezes temos de passar
A nossa temporada no inferno,
No mais fundo
Do ventre materno.
Ah! esta nossa terra,
Mãe e madrasta,
Madrinha de guerra,
Jocasta,
Que ora cuida de nós ora nos maltrata,
E a quem não conseguimos dizer Basta!

Não sabemos tirar a pedra,
A simples pedra,
Que serve de tampão ao nosso vulcão…
Todos temos um vulcão,
Nem que seja um vulcãozinho de estimação,
Um vulcão que é 70% de pura emoção,
Que é o puro delírio do poder
Ou do simples poder da imaginação!...
Antes fosse só poesia,
Implosão de alegria,
Poesia do delírio!...
Os outros 30% são
Cocktail de sangue, suor e lágrimas.

Mas é aqui que tu e eu vivemos
E respiramos,
Mesmo que mal,
E é aqui que sonhamos,
E nos enamoramos,
E aos sábados e domingos rezamos
Aos deuses que nos outros dias da semana criamos.

É aqui que eu  tiro a conclusão
Que sou livre  mas mortal.
É aqui (que eu sei) que vou  morrer,
Ponto final!
Digo que vou morrer, meu amor…
Mas o que é morrer ?
Sei lá, é o fim da espiral,
O cabo finisterra,
O colapso dos meridianos,
A cama terminal do hospital.
Sei que vou morrer
Pela simples lei das probabilidades:
Tudo o que vive, morre,
Tudo o que vai morrer, já viveu.
E eu vivo, logo morro!
Nada mais cartesiano…
Só não sei a hora, o dia, o mês e o ano!

Receio bem, querida,
Que não tenhamos alternativa,
Podemos mesmo achar
Que é injusto ou até indecente
Não haver uma 3ª via
Entre o viver e o morrer.
Pena que a vida
Seja o que é,
De sentido único,
Do berço à cova.
Pena que não seja como o serviço de buffet
Do restaurante,
Para ao menos se poder escolher
Entre o frio e o quente!
Oxalá o amor, meu amor, fosse eterno!
Ou oxalá fosse eterna a doce ilusão do amor!

Estou agora parado,
Feito pateta,
No entroncamento do planeta,
Num comboio fantasma,
Sentado no lugar do morto
Que não vejo,
E que foi vítima de um qualquer miasma.
Ah! Como eu invejo
Os otimistas profissionais,
Os arquitetos do futuro,
Os céticos,
Os agnósticos,
Os chacais,
Os místicos,
Os letrados,
Os prognósticos
(mesmo que reservados),
Os tristes,
Os bem aventurados,
Os altruístas,
Os mente…capos,
Os amigos da humanidade,
Todos aqueles,
Que vão pondo andaimes
Nos cumes do nada.

A verdade
É que às vezes não sei
Onde pôr os pontos nos ii
Nem os pontos de reticência
Na  Sua Excelência!
Ou até, pasme-se!, a pomba da paz
Na alto do quico do general,
Que é o palhaço de serviço ao circo global!
Mas isso tanto faz:
Nem sequer sei pôr,
Como manda a boa ortografia,
O simples ponto
De interrogação (ou de exclamação ?)
Na eternidade.
Ou o  simples dedo…
No cu do medo!

Lisboa, 14/2/2012

segunda-feira, março 19, 2012

Blogantologia(s) II - (98): Meu pai, meu velho, meu camarada

Para todos os pais,
Os nossos pais,
Que vivem com a dignidade possível
na solidão instuticionalizada dos terminais da morte


Meu pai,
Meu velho,
Meu camarada…
Sinto que estás achegar ao fim,
Sinto que estás a desistir,
Sinto que estás com poucas ganas de lutar
Contra o inexorável fim…

É com um aperto no coração
Que te vejo aí deitado no teu cadeirão articulado,
Do Lar da Senhora da Guia, 
Na Atalaia da Lourinhã,
Com as velhas canadianas definitivamente arrumadas a um canto…
Onde está o teu proverbial sentido de humor,
Quando brincavas com as tuas canadianas,
Dizendo que tinhas trocada uma velha por duas novas ?!…
Onde está o teu gosto pela anedota,
O verso, o improviso, o dito sempre apropriado
Para cada conversa, para cada ocasião ?

Meu pai, meu velho, meu camarada…
Sinto que está agora mais difícil, para ti,
Prosseguir a viagem…
Já não queria que fosses até ao km 100,
Da autoestrada da vida,
Queria que chegasses ao menos até ao km 92,
Devagarinho, sem dores,
No dia 18 do próximo mês de Agosto…

Se calhar estou a ser egoísta,
E a subestimar ou menosprezar os teus avisos:
“Isto tá bera, Lis Manel”
(É assim que me tratas, sempre me trataste, 
por Lis Manel).
Claro que eu vou brincando contigo,
Desafiando-te para ires ver o mar,
Não o mar azul do Mindelo,
o mar do Porto Grande e o ilhéu dos Pássaros,
Mas o das Berlengas,
Limpar a vista, tu dizes,
E tomares o café com o cheirinho,
No bar dos Cinco Paus,
Mostrando-te a amarelinha em balão:
“Tome (nunca te tratei por tu)
que no céu não há disto!”

O que te prende à vida, meu velho ?
A tua velha companheira, muda e queda,
Ainda a teu lado ?
Os teus filhos, netos e bisnetos,
Que já são tantos que dão Para fazer duas equipas de futebol ?
Já não queres ver os teus amigos
Do banco do jardim,
Do Largo da Igreja,
Já não te interessas pelos resultados do teu Benfica,
Já deixaste de escrever o teu diário,
Já não lês a Bola,
Já não ouves o relato da bola,
Já não vais à bola ao domingo, com o Mário,
Nem gritas aos jogadores do Lourinhanense:
“Quem ganha é quem corre,
Quem ganha é quem corre!”
Já não corres, meu pai,
Já correste tudo o que tinhas a correr
Pela vida fora, na labuta da vida…
Mas ainda continuas a ganhar, meu velho,
A marcar pontos, meu camarada…
Os do exemplo de bondade,
Humanidade,
Coragem,
E sabedoria…

Um bom dia do pai,
No dia do pai,
Para ti
Meu pai,
Meu velho,
Meu camarada!

Alfragide, 19 de Março de 2012

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Blogantologia(s) II - (97): Dies irae, dies illa!

Dies ira

Dedicado a todos os camaradas,
humilhados,
esquecidos,
abandonados,
ostracizados,
emigrados,
exilados,
que um dia subiram o portaló
dos Niassa, dos Uíge, dos Ana Mafalda,
a caminho da Guiné,
aquela terra verde e vermelha
que a todos nos marcou,
a ferro e fogo...
sem esquecer os que simplesmente viajaram nos TAM!

Que o ano de 2012,
mesmo de raiva,
seja de coragem e de esperança!
Como os anos que passámos na Guiné!



Cavalgam caudalosos os rios
Pela terra adentro,
Enquanto fluem ruidosos
Os dias da guerra.

Rios que não são rios
Mas rias,
Entranhas ubérrimas
Fustigadas pelo vento,
Rias baixas pela manhã,
Pedaços, braços de mar,
Restos de tsunamis,
Pontas de fuzis,
Palavras acérrimas,
Imprecações ao Grande Irã,
Picadas minadas
De ir e não mais voltar.

Dias que não são dias,
Circadianos,
Mas fragmentos,
Ora ledos ora amargos enganos,
Estilhaços de tempo,
Riscos nas paredes sujas dos bunkers,
Repentinas emboscadas,
Breves finais de tarde,
Instantes,
Flagelações,
Balas tracejantes
Sob o céu verde e vermelho
Enquanto o capim arde.

Narciso, revejo-me ao espelho,
Quebrado,
Vou nu,
De camuflado,
De azul,
Celestial,
Ao encontro do anjo da morte
Em Jugudul.
E não há estrelas
À noite,
Mas a bússola indica o norte,
Sideral,
Nunca o sul,
Nunca o nascer nem o morrer.

Dies irae, dies illa,
Dia de ira, aquele,
Em que subiste o cadafalso do Niassa,
Ou do Uíge ou do Ana Mafalda,
Dias de ira, aqueles,
Os da guerra!
Calai-vos,
Rápidos do Saltinho,
Rápidos de Cussilinta,
Vós que mais não sois
Do que canoas loucas,
Desenfreadas,
Levadas pelo macaréu da nossa raiva,
Entre o Geba e o Corubal.

Braços que não são braços,
Amputados,
Mas apenas tatuagens,
Traços,
Letras de fado pungentes,
Pontes que são miragens,
Tentáculos, serpentes,
Lianas, cortadas pela catana,
A eito,
Pela floresta-galeria,
Inferno tropical,
Túneis, tarrafo,
Bolanhas, lalas, bissilões,
Curvas da morte do Cacheu ao Cumbijã,
Apocalípticos palmeirais,
Pontas de punhais
Cravadas no peito,
Irãs acocorados
No alto dos poilões.

E depois o silêncio.
O impossível silêncio.
O silêncio das partituras,
Das mapas dos argonautas,
Partículas,
Pausas,
Pautas,
Cartas de tiro
Com claves de sol,
Desidratação,
A ogiva do obus,
O medo da avestruz,
O roncar do helicanhão,
Gritos do djambé,
E do macaco-cão,
Gemidos de kora,
Espasmos de balafon,
Rajadas de kalash
Ecos do bombolom,
Bombas de fragmentação
Que correm no dorso dos cavalos
Desde o Futa Djalon.

Não vou poder ouvir o silêncio do Cantanhez,
Nem quero ouvir o grito da morte
Outra vez.
.

Vamos cantar as janeiras (4): Escola Nacional de Saúde Pública, 2011

Lisboa, ENSP/UNL, Festa de Natal,

Aos antigos diretores desta casa,
Ao presidente e membros dos atuais órgãos de gestão da Escola,
Conselho Geral,
Diretor
Sudiretora
Conselho de Gestão,
Conselho Científico
E Conselho Pedagógico…

A todos os demais senhores e senhoras,
Meninos e meninas,
Discentes, docentes e não docentes,
De todos os pisos,
De todas as secções,
De todos grupos de disciplinas,
De todos os gabinetes e projetos,
Comissões, subcomissões e grupos de trabalho…
Sem esquecer o pessoal do Back Office
Que faz parte da equipagem deste barco
(na marinha, diz-se navio, NPR –Navio da República Portuguesa):
Os serviços administrativos,
Os financeiros,
Os académicos,
Os secretariados,
As publicações,
A documentação e a informação,
A comunicação e imagem,
A informática,
As telefonistas,
A reprografia,
A manutenção, o bar, a limpeza, a segurança…
(sem esquecer os ratos, que também fazem parte de qualquer navio)

Boas festas a toda a gente,
Um Natal feliz e quente!…



O nosso alegre fadário (*)


[Tiítulo apropriado para as nossas Janeiras, em ano… em que Fado deixou de ser lisboeta e português: é agora Património Imaterial da Humanidade… E para que não digam que o ano de 2011 foi mais um annus horribilis do nosso Séc. XXI…]



Refrão

Sou o Principal
Desta Escola Nacional
Em que a saúde é global
E onde tudo é velho e novo…
E governando,
O barco lá vou levando,
Ai!...
O orçamento esticando,
Mas sempre… a bem do povo!

1.

Ainda mal era estudante,
Logo a achei deslumbrante,
Higia, deusa querida,
C’o tempo deu-lhe trela,
Namorei, fiquei com ela,
P’ró resto da minha vida!

2.

Qu’amor tão salutogénico,
Que casal tão transgénico!...
Só o Olimpo não perdoa
Tamanha humana vaidade,
A da eterna mocidade
No corpo de uma pessoa!

3.

E por mal dos meus pecados,
Chovem queixas e recados:
Essa deusa é paranóica,
Se não poupas o tostão,
Vais morrer de coração,
É melhor chamar… a troika!

4.

Pobre de mim, economista,
Nem p’rós melros tenho alpista,
Nem papel para as retretes;
Ai que me dá um achaque,
Vem lá o homem do fraque
E até nos leva os croquetes!

5.

Mesmo quem não é cá da rua,
A esta Escola chama sua:
Seu patrono é o Padre Cruz,
Tem condomínio fechado,
Com o INSA, geminado,
A quem paga água e luz.

6.

Chamam-lhe a Árvore do Mal,
Vai p’ra abate municipal,
É o cantinho do fumador…
Cada dia cai uma pernada,
E mesmo não dando por nada,
Paga o justo p’lo pecador.

7.

Para acabar o fadário,
Falta o conto do vigário,
Health is business, não é esmola:
Dando a Higia como dote,
Dá-se às manas um retoque
E cria-se a… Grande Escola!

8.

Boas festas, senhor Reitor,
Nosso amigo e benfeitor,
Saia o teste de literacia,
Oito mais um é poesia.
Soma nove e fora… NOVA,
Aqui tem a nossa prova!


9.

Boas festas, senhores discentes,
Nossos queridos clientes,
São os votos dos professores;
C’o histórico orçamento,
Quem lhes paga o vencimento
São os futuros doutores.


10.

Boas festas à Direcção,
Está cumprida a tradição,
Obrigados p’lo almoço;
Retribuímos co’ as Janeiras,
Modo de dizer asneiras
Do povo… em alvoroço!

11.

Boas festas aos demais poderes,
Científicos e pedagógicos,
Digitais e analógicos;
C’poucos teres e muitos saberes,
De fraque e até de cartola,
Assim se faz uma escola.


12.

E p’ró fim fica o melhor,
Boas festas, pessoal menor,
Nunca vos falte o trabalho:
Cá por mim nos invejo.
E neste Natal desejo:
“Nunca digam… pouco valho”!!!

Refrão


Sou o Principal
Desta Escola Nacional
Em que a saúde é global
E onde tudo é velho e novo…
E governando,
O barco lá vou levando,
Ai!...
O orçamento esticando,
Mas sempre… a bem do povo!

(*) Inspirado no Fado do Cacilheiro

Letra : Paulo Fonseca (**); música: Carlos Dias

[Criação do ator de revista José Viana, justamente imortalizado como o Zé Cacilheiro. Veja-se um vídeo, de 1966, que passou na RTP Memória, e está disponível no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=qL07wLZPGFw&feature=related ]



(**) Fado do Cacilheiro

Quando eu era rapazote,
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida,
Manobrei e gostei dela
E lá me atraquei a ela
P’ró resto da minha vida.

Às vezes, a uma pessoa,
A idade não perdoa,
Faz bater o coração
Mas tenho grande vaidade
Em viver a mocidade
Dentro desta geração.

Refrão

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo,
E, navegando,
A idade vai chegando,
Ai…
O cabelo branqueando,
Mas o Tejo é sempre novo.

Todos moram numa rua
A que chamam sempre sua
Mas eu cá não os invejo,
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas
E a minha rua é o Tejo.

Certa noite de luar
Vinha eu a navegar
E de pé junto da proa
Eu vi ou então sonhei
Que os braços do Cristo-Rei
Estavam a abraçar Lisboa.

Refrão…

quarta-feira, outubro 12, 2011

Blogantologia(s) II - (96): Não sei qual é mais feio, se o meu joanete, se a minha alma, se o mundo...


Lourinhã, Praia da Areia Branca > 9 de Outubro de 2011 > O meu último passeio, antes de "ir à faca"... As efémeras impressões da minha pata esquerda na areia.

Fotos (e texto): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. 

Dedicatória:

Em homenagem aos nossos médicos,
que passaram pelo TO da Guiné, em geral;
e muito em particular ao meu camarada de armas,
mais tarde cirurgião, ortopedista,
Dr. Francisco Silva,
que me operou em 12/10/2011,
ao meu joanete (LG)


Não sei qual é mais feio:
se o meu joanete,
se a minha alma,
se o mundo…

Fui fazer um raio X
ao tórax
e à pata,
esquerda.
É tão feio o esqueleto,
assim descarnado.
Uma merda,
dirá o poeta, desbocado,
pondo os pontos nos ii.
Mesmo que não seja o esqueleto,
inteiriço,
que seja apenas uma perna ou uma pata,
até mesmo só a pata da perna esquerda,
la zampa della gamba sinistra,
como dizem os italianos,
a pata que em todo o caso
já calçou muita bota cardada,
civil e militar,
e já levou muita pisadela nos calos.

É uma merda, o esqueleto
visto ao negatoscópio.
Nem sequer no livro de anatomia,
gosto de te ver, esqueleto meu!
O ortopedista não concorda:
Afinal, a pata,
é onde ele põe a mão
e ganha o pão.

P’ra mim,
desculpem-me a franqueza
todos os meus amigos hipocráticos,
e todos os meus camaradas de armas, medalhados,
é feio o esqueleto,
o tórax,
o metatarso,
assim radiografado.

Nu.
Sem pêlo.
Sem chicha.
Sem embrulho.
Sem a farda.
Sem os galões.
Sem as medalhas.
Sem os tendões.
Sem os ligamentos.
Sem o papel celofane.
Sem a epiderme.
Sem o nervo à flor da pele.
Sem a camiseta Lacoste dos teus verdes 20 anos.

É peremptório o relatório,
médico:
Tenho o metatarso deformado,
o dedo grande do pé todo torto,
dois dedos encavalitados,
um joanete,
um trambolho.
Hallux abductus valgos,
no latinório hipocrático.
Sequelas, quiçá, da vida,
das tropelias,
da tropa,
da Guiné,
eu sei lá!,
das marchas a mata-cavalos.
das cambanças
por lalas e bolanhas,
por rios e tarrafos.
- Faca com ele, o joanete!-,
diz o ortopedista,
franzindo o sobrolho.

Fui fazer um ressonância magnética.
À alma.
Translúcida como uma alforreca,
espalmada como um linguado do estuário do Tejo.
É feia a alma,
diz-me o imagiologista,
quebrando o dever de reserva da intimidade
e de sigilo profissional.
Mas eu não posso deixar de concordar:
É feia, a alma, sem carne nem osso.
- Tens um diabrete a atormentá-la,
um irã mau -,
diz-me o Doc,
curandeiro,
balanta,
do Largo de São Domingos,
na baixa lisboeta,
cais dos náufragos do império.
Sequelas porventura do tempo
em que fui o guardião de Nhabijões
onde o bulldozer deitou abaixo todos os sagrados poilões,
porque reordenar era preciso…
- Opero ou não opero,
eis a minha questão existencial -,
segrega-me ao ouvido
o meu cirurgião da alma,
com a maior calma,
diga-se, deste mundo.


Faço uma tomografia axial computorizada
ao mundo.
Ao meu planeta outrora azul.
Entre o tá-tá-tá e o pum-pum-pum do aparelho,
passo em revista o meu mundo,
descubro-o
medonho, pavoroso, cavernoso.
Mais feio que o meu joanete,
mais torto que o meu metatarso,
mais lúgubre que a minha alma.

Tem um cancro,
generalizado,
local,
regional,
global.
Com metástases por todo o corpo,
da crosta terrestre ao mais fundo do fundo.
Fui, com o meu planeta outrora azul,
à Oncologia,
baixaram a cabeça,
em sinal de impotência e negação.
- Não sei como extirpá-lo,
não há ciência e tecnologia médicas
para tamanha patologia-,
diz-me o cirurgião do mundo…

Explicou-me,
em traços largos,
na capa de uma revista cor de rosa
do tempo da belle époque,
o prognóstico, reservado:
- Não há mais mundo, meu caro…
Muito menos azul, quanto mais rosa.
Não há mais mundo à volta da carne,
do osso,
da pata,
do joanete,
da alma…


Resta-me,
impávido e sereníssimo,
o verídico do Dr. Francisco Silva,
meu amigo e camarada da Guiné,
irã bom do poilão da minha tabanca,
que tem encontro marcado com o meu pé
no dia 12 de Outubro de 2011,
no bloco operatório do Hospital Amadora-Sintra.
- Depois das férias,
meu camarada,
vamos começar por tratar desse joanetinho.…

… E eu tenho a secreta esperança
de que, se a minha pata ficar mais bonita,
a minha alma também fica…
e quiçá o mundo melhore um bocadinho!